domingo, 5 de abril de 2015

ENSINAMENTOS DE VÓ

      Minha avó é um presente para sempre presente em tudo que sou. 
     Como uma verdadeira mulher de idade, ela era o próprio símbolo da dignidade, sabedoria, experiência, atenção às tradições e limites bem definidos. Tudo isso, claro, com boa dose de irreverência irritadiça, franca e encantadora para contrabalançar.
      Via-a pouco, mas apreciava-a muito. Para mim, ela era uma espécie diferente das outras mulheres que conhecia. Somente em alguns momentos conseguia vê-la em sua dimensão humana. Minha grande parceira de jogo da memória. A melhor compradora dos meus chaveiros de coleção, que ela mesma me dava. Apenas nós duas entendíamos quão valiosos e raros eles eram.
     Em sua máquina de costura, ela inventava maravilhas com restos de tecidos e tinha sempre solução para tudo. Minhas bonecas eram elegantes graças a ela. E sempre que lhe confidenciava minhas chateações cotidianas e problemas de família, ela ia logo dizendo:
-Bobagem filha. A vida é assim mesmo, melhor viver sem muita dramatização. Com pai e mãe é preciso paciência e família é assim, “à moda da casa”, cada casa gosta de prepará-la a seu jeito, impossível a comparação
    Lugares-comuns, para problemas comuns de uma vida comum.
    Como em geral faz com quase todos, a vida deu e tirou de tudo da minha avó. Quando menina ela perdeu o pai e depois, mais um pouquinho, lá se foi o único irmão, que era o arrimo de família. É incrível como os azares nessa vida sempre vêm aos pares.
    Então lá foi ela, ainda muito jovem, trabalhar para sustentar a casa, a mãe e a irmã. Não demorou muito, sua irmã sempre muito doente, também faleceu deixando-lhe de presente sua única filha - minha mãe – para que ela continuasse a criar. E ela criou sozinha, como se fosse sua. 
    Enquanto a maioria das mulheres, naquela época, cursava magistério, minha mãe, orientada por minha avó, estudou inglês e fez secretariado para poder trabalhar em multinacional. E ganhou dela, o seu primeiro carro.
-Mulher tem que ser independente, dizia minha avó, como uma verdadeira mulher à frente de seu tempo.
    Durona feita uma rocha, abraços e carícias decididamente não eram seu forte. Suas lágrimas jamais ficaram à mostra. Mas sempre que ouvia sobre os meus sonhos extraordinários e os projetos grandiosos para minha vida, seu riso se abria e seus olhos brilhavam. E era exatamente nesse seu sorriso que ela me mostrava que entre um cantinho e outro da boca, sem muito esforço, cabe todo o amor do mundo. Amor desmedido que dispensa palavras e gestos largos, porque o amor é sempre assim, cheio de desimportâncias que fazem uma vida.
   Somente depois que sua mãe morreu e a minha mãe se casou que minha avó se permitiu ter um companheiro e uma vida só dela. Ao optar por não casar foi muito discriminada e ouviu bobagens, mas com sua elegante irreverência, não se curvou. E foi feliz.
   Não tardou, seu companheiro morreu. Achei que seria um baque, mas ela mudou da casa em que viveu com ele como quem passa no vestibular. Não, não era falta de saudades ou de amor no casal. Era só a vontade de viver dela, sempre a prevalecer.
   Alguns anos depois, quando minha mãe faleceu, mesmo na dor inominável da inversão da lógica de sepultar aquele que deveria sepultá-la, lá estava ela, firme e forte, pronta para me confortar e me empurrar adiante:
-A vida é professora que dita rápido, acompanha quem puder. Sem autopiedade, minha filha. Sem autopiedade.
   E mais tarde, no meu casamento - tendo feito uma mastectomia há menos de um mês - novamente lá estava ela, linda e forte, sorrindo para mim.
   Não, tragédias não faltaram. Mas a mulher tinha uma força para seguir em frente que só vendo! Com sua imensa sabedoria, soube preservar sua individualidade, liberdade e autonomia até o fim. A solidão nunca a assustou e na sua simplicidade, ela deu conta da vida curvando-se sempre, sem nunca se quebrar.
   Quando ela partiu, foi muito duro. Lembro-me que passei muito tempo tentando exorcizar a tristeza com rituais inúteis. Ainda bem o tempo decanta o passado e os dias se encarregam de colocar tudo na perspectiva adequada. Atualmente lembro-me dela com alegre saudade. Claro que é possível. Sempre há algo divertido e leve na dor da lembrança
   Hoje minha avó tem cheiro de pão de queijo e bolo de fubá. Tem gosto de minestrone e de ameixa amarela. E sua marca registrada é o “coque banana” - impossível ver alguém de coque banana sem me lembrar dela. Além disso, diversas frases, circunstâncias e alguns dos seus objetos pessoais, que hoje fazem parte da minha casa, sempre me remetem a ela, com alegre saudade.
   E nesses momentos eu agradeço. Agradeço aos céus por ter tido o privilégio de ser sua neta. Pela oportunidade de aprender com ela sua arte de saborear a vida. Agradeço por ela ter de mostrado, à sua maneira, que a vida sempre é possível.
   Espero me lembrar de seus ensinamentos até o final, mas se por acaso, por algum motivo um dia esquecer, deixo-os aqui registrado para alguém possa me contar.
-A vida é professora que dita rápido, acompanha quem puder. Sem autopiedade, minha filha. Sem autopiedade...

segunda-feira, 9 de março de 2015

Maceió: linda e cheia de charme

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     Se você nunca foi a Maceió, coloque a capital de Alagoas no seu mapa. É imperdível!!!
    Considerada uma das capitais mais bonitas do nordeste – para alguns, a capital mais‘fotogênica’- Maceió oferece aos turistas uma orla extensa e preservada, com um lindo mar em tons de verde, piscinas naturais, coqueirais a perder de vista, uma excelente culinária, além de um povo alegre e muito simpático.
    Aliás, quanto mais viajo por esse nosso ‘Brasilzão’afora, mais me convenço que Lulu Santos tinha toda a razão: o Havaí é mesmo aqui.
    Maceió é uma cidade simples, de fácil deslocamento, por isso o ideal é alugar um carro, aproveitando o fato de que as principais atrações concentram-se numa linha reta e encontrar lugar para estacionar nunca é problema. Muito embora as praias mais bonitas fiquem ao norte e ao sul de Maceió, a ‘vibe’da orla do centro da cidade é vibrante e contagiante. Assim, vale a pena ficar por lá pelo menos dois dias para curtir a praia e passear pelo calçadão no final da tarde.
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     Assim, sugiro que inicie sua viagem escolhendo um dos hotéis da praia de Pajuçara - você poderá escolher aquele que melhor se encaixa no seu bolso pelo Booking, Decolar ou Tripadvisor.
     Nessa praia você encontrará dezenas de jangadas que levam os turistas aos arrecifes, pouco quilômetros mar adentro, onde as piscinas naturais, os peixinhos coloridos e as formações de coral fazem a diversão da galera.
     Sucesso de público e no quesito gente bonita, ali você também vai encontrar as barracas Lopana e Kanoa, lugar perfeito para um fim de tarde ao som de jazz e música estilo lounge. Também pode ser uma ótima alternativa para as manhãs de sábado ou domingo, dias em que ambas as barracas estendem seu atendimento à faixa de areia em frente, com um cardápio cheio de sucos feitos da própria fruta, caipiroscas no ponto, saladas e caldinhos. E, caso não tenha se interessado em ir de jangada às piscinas naturais, poderá optar pelo confortável passeio de catamarã nas piscinas de Ponta Verde, que parte da Lopana.
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    Outro passeio divertido e obrigatório pelo centro é a Feirinha de Artesanato da Pajuçara, organizada com artigos bonitos e muita renda de filó – carro chefe do artesanato local. Lá também é um ótimo local para comprar castanhas de caju torradinhas, a preço bem convidativo.
     Como optamos por ficar na praia do Francês, ao sul, não tivemos interesse em conhecer Maragogi, nem a rota ecológica das praias ao norte, muito embora existam vários passeios disponíveis. Pretendemos fazer isso em outra viagem. Assim, ao norte, o máximo que fomos foi até o bar e restaurante Hibiscus, que fica na praia de Ipioca.
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     Discretamente localizado dentro de um condomínio, o Angra de Ipioca, com acesso pela rodovia AL-101, o Hibiscus viroupoint coolde quem quer curtir uma praia com estrutura rústico-chique e boa seleção musical de rock dos anos 60,70 e 80, jazz e MPB. O local é bonito e aconchegante e a infraestrutura é ótima, principalmente para a criançada. Mas prepare o bolso, porque apenas para entrar, terá que pagar R$25,00 por pessoa.
     Se resolver ir até lá, minha sugestão é o polvo com ervas. Um dos melhores que já comi na vida. Ele simplesmente derrete na boca!!!
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    Na praia do Francês, ficamos no hotel Ponta Verde, novinho em folha, com quartos grandes e serviço muito bom. O local é ótimo e privilegiado, assim recomendo. Ela fica a apenas 33 quilômetros de Maceió, no município de Marechal Deodoro. Com tons de água que vão desde o verde claro ao azul intenso, a praia do Francês é considerada point pelos alagoanos.
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     Além de muita belezura, se der sorte, ainda poderá encontrar por lá o Nino, tirador de ouriço – figura carismática da região que vai fazer você entender que a arte sempre repete a vida - Chico Anízio que o diga. Espero sinceramente, que você, assim como eu, não precise dele. Por isso fique esperto nos passeios porque sim, há muitos ouriços nas pedras!!! E o Arliedson – sempre me divirto com esses nomes que homenageiam o avô, a avó, o vizinho e o ídolo de futebol em combinações que na maioria das vezes não combinam nada - ele fica zanzando de um lado para o outro da praia com roupa branca e chapéu amarelo, vendendo comida e seu imbatível suco solvete - tão batido que vem nevado: com uma nuvem em cima. Nem preciso dizer que é outra figuraça, né?
     Lá também tem o delicioso acarajé da Malu e mais um monte de gente que se vira nos trinta e anda pela praia o dia inteiro, naquele sol de rachar o coco, vendendo uma variedade enorme de coisas com um sorriso no rosto e sempre muita história para contar...
     De lá, um dia fomos até a Barra de São Miguel, outro balneário bem badalado da região sul, onde ficamos na barraca de praia Praêro, local bem gostoso, para variar. Lá, além do coquetel clássico de abacaxi, servido na fruta, comemos o filé cremoso indicado pelo garçom, que indico.
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     E noutro, fomos até a praia do Gunga, considerada pelo Guia 4 rodas, um dos cenários mais deslumbrantes do Brasil. Seu acesso pode se dar de barco, partindo da Barra de São Miguel, ou de carro. Lá o calmíssimo e transparente mar é fruto da junção das águas da lagoa do Roteiro com o oceano Atlântico. Para chegar ao Gunga de carro, você terá que seguir pela Rodovia e passar pela imponente ponte que atravessa a Lagoa até a fazenda de cocos onde está localizada a praia. O cenário é deslumbrante, e o coqueiral é a perder de vista. Simplesmente maravilhoso!!!
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     Mas, o mais legal de lá é que, cansou da areia e quer fazer alguma coisa diferente do tipo, voar num planador? Fazer passeio de lancha? Bananaboat? Atravessar até a Barra de São Miguel do outro lado do rio? Fazer umas comprinhas? Tem, tem, tem, tem e tem. E tem também passeio de quadriciclo ou de buggy até umas falésias ali nas redondezas, com cenário paradisíaco.
     Esculpidas pela erosão, trabalho do mar, da chuva e dos fortes ventos do nordeste, essas falésias, com pequenos cânions e galerias apresentam cores e tons muito variados, uma composição capaz de deslumbrar qualquer visitante, até os mais exigentes.
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     Quanto aos restaurantes? Para quem gosta de comida típica nordestina, indico o restaurante Bodega do Sertão – lugar aconchegante, com decoração rústica e detalhes regionais de encher os olhos. Vale a pena experimentar a carne de sol com nata. O restaurante recebeu o prêmio da Revista Veja de Comer e Beber em 2011 e 2012.
     Outro restaurante imperdível é o Imperador do Camarão – tem o restaurante e a barraca de praia. Lá, o carro chefe é o chiclete de camarão, prato típico da região. Vale a pena conferir.
     Agora, se estiver cansado de comida típica e frutos do mar, uma ótima opção é o Parmegiano. Pratos muito bem servidos, serviço rápido e preço justo.
     Também sugiro o Akuaba – comida baiana e o Wanchako - referência nacional de comida peruana, ambos muito bons, indicados por uma amiga alagoana do meu filho. Valeu a dica, Gabi!!!
     Finalmente, não deixe de conhecer o restaurante SUR - denominado de cozinha alagoana criativa. Atualmente esse é o restaurante mais recomendado da região.
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Carne de sol em formato de rosbife com dois tipos de molho, com destaque para cebolas caramelizadas  http://blog.tnh1.ne10.uol.com.br/nidelins/2013/05/15/cozinha-alagoana-criativa/
     Agora, se quiser uma lembrança diferente e ter a oportunidade de comprá-la das mãos do próprio artesão – o que particularmente eu adoro - vá ao Bairro das Rendeiras, que fica na direção sul, às margens da Lagoa Mundaú. As lojas se espalham pela rua oferecendo trabalhos em rendas e bordados no delicado estilo filé – rendado tipicamente alagoano.
     Aliás, você sabia que o bordado filé é reconhecido como Patrimônio Imaterial do Estado de Alagoas e já é até exportado? Caracterizado pela confecção de uma rede similar à de pesca, presa nas extremidades a um tear de madeira, é trabalhado em agulha e linha de algodão, transformando-se em um bordado com vários pontos geométricos e multicoloridos. No bucólico bairro do Pontal da Barra, a ágil agulha das rendeiras vai em movimentos rápidos e cadenciados, compondo a malha de rede de pescar, enquanto a “prosa” corre solta à beira da Lagoa Mundaú. Talvez você não dê muito valor no local, pela forma como ficam expostos, mas se souber olhar com outros olhos....são verdadeiras obras de arte, ao alcance das mãos e do bolso.
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     E se você é daqueles que gosta muuuuuito de artesanato e valoriza a arte brasileira assim como eu, procure pelas peças de cerâmica de João das Alagoas, da comunidade de Capela. João das Alagoas, como tantos outros artistas brasileiros, é um homem solidário que segue ensinando seu ofício a muita gente de Capela, como é o caso da ex cortadora de cana e mãe de três filhos Sil. Ele já fez de tudo na vida. Foi pedreiro, pintor e doceiro, até que descobriu o seu talento para a cerâmica. E que talento!!! Mestre em criar bois com desenhos em alto relevo com temas da cultura e da vida do nordestino, João das Alagoas é um retrato vivo da cultura popular. Gente que faz.
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     Abaixo, a minha mais nova aquisição, que está em local nobre da minha sala eclética. Um dia ainda mostro para vocês todas as peças que trouxe das minhas andanças pelo Brasil, e que me enchem de orgulho!!!!
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     E ‘bora’ viajar na viagem: antes, durante e depois...

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

EDUCAÇÃO EM TEMPO INTEGRAL

pilha de livros        Recentemente li nos jornais pequenas notas anunciando a adesão, para o ano letivo deste ano, de mais 75 escolas estaduais ao modelo de ensino de tempo integral. Com esse anúncio, serão ao todo 493 instituições públicas com jornada igual ou superior a sete horas e a meta, segundo o Secretário Estadual, é chegar em 2018 com pelo menos mil escolas estaduais incorporadas a esse modelo.
       Com milhões de crianças e jovens brasileiros sem as competências mínimas essenciais de leitura, interpretação de texto e raciocínio matemático, a perdurar não só a defasagem idade-série, como o analfabetismo funcional e o despreparo para a vida profissional e cidadã, a notícia me agradou, na medida em que o desafio da qualidade ocupa espaço crescente no debate público sobre educação no Brasil.
     Entretanto, educação em tempo integral não necessariamente se traduz em educação integral. Tudo depende dos objetivos traçados. Afinal, há uma distância enorme entre buscar ocupar os alunos e retirá-los das ruas, como tentativa de resolver o problema da violência urbana e efetivamente garantir-lhes a possibilidade de acessar conhecimentos indisponíveis em outros contextos de suas vidas, com chances reais de alcançar a universidade e sair da pobreza.
        Foi então que me lembrei das escolas KIPP- de tempo integral, existentes nos Estados Unidos. A primeira vez que li a respeito delas foi no livro “Fora de Série - Outliers”, de Malcolm Gladwell.
       O KIPP, na realidade, é um programa – Knowledge is Power Program, que pode ser traduzido como “Programa Conhecimento é Poder”. Ele foi lançado em 1994, pelos professores Michael Feinberg e Dave Levin, em duas escolas – uma do Bronx e outra em Houston, com o objetivo atender principalmente aos estudantes americanos de baixa renda de famílias afro-americanas e latinas, e a missão de garantir que as crianças dessas famílias - que costumam se perder nos meandros do sistema escolar americano – cheguem à faculdade, se formem e sigam carreiras enriquecedoras.
    Segundo pesquisas, 84% dos seus alunos apresentam um desempenho bom ou ótimo em matemática e graças a esses resultados, 90% dos seus ex-alunos obtêm bolsas de estudo para escolas de nível médio particulares ou paroquiais e mais de 80% conseguem cursar uma faculdade – sendo que em muitos casos são os primeiros membros da família a conseguir isso.
    Em razão dos bons resultados alcançados nos exames nacionais, baixa taxa de evasão e significativo percentual de seus egressos indo para o ensino superior, o KIPP tem se consagrado como o programa de maior sucesso e que mais tem conseguido agregar valor nos ganhos de aprendizado de crianças em situação de alta vulnerabilidade social.
        Mas, qual realmente o segredo de tanto sucesso?
       Muito embora inúmeras pesquisas insistam em apontar como justificativas mais recorrentes para a grande disparidade de aprendizado entre crianças pertencentes aos lares mais carentes e aquelas pertencentes a famílias mais abastadas: ou que as crianças dos lares mais carentes simplesmente não possuem a mesma capacidade intrínseca de aprender que as da classe alta; ou que, de algum modo, as escolas estão deixando de cumprir sua missão com os alunos pobres e não estão conseguindo ensinar-lhes as habilidades necessárias, o KIPP fugiu ao senso comum e se baseou em um estudo realizado por um sociólogo, Karl Alexander, da Johns Hopkins University.
       Acompanhando o progresso de 650 alunos a partir da primeira série do sistema de ensino público de Baltimore e verificando as suas notas num exame de habilidades matemáticas e de leitura, através desse estudo Karl Alexander descobriu quanto da disparidade de aprendizado resultava de fatos que ocorrem durante o ano escolar e quanto tinha a ver com o que acontece nas férias de verão. E os resultados, embora facilmente compreensível, foram surpreendentes.
        Eles apontaram que, enquanto as crianças da classe alta retornavam em setembro com suas notas de leitura quinze pontos acima, as mais pobres voltavam das férias com suas notas de leitura quatro pontos abaixo, levando à conclusão de que os estilos de criação causam sim, grande impacto nos resultados educacionais.
      Nas férias, filhos de pais de classe média que possuem educação formal e maiores condições financeiras são levados a museus, matriculados em programas especiais, frequentam programas de férias e acampamentos onde continuam aprendendo. Se estiverem entediados, tem à disposição livros para ler e seus pais geralmente se sentem responsáveis por mantê-los ativamente envolvidos com o mundo à sua volta, o que possibilita a eles maiores condições para melhorarem nas férias escolares a leitura e a matemática. Quando os pais são pobres e não tiveram acesso ao ensino formal, porém, as crianças não têm condições de frequentar acampamentos, programas de férias. Não dispõe de livros para ler, sendo muito provável que exista apenas uma televisão e a possibilidade de brincadeiras despreocupadas.
        Então, Alexander realizou um cálculo simples para demonstrar o que aconteceria se as crianças de Baltimore frequentassem a escola durante todo o ano e o resultado foi que, no fim da quinta séria, os alunos ricos e os mais pobres estariam quase no mesmo nível em matemática e leitura, o que o permitiu concluir que muito provavelmente não há um problema escolar ou curricular nas escolas públicas, mas sim de férias e período de funcionamento das escolas, para proporcionar um nível adequado de ensino aos mais carentes.
        Visando solucionar essa questão, as escolas KIPP resolveram oferecer aos seus alunos, aula das 7:25 às 17:00 hs, todos os dias, fazendo com que suas crianças estudem 60 a 70% mais tempo do que as da escola pública tradicional.
       Mas não foi só isso. Elas também se basearam no conceito asiático de estudo e trabalho, que possuí uma visão de mundo moldada pelos arrozais. Na rizicultura, quanto mais se trabalha num arrozal, mais ele produz, havendo uma clara relação entre esforço e trabalho. Por isso, nessa cultura se acredita que o caminho para o sucesso está no acordar antes do amanhecer, 360 dias por ano, e que dar duro é o que as pessoas bem-sucedidas fazem.
         Enquanto no Japão o ano escolar dura 243 dias, com carga horária média de sete horas por dia, enquanto nos Estados Unidos o ano escolar conta com 180 dias e carga horária media de cinco horas. No Brasil, somente a partir de 1996 o ano escolar passou a ser de 200 dias.
         Assim, nas escolas KIPP, muito embora não haja exame de admissão, nem pré-requisitos para o ingresso (a escolha é feita por sorteio), os estudantes só são aceitos se eles e seus pais, com o apoio dos professores, se comprometerem formalmente a colocar o aprendizado em primeiro lugar.
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        Além disso, nessas escolas a aprendizagem centra-se em 49% de conteúdos acadêmicos (academics) e 51% formação humana (character).
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        O que significa dizer que o programa KIPP é muito mais que o aumento da carga horária, representando, na realidade, uma nova filosofia educacional, considerada atualmente como uma das mais promissoras dos Estados Unidos, cujo sucesso não está relacionado somente ao currículo, aos professores, a recursos financeiros nem a algum tipo de inovação organizacional, mas principalmente, à mudança de paradigma, que leva a sério a ideia do legado cultural.
      Segundo David Levin, “o sucesso depende de muitos fatores: resistência, motivação, incentivo, recompensa, atividades divertidas e também da velha e boa disciplina. Conversamos muito com as crianças sobre determinação e autocontrole. Elas sabem o que estas palavras significam.” E isso, com certeza, faz toda a diferença.
      Ninguém duvida que o crescimento e a sustentabilidade do nosso país, nas próximas décadas, dependerão de políticas sociais e econômicas, e principalmente, de uma reforma inadiável no sistema educacional. Situação que não admite mais ações pontuais, muito menos improvisos. Nossa baixa competitividade no cenário global do futuro é flagrante.
       Por isso, deixo aqui registrado o modelo de escolas KIPP, com a esperança e o desejo de que essa nova iniciativa de jornada em tempo integral realmente faça sentido, garantindo professores motivados e qualificados, recursos didáticos, ambientes de aprendizagem de ponta e uma gestão de excelência, e principalmente, represente um pacto social e uma chance real para os nossos jovens saírem da pobreza.
      Sem isso, lá se vão os royalties do petróleo, que tanto podem turbinar nosso ensino, a escorrer pelo ralo. E de ralo já estamos cheios, não é mesmo?
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domingo, 4 de janeiro de 2015

FAHRENHEIT 451: um livro bem interessante

            Fahrenheit 451 é um livro incrível. É o tipo de obra que todo mundo deveria ler e refletir a respeito. Ele fala sobre um bombeiro que tem por função queimar casas inteiras que possuam livros. Afinal, livros fazem as pessoas pensarem e isso era exatamente o que o governo não queria, fazendo de tudo para evitar.Fahrenheit-451
           O livro é uma crítica ao que Bradbury viu como uma crescente e disfuncional sociedade americana. Trata-se de um romance distópico de ficção científica soft, escrito nos anos iniciais da Guerra Fria e publicado pela primeira vez em 1953.
          De capa dura, feito de tecido branco, com lombada serigrafada com uma superfície que imita caixa de fósforos e dispondo de um palito de fósforo, o livro por si só encanta. E o mais interessante: sim, o próprio livro pode ser queimado. O projeto é de Elizabeth Perez. Simples, mas envia uma mensagem muito poderosa, assim como a obra em si.
         O número 451 é a temperatura (em graus Fahrenheit) da queima do papel, equivalente a 233 graus Celsius.
         De implicações assustadoras, a forma como reconhecemos o nosso mundo naquele que é retratado em Fahrenheit 451 é impressionante.
         Fica a dica.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

UMA RECEITA, PARA VARIAR

      O apetite, assim como o sexo, sempre foram os grandes motores da história. Provocam guerras e canções, influenciam religiões, a lei e a arte e são os responsáveis pela preservação e propagação da espécie. Tanto é assim, que estão no rol dos sete pecados capitais, o que significa que, se não existissem, certamente o número de almas no Paraíso seria bem maior.
      Talvez seja por isso que calvinistas e outros aspirantes à perfeição cristã comam mal. Já os católicos, que nascem resignados ao pecado original e às fraquezas humanas e são purificados pelo sacramento da confissão, prontos para tornar a pecar, são muito mais flexíveis com relação à boa mesa. Felizmente, eu nasci e cresci dentre os últimos, o que me leva a crer, seja essa a origem do meu interesse pela culinária.
       Certa vez li num livro, que a culinária é o “resultado da luta entre um povo e sua terra”, e achei essa definição perfeita. Mesmo se procurarmos, não encontraremos na história nenhum povo sobre a Terra que não possua, de alguma forma, tradições ligadas à gastronomia.
       Entretanto, o que mais me fascina na culinária, é o fato dela ser uma arte capaz de aguçar quatro dos nossos cinco sentidos. Assim como o erotismo, a comida entra pelos olhos, se intensifica com o olfato, passa pelo tato, relacionado às texturas apuradas pela língua e boca, para finalmente chegar ao paladar. Deve ser por isso que muita gente se refere às comidas boas, como sendo aquelas para “comer de joelhos”, com certeza o único jeito para se redimir de tanto pecado.
       Mas é uma pena que, mesmo sendo tão essencial, aindasejam poucos os que efetivamente se interessem pela culinária. Principalmente no nosso continente, onde os machos em geral, continuam considerando toda e qualquer atividade doméstica um perigo para a sua virilidade. Mal sabem eles como nós mulheres, nos impressionamos com homens entendidos em comida.
       Claro que aqueles 'gourmets', capazes de escolher pratos em francês em um cardápio e discutir sobre vinhos com o 'sommelier' inspiram muito respeito, mas não é a eles que estou me referindo. Tão pouco me refiro àqueles caras desajeitados, ataviados, que se declaram especialistas e com grandes gestos chamuscam uma picanha na churrasqueira. 
      Refiro-me aos que sabem escolher os ingredientes e preparam-nos com arte, para oferecerem-nos como um presente para os sentidos e a alma. Esse homens com classe para abrir garrafas, cheirar o vinho e vertê-lo primeiro em nossa taça para que o provemos, enquanto descrevem os sucos, a cor, a suavidade, o aroma e a textura do 'filet mignon' naquele tom que, nos parece, utilizarão mais tarde para se referirem aos nossos próprios encantos.    
       Certamente você já viu, em algum filme, uma cena como essas. E, muito provavelmente, ela foi protagonizada por algum bonitão/bonitona de Hollywood, o que o impediu de perceber que todo aquele charme girava, na realidade, em torno da arte de cozinhar.
       Eu tive certeza a respeito do verdadeiro poder da culinária, quando uma amiga me contou sua história. Aconteceu quando ela foi convidada para um daqueles encontros marcados para conhecer o amigo solteiro da amiga da amiga, ao qual todos nós ficamos sujeitos após um período de celibato, sabe?
       O jantar estava marcado na casa dele, e ela, como não podia deixar de ser, foi a primeira a chegar. Nos seus delírios celibatários, havia fantasiado uma versão madura do Che Guevara, entretanto, quando a porta de abriu, deu de cara com, nada mais nada menos, que uma versão piorada do Van Gogh. Não que ela tivesse alguma coisa contra pintura impressionista, mas aquele desconhecido baixinho, de olhos apavorados e cabelos vermelhos foi uma desilusão. Como não tinha para onde fugir, resignou-se e entrou. Foi imediatamente conduzida para a cozinha, o que naquelas circunstâncias achou ótimo.       
       Ao chegar na cozinha, porém, aquele homenzinho se transformou. Algo mudou em sua atitude, como quem domina o território. Instalou-a confortavelmente em uma cadeira e começou a resgatar os ingredientes da geladeira. Pegou as panelas e frigideira com graça e destreza inesperadas e, enquanto lhe contava sobre suas aventuras pela América, fazia as facas dançarem partindo verduras e mariscos para dourá-los com mão leve em azeite de oliva. O aroma que surgia da frigideira, a música ao fundo e a conversa agradável fizeram-na tremer.
       Então, ele lançou o macarrão na água fervente e, num abrir e fechar de olhos, preparou um molho translúcido a base de limão. Quando Van Gogh finalmente colocou em cima da mesa a travessa com um fumegante macarrão a La pescatore, como o chamou, ela suspirou vencida. Estão casados até hoje. Como ela me confidenciou, muitas vezes o segredo está "no contraste e na surpresa."
        Tenho que confessar que quando contei essa história aqui em casa, todos riram muito. Ao final, meu filho mais novo, muito embora seja o mais 'gourmet' da casa, continuou impassível, com o olhar incrédulo, Deve ser porque ele ainda está naquela idade onde a beleza e o charme são coisas bem mais objetivas. Já o meu marido, interessou-se mesmo em saber quem era essa minha amiga, 'coitada'. Apenas o meu filho mais velho, com seu estilo 'Don Juan', que concluiu de modo bastante simplório que, em algum momento da sua vida, dedicará um tempo para aprender uma receita 'das boas', para alguma eventualidade.
       Considerando que santo de casa não faz milagres, acho que o saldo foi positivo.
       Por tudo isso, achei que estava na hora de postar no blog uma das minhas receitas, para variar, para todos aqueles que, um dia, quiserem transformar algo trivial em uma ocasião inesquecível.
        Trata-se de uma receita rápida e fácil, que não irá exigir de você muito tempo e energia na elaboração, para que possa desfrutar de todos os seus efeitos, tanto antes como durante e depois.
        Como já mencionei, a comida, assim como o erotismo, entra pelos olhos. Assim, não se esqueça de caprichar no visual - da comida, da mesa e no seu. Comece se arrumando em frente ao espelho e pare apenas quando estiver feliz com o resultado. Assegure-se, porém, de estar confortável - ninguém consegue acertar o sal ou o cozimento com uma calça ou sapatos apertados.
        Na mesa, coloque seus melhores pratos e copos, velas e um pequeno enfeite no centro, de preferência com flores ou folhagem. As velas, você pode colocar em copos virados ao contrário, como na foto abaixo. Ficam um charme. Optei por colocar dentro do copo e no centro da mesa hortelã, mas você pode usar salsinha ou manjericão. É barato, fácil de encontrar e o suficiente para dar um toque bem especial.


Com guardanapo de papel também fica ótimo.
         
E se não tiver vasinho, pode usar garrafas de cerveja ou vinho.
Ponha uma boa música ambiente, acenda apenas algumas luzes. Inspire-se e use e abuse da imaginação.
A preparação de qualquer prato pode se transformar em um ritual de aproximação e compartilhamento, com requintes de sedução.

SALMÃO COM ALHO PORÓ- BY ANNA
- O grande segredo, na hora de comprar o salmão, é pedir para tirarem todos os espinhos com pinça, assim como a pele e a parte escura da carne que fica embaixo dela. Feito isso, pegue uma travessa de vidro e forre com alho poró cortado em rodelas não muito grossas, ponha o salmão em cima dessa ‘cama’ e passe nele manteiga e sal. Então, coloque meio copo de água, cubra com papel alumínio e leve ao forno por aproximadamente 20 minutos, em forno 180o.
- À parte, misture uma lata de creme de leite com três colheres de sopa de molho pesto, que você pode fazer ou comprar pronto, no supermercado.
- Se optar por fazer, você vai precisar de manjericão, um dente de alho, queijo parmesão ralado, nozes e azeite. Então, bata tudo no liquidificador até ficar uma pasta homogênea e misture ao creme de leite. Mas se preferir,pode colocar apenas o creme de leite, que já fica excelente.
- Retire o papel alumínio, coloque sobre o salmão o molho e volte para o forno por apenas cinco minutos, para aquecer. Na hora se servir jogue por cima pistache ou amêndoas em lâminas, o que preferir.
- Fica uma delícia com purê de batatas ou mesmo arroz branco. E acompanhado por um bom vinho branco gelado, o sucesso será garantido.
     Muito embora tenha demorado para entender, porque sempre insistiam em me dizer que o que se dava entre eles era uma “profunda afinidade espiritual”, hoje vejo que o sucesso de muitos casais se dá em razão do sólido pilar construído no feroz equilíbrio entre o erotismo e a boa comida. Assim, deixo aqui a minha dica.
  E lembre-se: o melhor presente que podemos dar a alguém é o nosso tempo.
'BON APPÉTIT'

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

A CULPA NÃO É SUA

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     Graças aos céus e ao movimento feminista, que fez muito barulho, o ilustre governador Geraldo Alckmin vetou o projeto de lei que pretendia obrigar as empresas de transporte urbano a manterem, no mínimo, um vagão rosa em cada composição dos trens da CPTM e do Metrô, para uso exclusivo das mulheres, nos horários de pico.
     Para quem não acompanhou, referido projeto, de autoria do deputado Jorge Caruso (PMDB), chegou a ser aprovado pela Assembleia Legislativa, em julho deste ano, e tinha por objetivo evitar casos de assédio sexual contra mulheres no transporte público.
     Simples assim. Como se segregar mulheres fosse a grande solução para anos de omissão em políticas de efetivo combate à violência sexual. E principalmente, como se todas as mulheres, que atualmente representam 58% dos usuários do metrô, efetivamente coubessem num único vagão.
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     Na prática, uma mensagem do tipo: “Alô, mulheres. Se pegarem trem ou metrô em São Paulo, prestem atenção às orientações do sistema de som: “Se você estiver com vontade de ser violentada, ou ao menos receber uns apertões na bunda e nos peitos, siga para o vagão comum. Se estiver cansada, introspectiva, teve um dia difícil, está com TPM, vá para o rosa e viaje tranquila”. Uma excelente semana a todas.” (Eliane Brum – Vagão Rosa para não ser encoxada)

     Poderia ser uma piada de mau gosto, mas infelizmente não é. Em pleno Século XXI, com várias mulheres disputando a presidência do País, muitas pessoas ainda acreditam ser necessário criar um vagão só para mulheres, nos trens de transporte público da cidade mais cosmopolita do país.
     E o mais bizarro é que a brilhante ideia não é nem nova, muito menos privilégio de São Paulo. Algo similar já existe no Rio de Janeiro, assim como na Indonésia, Japão, México, Egito, Índia, Irã, Filipinas, Malásia e Dubai. Reparem que o fato de serem todos países de cultura sabidamente machista, no caso, não é mera coincidência.
     A China, por sua vez, preferiu inovar, fugindo um pouco à regra. Buscando uma maior ‘educação e civilidade’, os chineses lançaram uma campanha nos trens da cidade de Xangai, consistente na afixação de cartazes pelos metrôs contendo a figura de uma mulher vestida de burca e a seguinte mensagem: “Girls, please be self-dignified to avoid perverts”. Em português algo próximo a: “Garotas, por favor, se dêem ao respeito para evitar pervertidos”.
     Em outras palavras: se não quiser ser abusada no metrô da China, vá de burca!
     Óbvio! Afinal, no Oriente Médio, onde esses trajes são obrigatórios ‘não existem estupros’, não é mesmo?
     Absolutamente não. O que acontece é que lá, os números sobre estupro são 'estuprados', porque as mulheres abusadas são ensinadas a se envergonhar de si mesmas e uma denúncia na polícia pode comprometer a honra da família. Nas regiões tribais, pais e irmãos inclusive apedrejam as filhas violentadas!
     Seria cômico, se não fosse tão trágico. Se tudo isso não retratasse o que ainda somos, como resultado de uma trajetória histórica de negações de direitos que insiste em se perpetuar. E principalmente, se não refletisse o machismo estrutural existente na sociedade, que conserva incólume a medieval concepção feminina onde se negam os direitos em nome da preservação de valores, infelizmente repetida de forma inconsciente e inconsequente por todos nós, homens e mulheres.
     Na Idade Média, as mulheres eram tratadas como loucas só por ter orgasmos, e tinham seus corpos queimados em praça pública. “Fogo na possuída”, gritava o bispo, juntamente com o ex amante, com a empolgação da multidão hipócrita.
     Na África, nas mais diversas tribos, em um ritual vudu dos mais emporcalhados, meninas têm seus clitóris arrancados com cacos de vidro para que jamais sintam prazer sexual e possam honrar os pais, cumprir a tradição e satisfazer os deuses.
     Durante a guerra, várias mulheres são estupradas por pelotões inimigos, sempre em nome da paz, da loucura e da pátria. Nos muquifos do agreste nordestino, meninas e mulheres são abusadas pelo pai, pelo avô, pelos tios embriagados, pelos primos adolescentes.
     Mulheres são estupradas, agredidas e mortas dentro de suas casas, nos mais diversos locais do mundo.
     Recentemente, a diretora-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Margaret Chan, classificou a violência contra mulher como um problema de saúde global no mesmo patamar de uma epidemia. Um relatório divulgado pela entidade em junho de 2013, diz que a violência física e sexual atinge 35% das mulheres no mundo. Isso significa que uma em cada três mulheres sofreu algum tipo de abuso.
     Para tanta hipocrisia, só mesmo muita ironia.
     Esse foi o caminho encontrado pela atriz de Bollywood, Kalki Koechlin, para suscitar a reflexão das pessoas, após o ocorrido em dezembro de 2012, na índia, quando uma mulher indiana morreu, depois de ter sido estuprada coletivamente dentro de um ônibus.
     Com tamanha brutalidade e crueldade e mesmo depois de atravessar o oceano para expor ao mundo uma ferida aberta de um país, muitos políticos conservadores da polícia e até juízes continuaram a sugerir publicamente que de alguma forma as mulheres na Índia estão pedindo para serem estupradas - vestindo-se de forma provocativa, ficando fora até tarde da noite e demonstrando ousadia de ter amigos do sexo masculino.
     O popular guru indiano Asaram Bapu, chegou a dizer que a vítima também teve culpa, embora em menor medida que os agressores, já que em vez de resistir “devia ter rezado para Deus e pedido aos estupradores, chamando-os de ‘Bhaya’ (irmão), que a deixassem em paz”.
     Em meio a tudo isso, buscando fazer um contraponto, Kalki Koechlin resolveu fazer um vídeo retratando essa lógica insana, chamado “It’s your fault" (A culpa é sua), que se tornou viral, com milhares de acessos no YouTube.
     Em um espaço branco e vazio, acompanhado por música típica de televendas, a gravação de três minutos mostra duas indianas que, sorridentes, explicam, sem dramas, que tipo de atitude feminina provocam, para que os homens as estuprem.
     “Sejamos sinceras, meninas, os estupros são culpa nossa. Estudos científicos sugerem que as mulheres que usam saia são a principal causa de estupro. Sabe por quê? Porque homens têm olhos”, afirma a atriz Kalki Koechlin no início do anúncio.
     O vídeo, ainda mostra uma das atrizes sendo atacada por vários homens e como consegue se livrar do estupro ao conseguir pronunciar a palavra ‘Bhaya’.
     “Sempre funciona”, afirma sorridente a jovem, que pede às mulheres “que deixem de seduzir os homens para que as estuprem”.
     A polícia também não escapou da paródia no vídeo, acusada em várias ocasiões de incompetente e insensível diante das agressões sexuais, e de transformar as delegacias, como denunciou a organização Human Rights Watch, em “lugares que inspiram temor”.


Para visualizar o vídeo acesse o link:

     Aqui no Brasil, muito embora desde 1990, o crime de estupro seja considerado hediondo, submetendo-se, portanto, a um tratamento penal mais rigoroso, até 2009, tanto o estupro como os crimes sexuais em geral, eram classificados como “crimes contra os costumes”.
     Isso mesmo. Até 2009, da forma como vinha disposto no Código Penal, o crime de estupro não visava à proteção da mulher, mas à preservação dos “bons costumes”. Portanto, protegia a mulher, desde que se tratasse de “mulher honesta” – aquela católica devota, a “mãe de família”, a mulher subserviente e de bons costumes.
    O conceito de “mulher honesta” era tão forte e preponderante, que uma das raras hipóteses a permitir a anulação do casamento - até então indissolúvel – era o fato do marido descobrir que sua esposa não era virgem. Desonra que também possibilitaria fosse deserdada pelo pai.
    E por desonra leia-se: vida sexual ativa.
     A grosseria machista chegava a tal ponto dos juristas sustentarem que a mulher casada não poderia ser vítima de estupro pelo marido, uma vez que era obrigada “ao débito conjugal”, ou seja, o marido que a obrigasse a manter relações sexuais estaria apenas agindo no exercício regular de um direito.
     Outro crime, chamado "corrupção de menores", exigia para sua configuração que houvesse prova efetiva da ingenuidade da adolescente. Na verdade, que fosse ela quase uma alienada mental. Caso "soubesse das coisas do sexo", estaria corrompida e não seria ‘honesta’, portanto, o fato seria atípico e ficaria à margem da proteção da lei.
     No crime de estupro, caso houvesse o que a lei chama de “violência presumida”, que ocorria em situações em que a mulher estivesse sem condições de reagir ou fosse menor de catorze anos, a situação era degradante: o agressor vitimizava-se e se apresentava como vítima de ‘sedução’, e nesses casos, quem acabava julgada, em meio a um cenário predominantemente masculino, era a vítima, em sua “honestidade”. Caso a mulher não fosse reconhecida “honesta”, o agressor estaria livre e ela, exposta a uma situação pública absolutamente vexatória.
     Foi apenas em 2009, com a redação dada pela Lei n 12.015/2009, que os crimes contra os costumes passaram a ser classificados “Crimes contra a dignidade e liberdade sexual”, e finalmente foram subtraídas dos tipos penais as expressões “mulher honesta” e “mulher virgem”.
     E somente em 2006, com a Lei n 11.340, conhecida como Lei Maria da Penha, que o Estado finalmente resolveu meter a colher, nas brigas de marido e mulher.
     Entretanto, a realidade nos mostra que ainda somos incapazes de lidar com a igualdade de gênero e que a nossa cultura machista continua impregnada, sem se dar conta de toda a evolução social.
     O Gigante acordou, mas continua machista. E a altura das saias e o tamanho dos decotes ainda continuam injustificadamente justificando a prática dos mais diversos tipos de assédio sexual, e a mulher continua sendo considerada de vítima, a grande algoz.
     Mudamos a letra da lei, é verdade, mas agora precisamos avançar mais, para internalizar em nossas mentes e corações essa mudança.
     Espero viver para ver o dia em que campanhas e políticas públicas ensinem, não uma mulher a não ser estuprada, mas um homem a não estuprar. Que as mulheres não são corpos disponíveis. Que quem cala não consente. E que ESTUPRO É CRIME.
     Porque o único culpado pelo estupro/assédio é o homem, e não a mulher, não importa onde ela esteja ou qual roupa esteja usando. Porque mulheres não são culpadas por existir.
     PORQUE NÃO, ISSO NÃO É NORMAL E A CULPA NÃO É SUA.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

IRMÃO É IRMÃO


                       Tem muita gente por aí que acha que irmão significa uma amizade pura e perfeita e só amor. Com certeza, esses nunca tiveram um.
                        Para começar, irmão é sempre e para sempre, por isso, como tudo que dura muito, é naturalmente imperfeito.
                        Depois, ter irmão, inevitavelmente, é brigar muito, mas amar sempre ou brigar sempre e amar muito, o que significa vivenciar todos os dias os mais diversos e extremos sentimentos.
                        Assim, irmão é irmão, só isso. Tudo isso.
                        Ter irmão é compartilhar diariamente o mesmo espaço. É conVIVER. É ter que dividir tudo aquilo que você queria só para você e principalmente, aprender a amar o outro exatamente do jeito que ele é.
                        Ser irmão é defender sempre e acima de tudo. É ser companheiro, parceiro, cúmplice.
                        Irmão é aquele alguém para passar junto por aquelas festas de família, em que os cortes de cabelos duvidosos e aquelas roupas inacreditáveis ficam estampadas em fotos, para todo o sempre.
                        Ser irmão é ser criado da mesma forma como uma pessoa totalmente diferente - o que, cá entre nós, rende ciúmes para uma vida inteira. É sentir saudades justamente daquele que sempre te irrita de alguma forma. É idolatrar quem você sempre critica e se divertir muito com quem você mais briga na vida.
                       Irmão é aquela pessoa que te influencia tanto ou mais que seus pais, embora você nunca se dê conta disso.
                        Ser irmão é ser diferente. É ter alma diferente. É compartilhar a mesma história, escrevendo histórias diferentes.
                        Ter irmão é ter alguém para dividir com você todas as maravilhas e todas as desgraças de ter nascido com esse pai e essa mãe, e ter toda a intimidade e cumplicidade que só quem passou poucas e boas juntos têm.
                        Com certeza, irmão está muito longe de ser a oitava maravilha do mundo, mas ele é aquele que sempre vai estar lá, porque fez parte do seu passado e de alguma forma, sempre estará presente no seu futuro.
                        E quando seus pais se sentirem sozinhos ou decepcionados, te fará sentir apenas metade da culpa. E nos jantares alegres e também nos insuportáveis te fará ter apenas metade dos méritos.
                        Irmão é o único alguém nesse mundo que vai se trancar com você em algum lugar improvável e chorar porque algum dia seus pais vão simplesmente desaparecer. E sentir a mesma dor. E compartilhar as mesmas lembranças.
                        Por isso, ser irmão é para quem sabe. Ter irmão, é só para quem merece.
                       Como mãe, o meu desejo é que meus filhos nunca se esqueçam disso.