domingo, 4 de janeiro de 2015

FAHRENHEIT 451: um livro bem interessante

            Fahrenheit 451 é um livro incrível. É o tipo de obra que todo mundo deveria ler e refletir a respeito. Ele fala sobre um bombeiro que tem por função queimar casas inteiras que possuam livros. Afinal, livros fazem as pessoas pensarem e isso era exatamente o que o governo não queria, fazendo de tudo para evitar.Fahrenheit-451
           O livro é uma crítica ao que Bradbury viu como uma crescente e disfuncional sociedade americana. Trata-se de um romance distópico de ficção científica soft, escrito nos anos iniciais da Guerra Fria e publicado pela primeira vez em 1953.
          De capa dura, feito de tecido branco, com lombada serigrafada com uma superfície que imita caixa de fósforos e dispondo de um palito de fósforo, o livro por si só encanta. E o mais interessante: sim, o próprio livro pode ser queimado. O projeto é de Elizabeth Perez. Simples, mas envia uma mensagem muito poderosa, assim como a obra em si.
         O número 451 é a temperatura (em graus Fahrenheit) da queima do papel, equivalente a 233 graus Celsius.
         De implicações assustadoras, a forma como reconhecemos o nosso mundo naquele que é retratado em Fahrenheit 451 é impressionante.
         Fica a dica.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

UMA RECEITA, PARA VARIAR

      O apetite, assim como o sexo, sempre foram os grandes motores da história. Provocam guerras e canções, influenciam religiões, a lei e a arte e são os responsáveis pela preservação e propagação da espécie. Tanto é assim, que estão no rol dos sete pecados capitais, o que significa que, se não existissem, certamente o número de almas no Paraíso seria bem maior.
      Talvez seja por isso que calvinistas e outros aspirantes à perfeição cristã comam mal. Já os católicos, que nascem resignados ao pecado original e às fraquezas humanas e são purificados pelo sacramento da confissão, prontos para tornar a pecar, são muito mais flexíveis com relação à boa mesa. Felizmente, eu nasci e cresci dentre os últimos, o que me leva a crer, seja essa a origem do meu interesse pela culinária.
       Certa vez li num livro, que a culinária é o “resultado da luta entre um povo e sua terra”, e achei essa definição perfeita. Mesmo se procurarmos, não encontraremos na história nenhum povo sobre a Terra que não possua, de alguma forma, tradições ligadas à gastronomia.
       Entretanto, o que mais me fascina na culinária, é o fato dela ser uma arte capaz de aguçar quatro dos nossos cinco sentidos. Assim como o erotismo, a comida entra pelos olhos, se intensifica com o olfato, passa pelo tato, relacionado às texturas apuradas pela língua e boca, para finalmente chegar ao paladar. Deve ser por isso que muita gente se refere às comidas boas, como sendo aquelas para “comer de joelhos”, com certeza o único jeito para se redimir de tanto pecado.
       Mas é uma pena que, mesmo sendo tão essencial, aindasejam poucos os que efetivamente se interessem pela culinária. Principalmente no nosso continente, onde os machos em geral, continuam considerando toda e qualquer atividade doméstica um perigo para a sua virilidade. Mal sabem eles como nós mulheres, nos impressionamos com homens entendidos em comida.
       Claro que aqueles 'gourmets', capazes de escolher pratos em francês em um cardápio e discutir sobre vinhos com o 'sommelier' inspiram muito respeito, mas não é a eles que estou me referindo. Tão pouco me refiro àqueles caras desajeitados, ataviados, que se declaram especialistas e com grandes gestos chamuscam uma picanha na churrasqueira. 
      Refiro-me aos que sabem escolher os ingredientes e preparam-nos com arte, para oferecerem-nos como um presente para os sentidos e a alma. Esse homens com classe para abrir garrafas, cheirar o vinho e vertê-lo primeiro em nossa taça para que o provemos, enquanto descrevem os sucos, a cor, a suavidade, o aroma e a textura do 'filet mignon' naquele tom que, nos parece, utilizarão mais tarde para se referirem aos nossos próprios encantos.    
       Certamente você já viu, em algum filme, uma cena como essas. E, muito provavelmente, ela foi protagonizada por algum bonitão/bonitona de Hollywood, o que o impediu de perceber que todo aquele charme girava, na realidade, em torno da arte de cozinhar.
       Eu tive certeza a respeito do verdadeiro poder da culinária, quando uma amiga me contou sua história. Aconteceu quando ela foi convidada para um daqueles encontros marcados para conhecer o amigo solteiro da amiga da amiga, ao qual todos nós ficamos sujeitos após um período de celibato, sabe?
       O jantar estava marcado na casa dele, e ela, como não podia deixar de ser, foi a primeira a chegar. Nos seus delírios celibatários, havia fantasiado uma versão madura do Che Guevara, entretanto, quando a porta de abriu, deu de cara com, nada mais nada menos, que uma versão piorada do Van Gogh. Não que ela tivesse alguma coisa contra pintura impressionista, mas aquele desconhecido baixinho, de olhos apavorados e cabelos vermelhos foi uma desilusão. Como não tinha para onde fugir, resignou-se e entrou. Foi imediatamente conduzida para a cozinha, o que naquelas circunstâncias achou ótimo.       
       Ao chegar na cozinha, porém, aquele homenzinho se transformou. Algo mudou em sua atitude, como quem domina o território. Instalou-a confortavelmente em uma cadeira e começou a resgatar os ingredientes da geladeira. Pegou as panelas e frigideira com graça e destreza inesperadas e, enquanto lhe contava sobre suas aventuras pela América, fazia as facas dançarem partindo verduras e mariscos para dourá-los com mão leve em azeite de oliva. O aroma que surgia da frigideira, a música ao fundo e a conversa agradável fizeram-na tremer.
       Então, ele lançou o macarrão na água fervente e, num abrir e fechar de olhos, preparou um molho translúcido a base de limão. Quando Van Gogh finalmente colocou em cima da mesa a travessa com um fumegante macarrão a La pescatore, como o chamou, ela suspirou vencida. Estão casados até hoje. Como ela me confidenciou, muitas vezes o segredo está "no contraste e na surpresa."
        Tenho que confessar que quando contei essa história aqui em casa, todos riram muito. Ao final, meu filho mais novo, muito embora seja o mais 'gourmet' da casa, continuou impassível, com o olhar incrédulo, Deve ser porque ele ainda está naquela idade onde a beleza e o charme são coisas bem mais objetivas. Já o meu marido, interessou-se mesmo em saber quem era essa minha amiga, 'coitada'. Apenas o meu filho mais velho, com seu estilo 'Don Juan', que concluiu de modo bastante simplório que, em algum momento da sua vida, dedicará um tempo para aprender uma receita 'das boas', para alguma eventualidade.
       Considerando que santo de casa não faz milagres, acho que o saldo foi positivo.
       Por tudo isso, achei que estava na hora de postar no blog uma das minhas receitas, para variar, para todos aqueles que, um dia, quiserem transformar algo trivial em uma ocasião inesquecível.
        Trata-se de uma receita rápida e fácil, que não irá exigir de você muito tempo e energia na elaboração, para que possa desfrutar de todos os seus efeitos, tanto antes como durante e depois.
        Como já mencionei, a comida, assim como o erotismo, entra pelos olhos. Assim, não se esqueça de caprichar no visual - da comida, da mesa e no seu. Comece se arrumando em frente ao espelho e pare apenas quando estiver feliz com o resultado. Assegure-se, porém, de estar confortável - ninguém consegue acertar o sal ou o cozimento com uma calça ou sapatos apertados.
        Na mesa, coloque seus melhores pratos e copos, velas e um pequeno enfeite no centro, de preferência com flores ou folhagem. As velas, você pode colocar em copos virados ao contrário, como na foto abaixo. Ficam um charme. Optei por colocar dentro do copo e no centro da mesa hortelã, mas você pode usar salsinha ou manjericão. É barato, fácil de encontrar e o suficiente para dar um toque bem especial.


Com guardanapo de papel também fica ótimo.
         
E se não tiver vasinho, pode usar garrafas de cerveja ou vinho.
Ponha uma boa música ambiente, acenda apenas algumas luzes. Inspire-se e use e abuse da imaginação.
A preparação de qualquer prato pode se transformar em um ritual de aproximação e compartilhamento, com requintes de sedução.

SALMÃO COM ALHO PORÓ- BY ANNA
- O grande segredo, na hora de comprar o salmão, é pedir para tirarem todos os espinhos com pinça, assim como a pele e a parte escura da carne que fica embaixo dela. Feito isso, pegue uma travessa de vidro e forre com alho poró cortado em rodelas não muito grossas, ponha o salmão em cima dessa ‘cama’ e passe nele manteiga e sal. Então, coloque meio copo de água, cubra com papel alumínio e leve ao forno por aproximadamente 20 minutos, em forno 180o.
- À parte, misture uma lata de creme de leite com três colheres de sopa de molho pesto, que você pode fazer ou comprar pronto, no supermercado.
- Se optar por fazer, você vai precisar de manjericão, um dente de alho, queijo parmesão ralado, nozes e azeite. Então, bata tudo no liquidificador até ficar uma pasta homogênea e misture ao creme de leite. Mas se preferir,pode colocar apenas o creme de leite, que já fica excelente.
- Retire o papel alumínio, coloque sobre o salmão o molho e volte para o forno por apenas cinco minutos, para aquecer. Na hora se servir jogue por cima pistache ou amêndoas em lâminas, o que preferir.
- Fica uma delícia com purê de batatas ou mesmo arroz branco. E acompanhado por um bom vinho branco gelado, o sucesso será garantido.
     Muito embora tenha demorado para entender, porque sempre insistiam em me dizer que o que se dava entre eles era uma “profunda afinidade espiritual”, hoje vejo que o sucesso de muitos casais se dá em razão do sólido pilar construído no feroz equilíbrio entre o erotismo e a boa comida. Assim, deixo aqui a minha dica.
  E lembre-se: o melhor presente que podemos dar a alguém é o nosso tempo.
'BON APPÉTIT'

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

A CULPA NÃO É SUA

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     Graças aos céus e ao movimento feminista, que fez muito barulho, o ilustre governador Geraldo Alckmin vetou o projeto de lei que pretendia obrigar as empresas de transporte urbano a manterem, no mínimo, um vagão rosa em cada composição dos trens da CPTM e do Metrô, para uso exclusivo das mulheres, nos horários de pico.
     Para quem não acompanhou, referido projeto, de autoria do deputado Jorge Caruso (PMDB), chegou a ser aprovado pela Assembleia Legislativa, em julho deste ano, e tinha por objetivo evitar casos de assédio sexual contra mulheres no transporte público.
     Simples assim. Como se segregar mulheres fosse a grande solução para anos de omissão em políticas de efetivo combate à violência sexual. E principalmente, como se todas as mulheres, que atualmente representam 58% dos usuários do metrô, efetivamente coubessem num único vagão.
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     Na prática, uma mensagem do tipo: “Alô, mulheres. Se pegarem trem ou metrô em São Paulo, prestem atenção às orientações do sistema de som: “Se você estiver com vontade de ser violentada, ou ao menos receber uns apertões na bunda e nos peitos, siga para o vagão comum. Se estiver cansada, introspectiva, teve um dia difícil, está com TPM, vá para o rosa e viaje tranquila”. Uma excelente semana a todas.” (Eliane Brum – Vagão Rosa para não ser encoxada)

     Poderia ser uma piada de mau gosto, mas infelizmente não é. Em pleno Século XXI, com várias mulheres disputando a presidência do País, muitas pessoas ainda acreditam ser necessário criar um vagão só para mulheres, nos trens de transporte público da cidade mais cosmopolita do país.
     E o mais bizarro é que a brilhante ideia não é nem nova, muito menos privilégio de São Paulo. Algo similar já existe no Rio de Janeiro, assim como na Indonésia, Japão, México, Egito, Índia, Irã, Filipinas, Malásia e Dubai. Reparem que o fato de serem todos países de cultura sabidamente machista, no caso, não é mera coincidência.
     A China, por sua vez, preferiu inovar, fugindo um pouco à regra. Buscando uma maior ‘educação e civilidade’, os chineses lançaram uma campanha nos trens da cidade de Xangai, consistente na afixação de cartazes pelos metrôs contendo a figura de uma mulher vestida de burca e a seguinte mensagem: “Girls, please be self-dignified to avoid perverts”. Em português algo próximo a: “Garotas, por favor, se dêem ao respeito para evitar pervertidos”.
     Em outras palavras: se não quiser ser abusada no metrô da China, vá de burca!
     Óbvio! Afinal, no Oriente Médio, onde esses trajes são obrigatórios ‘não existem estupros’, não é mesmo?
     Absolutamente não. O que acontece é que lá, os números sobre estupro são 'estuprados', porque as mulheres abusadas são ensinadas a se envergonhar de si mesmas e uma denúncia na polícia pode comprometer a honra da família. Nas regiões tribais, pais e irmãos inclusive apedrejam as filhas violentadas!
     Seria cômico, se não fosse tão trágico. Se tudo isso não retratasse o que ainda somos, como resultado de uma trajetória histórica de negações de direitos que insiste em se perpetuar. E principalmente, se não refletisse o machismo estrutural existente na sociedade, que conserva incólume a medieval concepção feminina onde se negam os direitos em nome da preservação de valores, infelizmente repetida de forma inconsciente e inconsequente por todos nós, homens e mulheres.
     Na Idade Média, as mulheres eram tratadas como loucas só por ter orgasmos, e tinham seus corpos queimados em praça pública. “Fogo na possuída”, gritava o bispo, juntamente com o ex amante, com a empolgação da multidão hipócrita.
     Na África, nas mais diversas tribos, em um ritual vudu dos mais emporcalhados, meninas têm seus clitóris arrancados com cacos de vidro para que jamais sintam prazer sexual e possam honrar os pais, cumprir a tradição e satisfazer os deuses.
     Durante a guerra, várias mulheres são estupradas por pelotões inimigos, sempre em nome da paz, da loucura e da pátria. Nos muquifos do agreste nordestino, meninas e mulheres são abusadas pelo pai, pelo avô, pelos tios embriagados, pelos primos adolescentes.
     Mulheres são estupradas, agredidas e mortas dentro de suas casas, nos mais diversos locais do mundo.
     Recentemente, a diretora-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Margaret Chan, classificou a violência contra mulher como um problema de saúde global no mesmo patamar de uma epidemia. Um relatório divulgado pela entidade em junho de 2013, diz que a violência física e sexual atinge 35% das mulheres no mundo. Isso significa que uma em cada três mulheres sofreu algum tipo de abuso.
     Para tanta hipocrisia, só mesmo muita ironia.
     Esse foi o caminho encontrado pela atriz de Bollywood, Kalki Koechlin, para suscitar a reflexão das pessoas, após o ocorrido em dezembro de 2012, na índia, quando uma mulher indiana morreu, depois de ter sido estuprada coletivamente dentro de um ônibus.
     Com tamanha brutalidade e crueldade e mesmo depois de atravessar o oceano para expor ao mundo uma ferida aberta de um país, muitos políticos conservadores da polícia e até juízes continuaram a sugerir publicamente que de alguma forma as mulheres na Índia estão pedindo para serem estupradas - vestindo-se de forma provocativa, ficando fora até tarde da noite e demonstrando ousadia de ter amigos do sexo masculino.
     O popular guru indiano Asaram Bapu, chegou a dizer que a vítima também teve culpa, embora em menor medida que os agressores, já que em vez de resistir “devia ter rezado para Deus e pedido aos estupradores, chamando-os de ‘Bhaya’ (irmão), que a deixassem em paz”.
     Em meio a tudo isso, buscando fazer um contraponto, Kalki Koechlin resolveu fazer um vídeo retratando essa lógica insana, chamado “It’s your fault" (A culpa é sua), que se tornou viral, com milhares de acessos no YouTube.
     Em um espaço branco e vazio, acompanhado por música típica de televendas, a gravação de três minutos mostra duas indianas que, sorridentes, explicam, sem dramas, que tipo de atitude feminina provocam, para que os homens as estuprem.
     “Sejamos sinceras, meninas, os estupros são culpa nossa. Estudos científicos sugerem que as mulheres que usam saia são a principal causa de estupro. Sabe por quê? Porque homens têm olhos”, afirma a atriz Kalki Koechlin no início do anúncio.
     O vídeo, ainda mostra uma das atrizes sendo atacada por vários homens e como consegue se livrar do estupro ao conseguir pronunciar a palavra ‘Bhaya’.
     “Sempre funciona”, afirma sorridente a jovem, que pede às mulheres “que deixem de seduzir os homens para que as estuprem”.
     A polícia também não escapou da paródia no vídeo, acusada em várias ocasiões de incompetente e insensível diante das agressões sexuais, e de transformar as delegacias, como denunciou a organização Human Rights Watch, em “lugares que inspiram temor”.


Para visualizar o vídeo acesse o link:

     Aqui no Brasil, muito embora desde 1990, o crime de estupro seja considerado hediondo, submetendo-se, portanto, a um tratamento penal mais rigoroso, até 2009, tanto o estupro como os crimes sexuais em geral, eram classificados como “crimes contra os costumes”.
     Isso mesmo. Até 2009, da forma como vinha disposto no Código Penal, o crime de estupro não visava à proteção da mulher, mas à preservação dos “bons costumes”. Portanto, protegia a mulher, desde que se tratasse de “mulher honesta” – aquela católica devota, a “mãe de família”, a mulher subserviente e de bons costumes.
    O conceito de “mulher honesta” era tão forte e preponderante, que uma das raras hipóteses a permitir a anulação do casamento - até então indissolúvel – era o fato do marido descobrir que sua esposa não era virgem. Desonra que também possibilitaria fosse deserdada pelo pai.
    E por desonra leia-se: vida sexual ativa.
     A grosseria machista chegava a tal ponto dos juristas sustentarem que a mulher casada não poderia ser vítima de estupro pelo marido, uma vez que era obrigada “ao débito conjugal”, ou seja, o marido que a obrigasse a manter relações sexuais estaria apenas agindo no exercício regular de um direito.
     Outro crime, chamado "corrupção de menores", exigia para sua configuração que houvesse prova efetiva da ingenuidade da adolescente. Na verdade, que fosse ela quase uma alienada mental. Caso "soubesse das coisas do sexo", estaria corrompida e não seria ‘honesta’, portanto, o fato seria atípico e ficaria à margem da proteção da lei.
     No crime de estupro, caso houvesse o que a lei chama de “violência presumida”, que ocorria em situações em que a mulher estivesse sem condições de reagir ou fosse menor de catorze anos, a situação era degradante: o agressor vitimizava-se e se apresentava como vítima de ‘sedução’, e nesses casos, quem acabava julgada, em meio a um cenário predominantemente masculino, era a vítima, em sua “honestidade”. Caso a mulher não fosse reconhecida “honesta”, o agressor estaria livre e ela, exposta a uma situação pública absolutamente vexatória.
     Foi apenas em 2009, com a redação dada pela Lei n 12.015/2009, que os crimes contra os costumes passaram a ser classificados “Crimes contra a dignidade e liberdade sexual”, e finalmente foram subtraídas dos tipos penais as expressões “mulher honesta” e “mulher virgem”.
     E somente em 2006, com a Lei n 11.340, conhecida como Lei Maria da Penha, que o Estado finalmente resolveu meter a colher, nas brigas de marido e mulher.
     Entretanto, a realidade nos mostra que ainda somos incapazes de lidar com a igualdade de gênero e que a nossa cultura machista continua impregnada, sem se dar conta de toda a evolução social.
     O Gigante acordou, mas continua machista. E a altura das saias e o tamanho dos decotes ainda continuam injustificadamente justificando a prática dos mais diversos tipos de assédio sexual, e a mulher continua sendo considerada de vítima, a grande algoz.
     Mudamos a letra da lei, é verdade, mas agora precisamos avançar mais, para internalizar em nossas mentes e corações essa mudança.
     Espero viver para ver o dia em que campanhas e políticas públicas ensinem, não uma mulher a não ser estuprada, mas um homem a não estuprar. Que as mulheres não são corpos disponíveis. Que quem cala não consente. E que ESTUPRO É CRIME.
     Porque o único culpado pelo estupro/assédio é o homem, e não a mulher, não importa onde ela esteja ou qual roupa esteja usando. Porque mulheres não são culpadas por existir.
     PORQUE NÃO, ISSO NÃO É NORMAL E A CULPA NÃO É SUA.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

IRMÃO É IRMÃO


                       Tem muita gente por aí que acha que irmão significa uma amizade pura e perfeita e só amor. Com certeza, esses nunca tiveram um.
                        Para começar, irmão é sempre e para sempre, por isso, como tudo que dura muito, é naturalmente imperfeito.
                        Depois, ter irmão, inevitavelmente, é brigar muito, mas amar sempre ou brigar sempre e amar muito, o que significa vivenciar todos os dias os mais diversos e extremos sentimentos.
                        Assim, irmão é irmão, só isso. Tudo isso.
                        Ter irmão é compartilhar diariamente o mesmo espaço. É conVIVER. É ter que dividir tudo aquilo que você queria só para você e principalmente, aprender a amar o outro exatamente do jeito que ele é.
                        Ser irmão é defender sempre e acima de tudo. É ser companheiro, parceiro, cúmplice.
                        Irmão é aquele alguém para passar junto por aquelas festas de família, em que os cortes de cabelos duvidosos e aquelas roupas inacreditáveis ficam estampadas em fotos, para todo o sempre.
                        Ser irmão é ser criado da mesma forma como uma pessoa totalmente diferente - o que, cá entre nós, rende ciúmes para uma vida inteira. É sentir saudades justamente daquele que sempre te irrita de alguma forma. É idolatrar quem você sempre critica e se divertir muito com quem você mais briga na vida.
                       Irmão é aquela pessoa que te influencia tanto ou mais que seus pais, embora você nunca se dê conta disso.
                        Ser irmão é ser diferente. É ter alma diferente. É compartilhar a mesma história, escrevendo histórias diferentes.
                        Ter irmão é ter alguém para dividir com você todas as maravilhas e todas as desgraças de ter nascido com esse pai e essa mãe, e ter toda a intimidade e cumplicidade que só quem passou poucas e boas juntos têm.
                        Com certeza, irmão está muito longe de ser a oitava maravilha do mundo, mas ele é aquele que sempre vai estar lá, porque fez parte do seu passado e de alguma forma, sempre estará presente no seu futuro.
                        E quando seus pais se sentirem sozinhos ou decepcionados, te fará sentir apenas metade da culpa. E nos jantares alegres e também nos insuportáveis te fará ter apenas metade dos méritos.
                        Irmão é o único alguém nesse mundo que vai se trancar com você em algum lugar improvável e chorar porque algum dia seus pais vão simplesmente desaparecer. E sentir a mesma dor. E compartilhar as mesmas lembranças.
                        Por isso, ser irmão é para quem sabe. Ter irmão, é só para quem merece.
                       Como mãe, o meu desejo é que meus filhos nunca se esqueçam disso.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Projeto TUTU: um lindo exemplo de como a vida sempre pode ser mais leve


     Navegando pela internet, já me deparei com diversas histórias de amor, manifestadas das maneiras mais incríveis possíveis. Algumas românticas, outras emocionantes. Muitas um tanto malucas. Mas certamente, uma das mais lindas e que muito me emocionou, foi a de Bob e Linda Carey.

     Juntos desde 1980, em 2003, Linda foi diagnosticada com câncer de mama. Bob, então, quis inventar um jeito de deixá-la mais alegre, principalmente nos períodos de quimioterapia. Foi quando a ideia do The Tutu Project (O Projeto Tutu) nasceu: um divertido e cativante esforço de um homem que queria tornar as coisas mais fáceis e engraçadas para sua esposa, depois que ela foi diagnosticada com câncer.
     “Minha mãe morreu de câncer de mama, minha avó morreu de câncer e o meu pai também. Comecei a tirar essas fotos como uma forma de terapia, para conseguir apoiar, mais uma vez, uma pessoa que amava na luta contra essa doença”, conta Bob.
Não importa se faz calor ou frio, Bob não para. Sai com a câmera e com o tripé, escolhe o cenário, faz o foco, tira a roupa, coloca um tutu cor-de-rosa de bailarina e tira fotos divertidas e emocionantes por aí, para Linda se distrair no hospital.












      
     Linda diz que ela simplesmente começa a rir sempre que vê o seu marido dançando por aí com apenas um tutu e isso a ajuda a se manter positiva. E afirma:  “Quando vejo o meu marido de tutu, é como se ele se transformasse, não é mais o meu marido. É como um super-herói que coloca a capa. Ele não tem medo do que os outros vão dizer, do que vão pensar, ele não desiste”.
       Quando Linda ela começou a mostrar as imagens para as amigas também doentes, logo percebeu o ambiente do hospital muito mais leve. “Essas fotos eram o nosso assunto, a gente ria delas, ajudava a nos manter longe do câncer, a não levar a vida tão a sério, pelo menos por aquele momento”, conta.
No seu site, Bob diz que o câncer dela os ensinou que a vida é boa. “Lidar com isso pode ser difícil e às vezes a melhor coisa - não, a única coisa - que podemos fazer para encarar outro dia é rir de nós mesmos e compartilhar a risada com os outros”.





     As fotos foram parar num vídeo e explodiram na internet, sendo vistas por milhares de pessoas no mundo inteiro. A partir disso, eles começaram a receber várias mensagens, e-mails de famílias que também estavam passando pela mesma dificuldade, lutando contra o câncer.
     Mensagens como esta da Austrália: “Queria dizer obrigada por ter vestido esse tutu cor de roso e encher meu coração de alegria”. "Foi quando eu percebi que não era mais sobre mim apenas, que estava fazendo outras pessoas felizes, disse Bob.
     Então, Bob e Linda resolveram criar a instituição de caridade chamada The Carey Foundation, que ajuda mulheres com câncer de mama a se manterem financeiramente durante o tratamento. Uma das maneiras de ajudar a instituição é comprando o livro Ballerina, lançado em 2013, que contém histórias de lutas contra a doença e, é claro, fotos de Bob e seu tutu ao redor do mundo.
     "O câncer não precisa ser uma sentença de morte. Você pode achar um caminho para lutar contra ele. Para mim, sorrir traz muita força, acende o meu coração. É realmente o melhor remédio", afirma Linda.
       E com certeza, com um pouco de sabedoria, podemos deixar a vida mais leve.
        Se quiser conferir mais imagens feitas por Bob ou comprar algum de seus produtos, acesse o site do The Tutu Project. http://thetutuproject.com/

sábado, 12 de julho de 2014

MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS, de Clarissa Pinkola Estes




     Mulheres que correm com os lobos é um livro que identifica a essência da alma feminina e sua psique instintiva mais profunda com o arquétipo da Mulher Selvagem, e propõe o resgate desse passado longínquo, como forma de atingir a verdadeira libertação.
     Eu o considero um livro de cabeceira, daqueles para se abrir vez ou outra, ao acaso, para reler o que a sorte indicar. Trata-se de um verdadeiro fortificante para nós mulheres, quando estamos no meio do caminho, quer lutando em difíceis paisagens interiores, quer quando lutamos no mundo e por ele.
     MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS é um trabalho de pesquisa extenso e de análise junguiana, que Clarissa Pinkola Estes faz sobre dezenove contos, alguns reformatados pelos irmãos Grimm, outros populares, todos pesquisados desde a origem como contados pela tradição oral, em vilarejos distantes e comunidades afastadas. Contos de fadas, mitos e histórias que nos proporcionam uma compreensão que aguça o nosso olhar para que possamos escolher o caminho deixado pela natureza selvagem e nos servem como verdadeiros bálsamos medicinais com instruções incrustradas que nos orientam a respeito das complexidades da vida.
     Segundo a autora, as terras espirituais da Mulher Selvagem, durante o curso da história, foram saqueadas ou queimadas, com seus refúgios destruídos e seus ciclos naturais transformados em ritmos artificiais para agradar os outros.
     No decorrer da História da humanidade, houve um momento em que as mulheres foram consideradas animais trapaceiros e vorazes e, assim como os lobos, foram forçadas a acreditar que seus instintos não eram bons. Por isso, as mulheres que eram devotas à Grande Deusa foram caçadas. Foram-lhe impostos apertados espartilhos e regras. Não se podia dançar, rir ou brincar. Seu espaço na casa tornou-se restrito às tarefas domésticas e sua função única, servir o esposo e criar seus filhos.
     Então, a mulher moderna tornou-se um borrão de atividades, que sofre pressões no sentido de ser tudo para todos.
     Entretanto as Mulheres Selvagens, assim como os lobos, têm percepção aguçada e espírito brincalhão, são gregários por natureza, curiosos, dotados de grande resistência e força, são profundamente intuitivos e preocupam-se com seus filhotes e seus comuns. Têm experiência em se adaptar a circunstâncias em constante mutação. São dotados de determinação, extrema coragem e elevada capacidade para a devoção, e é tudo isso o que o livro busca resgatar.
     Eu o comprei há muito tempo, depois de ler sobre ele em uma revista. Mas acreditem: comecei a ler e empaquei logo no começo. Então, o livro passou mais de um ano na prateleira da estante, até que novamente eu me interessasse por ele.
     O livro inicia com uma pequena introdução, e depois a análise do primeiro conto - o Barba Azul; e foi exatamente neste primeiro conto que, na primeira leitura, eu parei.
    Nunca entendi direito o motivo, mas o curioso é que, nos anos que se seguiram, encontrei outras mulheres que também leram e amaram o livro, mas também tiveram exatamente a mesma dificuldade: só conseguiram pegar o ritmo de leitura, quando começaram a ler, a partir do segundo conto, deixando o tal Barba Azul por último. Nenhuma soube explicar o por quê. Ficou a incógnita!
    Por isso minha dica é: comece o livro a partir da análise do segundo conto. Sentirá como se janelas imensas se abrissem para você e não conseguirá mais largar o livro até terminar a última página. Só então volte para o primeiro conto.
     O original do livro é de 1992, e chegou ao Brasil apenas no final da década de 90. Interessante que, em seu lançamento aqui no Brasil, o livro era considerado como "feminista", e foi publicado e divulgado junto com uma leva de outros títulos bastante populares, destinados às mulheres "modernas e independentes". Porém, quase uma década depois, para minha surpresa, eis que encontro o livro de Estés vendido na prateleira de "auto ajuda".
     Recentemente fui atrás de mais um volume do livro, para dar de presente e agora, eu o encontrei na seção de "livros técnicos de psicologia", o que achei engraçado, porque talvez esse livro seja tudo isso mesmo, dependendo de quem o lê.
     Ele é um livro "feminista", na medida em que motiva e incentiva a mulher a encontrar o seu lado "selvagem", criativo, forte, protetor, rebelde, tanto quanto exorta cada mulher a expressar criativamente as suas emoções, seja plantando o mais belo jardim, escrevendo poesias, pintando, cantando, ou qualquer outra forma de arte. Mas também é um livro de "autoajuda", se o lemos com empatia e com o coração e alma abertos ao aprendizado. E sem dúvida é um livro "de psicologia", pois Estés é uma PH.D. em análise junguiana, que são utilizados para um estudo profundo de cada um dos dezenove contos analisados, todos correlacionados com casos práticos, e que nos remetem à utilização do arquétipo ao sentido da vida individual.
     O que mais me fascina no trabalho de Clarissa Estes é a forma como ela rejeita os padrões de beleza e "sucesso" da mídia contemporânea, e segue fundo para arquétipos que falam na alma feminina. Os lobos, significando a natureza rebelde e selvagem, são uma imagem poderosa. Mas também o "cantar sobre os ossos" ao se referir aos mistérios da vida e da morte, o "clã das cicatrizes" sobre o valor da experiência de vida, a forma como aborda a velhice como um momento de sabedoria e conhecimento, seu enfoque da alegria de viver, e dos cuidados necessários com os "predadores" violentos e perigosos que espreitam as mulheres, e de como identificam suas vítimas. Em cada conto, em cada análise, um pouco de sabedoria.
     Este é um livro que eu recomendo... mas nunca empresto.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

A MULHER E O BANHEIRO

     Se você é mulher, não deixe de ler esse texto leve e bem humorado. Com certeza em muitos momentos se identificará com essa grande epopéia e dará boas risadas. Se você é homem, leia também. Ele certamente o ajudará a entender melhor porque as mulheres vão ao banheiro em grupo e principalmente porque demoram tanto.
     Eu, tenho que confessar, que quase morri de tanto rir. Não só pelo texto em sí, mas principalmente pelas recordações que ele me trouxe.
     Em especial, lembrei-me de um dia em que, ainda muito pequena – devia ter uns cinco ou seis anos - fui com a minha mãe a um banheiro de um restaurante de estrada. O banheiro era inesquecivelmente nojento e só pactuamos entrar lá porque o caso era grave e de extrema necessidade.
     A primeira providência de minha mãe foi me pegar no colo, para que eu não encostasse em absolutamente nada. Então, ela chutou a porta e o que aconteceu lá dentro foi algo muito próximo a uma apresentação circense, envolvendo equilíbrio, garra, contorcionismo e muita determinação. Para vocês terem uma idéia, ela me pediu para segurar no seu pescoço, enquanto ela mesma se inclinava para frente, segurando minhas pernas, para fazer uma cadeirinha....Bem, daí para frente vou me permitir não entrar em mais detalhes, deixando o resto a critério da imaginação ou da experiência de cada um.
     Só posso dizer que é verdadeiramente incrível o que nós mulheres somos capazes de fazer para não encostar num vaso sanitário. Boa leitura e divirtam-se.


A MULHER E O BANHEIRO

   O grande segredo de todas as mulheres com relação aos banheiros é que quando pequenas, quem as levava ao banheiro era sua mãe. Ela ensinava a limpar o assento com papelo higiênico e cuidadosamente colocava tiras de papel no perímetro do vaso e instruía: "Nunca, nunca sente em um banheiro público".
   Em seguida, mostrava "a posição", que consiste em se equilibrar sobre o vaso numa posição de sentar sem que, no entanto, o corpo entre em contato com o vaso.
   A Posição" é uma das primeiras lições de vida de uma menina, super importante e necessária, e irá nos acompanhar por toda a vida. No entanto, ainda hoje, em nossa vida adulta, "a posição" é dolorosamente difícil de manter quando a bexiga está estourando.
    Quando você TEM que ir ao banheiro público, você encontra uma fila de mulheres, que faz você pensar que o Brad Pitt deve estar lá dentro. Você se resigna e espera, sorrindo para as outras mulheres que também estão com braços e pernas cruzados na posição oficial de "estou me mijando".
     Finalmente chega a sua vez, isso, se não entrar a típica mamãe com a menina que não pode mais se segurar. Você, então verifica cada cubículo por baixo da porta para ver se há pernas. Todos estão ocupados. É sempre assim.
     Finalmente, um se abre e você se lança em sua direção quase puxando a pessoa que está saindo. Você entra e percebe que o trinco não funciona.
    Ele nunca funciona. Você então pendura a bolsa no gancho que há na porta e se não há gancho (quase nunca há gancho), você inspeciona a área.
   O chão está cheio de líquidos não identificados e você não se atreve a deixar a bolsa ali, então a pendura no pescoço enquanto observa como ela balança sob o teu corpo, sem contar que é quase decapitada pela alça porque a bolsa está cheia de bugigangas que você foi enfiando lá dentro, a maioria das quais não usa, mas que guarda porque nunca se sabe.
   Mas, voltando à porta...Como não tinha trinco, a única opção é segurá-la com uma mão, enquanto, com a outra, abaixa a calcinha com um ouxão e se coloca "na posição".
* Alívio... AAhhhhhh... Finalmente! *
   Nessa hora os músculos começam a tremer. Você está suspensa no ar, com as pernas flexionadas e a calcinha cortando a circulação das pernas, o braço fazendo força contra a porta e uma bolsa de 5 kg pendurada no pescoço.
     Você adoraria sentar, mas não teve tempo de limpar o assento nem de cobrir o vaso com papel higiênico. No fundo, você acredita que nada vai acontecer, mas a voz de tua mãe ecoa na tua cabeça "jamais sente em um banheiro público!" e, assim, você mantém "a posição" com o tremor nas pernas.
     E, por um erro de cálculo na distância, um jato finíssimo salpica na tua própria bunda e molha até tuas meias! Por sorte, não molha os sapatos.
     Adotar "a posição" requer grande concentração. Para tirar essa desgraça da cabeça, você procura o rolo de papel higiênico, maaassss, puuuuta que o pariuuuu! O rolo está vazio. Isso sempre acontece.
     Então você pede aos céus para que, nos 5kg de bugigangas que você carrega na bolsa, haja pelo menos um miserável lenço de papel. Mas, para procurar na bolsa, você tem que soltar a porta. Você pensa por um momento, mas não há opção.
     E, assim que você solta a porta, alguém a empurra e você tem que freiá-la com um movimento rápido e brusco enquanto grita OCUPAAADOOOO!
     Aí, você considera que todas as mulheres esperando lá fora ouviram o recado e você pode soltar a porta sem medo, pois ninguém tentará abri-la novamente (nisso, nós mulheres nos respeitamos muito) e você pode procurar teu lenço sem angústia.
   Você gostaria de usar todos, mas quão valiosos são em casos similares e você guarda um, por dia cas dúvidas. Você então começa a contar os segundos que faltam para você sair dali, suando porque você está vestindo o casado já que não há gancho na porta ou cabide para pendurá-lo.
É incrível o calor que faz nestes lugares tão pequenos e nessa posição de força que parece que as coxas e panturrilhas vão explodir. Sem falar da porrada que você levou da porta, a dor na nuca pela alça da bolsa, o suor que corre da testa, as pernas salpicadas.
   A lembrança de tua mãe, que estaria morrendo de vergonha se te visse assim, porque sua bunda nunca tocou o vaso de um banheiro público, porque frnacamente, "você não sabe que doenças você pode pegar ali". Nessa hora você está exausta.
     Ao ficar de pé você não sente mais as pernas. Você acomoda a roupa rapidíssimo e tira a alça da bolsa por cima da cabeça! Então, vai a pia lavar as mãos. Está tudo cheio de água, então você não pode soltar a bolsa nem por um segundo. Você a pendura em um ombro, e não sabendo como funciona a torneira automática, você a toca até que consegue fazer sair um filete de água fresca e estende a mão em busca de sabão.
   Você se lava na posição de corcunda de notre dame para não deixar a bolsa escorregar para baixo do filete de água. O secador? Você nem usa. É um traste inútil, então você seca as mãos na roupa porque pensa usar o último lenço de papel que sobrou na bolsa para isso.
   Finalmente você sai do inferno, Sorte se um pedaço de papelo higiênico não tiver grudado no sapato e você sair arrastando-o, ou pior, a saia levantada, presa na meia-calça, que você teve que levantar à velocidade da luz, e te deixou a bunda à mostra! Nesse momento, você vê o teu carinha que entrou e saiu do banheiro masculino e ainta teve tempo de sobra para ler um livro enquanto esperada por você.
   "Por que você demorou tanto?" - pergunta o idiota.
   Você se limita a responder: "A fila estava enorme".
   E esta é a razão porque as mulheres vão ao banheiro em grupo. Por solidariedade, já que uma segura a tua bolsa e o casaco, a outra segura a porta e assim fica muito mais simples e rápido já que você só tem que se concentrar em manter "a posição" e a dignidade.
    Obrigada a todas as amigas que já me acompanharam ao banheiro    Obrigada a todas as amigas que já me acompanharam ao banheiro.