quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

ANTES DO ANO NOVO, QUE TAL UMA FAXINA?



   Comece jogando fora os pensamentos indesejados. Tire o pó dos sonhos, lave aqueles desejos que estavam enferrujando.....
   Tire do fundo das gavetas as lembranças que não usa e não quer mais, principalmente aquelas que machucam. Jogue fora as ilusões, os sorrisos que nunca deu, as lágrimas que não derramou. Também jogue fora a raiva e o rancor, e se livre das desilusões.
   Para ficar mais fácil, tire tudo de dentro do armário e vá jogando no chão: desejos reprimidos, palavras horríveis que nunca queria ter dito, mágoas de um amigo, um amor mal resolvido, lembranças dos dias tristes, as dores que viraram sofrimento, aquele medo que imobiliza. E aproveite para tirar as belas também: os dias maravilhosos, a lua cor de prata, aquelas palavras sinceras, os sorrisos, os carinhos, o pôr do sol, os reencontros, a amizade, o amor, detalhes...
   Então, sente-se no chão e jogue direto no saco de lixo: os restos de um amor ou de uma amizade que se quebraram, todas aquelas coisas que te magoam, e aproveite para jogar também aquelas palavras de raiva e de dor que estavam na prateleira de cima, que você guardou, mas não usou.
   Livre-se do mundo de coisas sem importância. Desapegue-se. Descentralize.
   Então, pegue seus sorrisos futuros e alegrias pretendidas e as coloque num cantinho, bem arrumadinhas. Arrume também aquela gaveta onde você guarda tudo de importante: amor, sorrisos, momentos felizes. Dobre direitinho os desejos, perfume a esperança, passe um paninho nas suas metas e deixei-as bem à mostra. E num lugar bem fácil e disponível, coloque o carinho e a solidariedade.
   Coloque nas gavetas debaixo as lembranças da infância; em cima, as de sua juventude e as do seu tempo, e pendurado bem à sua frente, coloque a sua capacidade de amar e de recomeçar. Depois de tudo isso, sacuda a poeira.
           Movimente-se. Reinvente-se. Não tenha medo de ser diferente.


Celebre a vida.


Concentre-se no lado bom e positivo das coisas


        Mas lembre-se: sempre um passo e um dia de cada vez.


     E nunca se esqueça de tudo que é terminantemente proibido

(por Pablo Neruda - "Queda prohibido")
É proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer
Ter medo de suas lembranças.

É proibido não rir dos problemas
Não lutar pelo que se quer,
Abandonar tudo por medo,

Não transformar sonhos em realidade.
É proibido não demonstrar amor
Fazer com que alguém pague por tuas dúvidas e mau-humor.
É proibido deixar os amigos

Não tentar compreender os que viveram juntos
Chamá-los somente quando necessita deles.
É proibido não ser você mesmo diante das pessoas,
Fingir que elas não te importam,

Ser gentil só para que se lembrem de você,
Esquecer aqueles que gostam de você.
É proibido não fazer as coisas por si mesmo,
Não crer em Deus e fazer seu destino,

Ter medo da vida e de seus compromissos,
Não viver cada dia como se fosse um último suspiro.
É proibido sentir saudades de alguém sem se alegrar,

Esquecer seus olhos, seu sorriso, só porque seus caminhos se
desencontraram,
Esquecer seu passado e pagá-lo com seu presente.
É proibido não tentar compreender as pessoas,
Pensar que as vidas deles valem mais que a sua,

Não saber que cada um tem seu caminho e sua sorte.
É proibido não criar sua história,
Deixar de dar graças a Deus por sua vida,

Não ter um momento para quem necessita de você,
Não compreender que o que a vida te dá, também te tira.
É proibido não buscar a felicidade,

Não viver sua vida com uma atitude positiva,
Não pensar que podemos ser melhores,
Não sentir que sem você este mundo não seria igual.
    SEJA FELIZ!!!
      Feliz Natal e um Ano Novo muito próspero e cheio de realizações.
   (inspirado no texto Faxina, de Martha Medeiros)
                                    

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

PRECISAMOS CONHECER O NOSSO PASSADO SE QUISERMOS MUDAR O NOSSO FUTURO

             Quando li essa reportagem da Revista Marie Claire sobre os testemunhos das mulheres que ousaram combater a Ditadura Militar, fiquei imaginando o quanto deve ter sido duro e doído para elas abrirem os seus baús e exporem publicamente suas vidas, com todos esses pormenores, para nos contar a nossa história. Por isso, não sosseguei enquanto não o encontrei para divulgá-lo aqui.

             De todas elas, nessa vida tive a oportunidade de conhecer a Amélia Teles, que há anos está à frente do projeto Promotoras Legais Populares, que busca capacitar mulheres, líderes comunitárias, para o pleno exercício da cidadania. À você e a tantas outras que continuam lutando bravamente pelas causas feministas, deixo aqui registrado meu orgulho, respeito e admiração.
           Infelizmente, tem muita gente contra a Comissão Nacional da Verdade, constituída para investigar violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988, no Brasil, por agentes do estado. E por incrível que pareça, tem também aqueles que esbravejam contra os próprios direitos humanos, como se eles não dissessem respeito aos direitos de todos nós.

           Pois se eles se assustam apenas com a violência urbana e não se importam e nem têm medo dos desmandos do Estado, eu tenho. E essa reportagem é a prova viva do por que devemos estar sempre atentos e nos importar sempre.

23/09/2013 06h01 - ATUALIZADA EM: 24/09/2013 17h35 - por Mariana Sanches

Os testemunhos das mulheres que ousaram combater a Ditadura Militar

A Comissão Nacional da Verdade, criada para elucidar crimes cometidos durante o período acaba de completar um ano. Antes de seu encerramento em 2014, tem como uma de suas principais missões contar o que sofreram as mulheres que foram contra o regime. São brasileiras hoje na faixa dos 60 anos, como as ouvidas por Marie Claire: vítimas de estupros, choques nos mamilos, ameaças aos filhos, abortos...
DA ESQ. PARA A DIR.: AMÉLIA TELES, ANA MARIA ARATANGY E CRIMÉIA DE ALMEIDA (Foto: FABIO BRAGA E TADEU BRUNELLI)

Em pé sobre uma cadeira, nua, encapuzada e enrolada em fios, Ana Mércia Silva Roberts, então com 24 anos, esforçava-se para manter os braços abertos, sustentando uma folha de papel presa entre os dedos de cada mão. Ela estava naquela posição havia horas. A cada vez que o cansaço lhe fazia baixar minimamente os braços, um choque elétrico percorria todo seu corpo. E as gargalhadas preenchiam a pequena sala. Eram vários homens, talvez oito, talvez dez. Cada um com um rosto, uma história, uma vida. “Um dos meus torturadores poderia ser meu avô, um senhor de gravata-borboleta para quem eu daria lugar no ônibus; o outro era um loiro com chapéu de caubói. Havia um homem com jeito de pai compreensivo que chegou a me dar um chocolate, e um jovem bonito com longos cabelos escuros, que andava de peito nu, ostentando um crucifixo, de codinome Jesus Cristo”, afirma.

O rosto desses algozes, integrantes da repressão militar, e as cenas do dia em que teve de ser estátua viva perante eles são parte das lembranças que Ana Mércia, hoje 66, guarda de quase três meses de prisão no DOI-Codi e no Dops, dois centros paulistanos de tortura e prisão de oposicionistas ao regime militar, instaurado sete anos antes. Integrante do Partido Operário Comunista, ela esteve nos porões da ditadura em 1971, mesma época em que o País vivia a prosperidade do “milagre econômico” e o ufanismo alimentado pela conquista da Copa de 70 e por slogans como “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Nos meses em que ficou encarcerada, seu corpo e mente foram massacrados de diversas formas. Mas não é ao descrevê-las que seus olhos ficam marejados. “Estranhamente, eu não me lembro de quase nada daquelas semanas, meses. Fiz terapia, mas não consigo recuperar esses trechos da minha vida. O que mais me dói é isso. Vários pedaços de mim e da minha existência não me pertencem, ficaram com eles (os militares)”. Ana Mércia é uma mulher com pouca memória das torturas daqueles porões. E é também uma metáfora do próprio Brasil, que segue desmemoriado das histórias do regime militar (1964 a 1985) quase 30 anos depois do fim da ditadura. A diferença entre Ana Mércia e o Brasil é que ao País foi dada a chance de recuperar e registrar os detalhes de sua história. É essa a missão da Comissão Nacional da Verdade, criada pela presidenta Dilma Rousseff (ela mesma vítima de torturas do Estado) e que tornou acessíveis uma série de papéis até então secretos. Desde maio de 2012, 19 milhões de páginas de documentos foram retirados de seus arquivos e estão em análise, e cerca de 350 pessoas foram ouvidas. É um movimento delicado e, para muitos, atrasado. Até então, o Brasil já havia debatido por anos como lidar com a violência da época.

INTEGRANTES DO GRUPO "TEATRO EM GREVE CONTRA A CENSURA" PROTESTAM NO RIO DE JANEIRO EM FEVEREIRO DE 1968 (Foto: Gonçaves (CPDOCJB))

A Ordem dos Advogados do Brasil chegou a pedir, em 2008, a revisão da Lei da Anistia, que perdoava todos os “crimes políticos” e beneficiava também torturadores, mas teve o pedido negado pela Justiça. Da sua parte, grupos militares se opunham à quebra de sigilo e à própria Comissão por temer uma caça às bruxas. Foi depois de muito diálogo que se chegou à fórmula de um grupo de trabalho com ênfase na transparência: a Comissão da Verdade pode acessar qualquer documento que considerar importante e tem o poder de convocar pessoas para depor, mas não de julgá-las. Do primeiro ano de trabalho, emergiram as conclusões de que a tortura começou em 1964, pouco depois do golpe, e ocorreu em pelo menos sete estados diferentes. Nesse pouco tempo, o Estado brasileiro admitiu que os assassinatos do deputado Rubens Paiva e do jornalista Vladimir Herzog foram obra de seus agentes, e descortinou o recrutamento e o extermínio de tribos indígenas da Amazônia pelos militares.

Tudo isso dá contornos mais nítidos à história recente do País, mas o grupo ainda tem muito a contar até dezembro de 2014, quando os trabalhos serão encerrados. Uma das principais incumbências da Comissão é esclarecer a participação das mulheres na resistência à ditadura e as torturas a que foram submetidas. “Acreditamos que as mulheres sofreram violências específicas, sexuais, motivadas também por machismo, que buscavam destruir a feminilidade e a maternidade delas”, afirma Glenda Mezarobba, uma das coordenadoras do grupo Ditadura e Gênero, que investiga o assunto na Comissão da Verdade. Os trabalhos ainda não possuem conclusões definitivas, mas há fortes indícios do que pode ter acontecido às brasileiras durante as duas décadas de regime militar. “Hoje, trabalhamos com um número de 500 mortos pela ditadura, 50 deles seriam mulheres. Mas sabemos que os dois números estão subestimados”, afirma Glenda, empenhada em refazer a estatística.

CENA COMUM EM 1968: A CAVALARIA DS POLÍCIA MILITAR TOMA A AVENIDA SÃO JOÃO, NO CENTRO DE SÃO PAULO (Foto: Acervo Memorial da Resistência de São Paulo)
A quantidade de processos reclamando anistia sugere que esse número é muito maior. Desde 2001, o Ministério da Justiça recebe pedidos de indenização de brasileiros que, de alguma maneira, tiveram a vida marcada pelo regime militar. São parentes e vítimas de violência ou pessoas que, por motivo exclusivamente político, ficaram impedidas de trabalhar. Hoje, o órgão contabiliza mais de 73 mil pedidos. Mais de 40 mil já foram aceitos. As mulheres foram fundamentais no combate ao regime em todas as suas fases. Seu engajamento nos movimentos pela anistia dos presos políticos, que muitas vezes culminaram com passeatas exclusivamente femininas, são a parte mais conhecida dessa militância. Mas, nas organizações de esquerda Ditadura, elas também foram importantes. Guardavam armas e abrigavam militantes (aliás eram preferidas para essa função, pois levantavam menos suspeitas), traduziam jornais comunistas estrangeiros, participavam das aulas de doutrinas ideológicas, da elaboração dos planos de assaltos e sequestros, tinham aulas de tiro e muitas foram a Cuba fazer curso de guerrilha. Nas organizações clandestinas, chegaram a dirigentes.
 “Era preciso que houvesse uma mulher em cada esconderijo, para manter a aparência de uma casa normal”, afirma Glenda. Elas também agregavam uma faceta afetiva e familiar às organizações, muitas foram mães na clandestinidade ou na cadeia. Na descrição feita pela psicóloga argentina, naturalizada brasileira, Maria Cristina Ocariz, a mulher militante parece a expressão viva da frase do revolucionário argentino Ernesto Che Guevara: “hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”. “Elas tinham a mesma garra que os homens. Perdiam companheiros, assassinados pelo regime, e ainda assim seguiam na luta, não por frieza, mas por convicção ideológica de poder construir um mundo melhor para seus filhos.” Cristina, que hoje coordena a Clínica do Testemunho Instituto Sedes Sapientiae em São Paulo, um serviço que oferece espaço para reparação psicológica aos afetados por ditaduras, fez parte da resistência aos militares argentinos antes de se exilar no Brasil. Na juventude, na década de 70, ela deixava seu bebê de 1 mês nos braços da mãe, em Buenos Aires, ia a manifestações e corria para casa a tempo de amamentar seu filho. Quando eram presas, as mulheres tinham pela frente não apenas a tortura, mas também o sexismo e a violência sexual. “É claro que ser mulher fazia diferença. Porque ainda que os homens torturados também tivessem de ficar nus, eles tiravam as roupas na frente de outros homens. A mulher ficava nua diante dos olhos cobiçosos e jocosos daqueles homens, essa era a primeira violência”, afirma Tatiana Merlino, organizadora do livro "Luta, Substantivo Feminino", publicado em 2010 pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos, que descreve o assassinato de 45 mulheres militantes.
 MANIFESTAÇÃO DE MULHERES CONTRA A VISITA DO ATIRADOR ARGENTINO JORGE VIDELA A SÃO PAULO, EM 1980 (Foto: Material Brasil Nunca Mais do Arquivo Edgard Leuenroth/Unicamp)

NUDEZ E TORTURA

“A primeira coisa que eles fizeram quando entrei na sala de depoimento foi me mandar tirar a roupa, eu já fiquei apavorada”, afirma Ana Maria Aratangy, de 66 anos. “Eu não esperava por aquilo. Eu mesma fui tirando a roupa, achei que era melhor do que deixá-los arrancar. Acho que foi pior do que as torturas que vieram depois”. Ana Maria era membro do Partido Operário Comunista quando foi presa, aos 24 anos, e estava grávida de algumas semanas, mas não sabia. Estudante do sexto ano de medicina, ela afirma que sua militância era tímida: guardava duas armas em casa e tinha leituras consideradas
subversivas.
Nem sequer conhecia os líderes do POC. Até por isso, não teve muito a dizer quando vieram os choques nos mamilos e os tapas no rosto. Tampouco pôde conter os gritos. Enquanto gritava, sua mãe, que havia sido presa junto com ela, ouvia da sala ao lado. Ana Maria só saiu da prisão aos cinco meses de gestação. Sua filha, hoje, tem 41 anos.

 “Depois de nos colocarem nuas, eles comentavam a gordura ou a magreza dos nossos corpos. Zombavam da menstruação e do leite materno. Diziam ‘você é puta mesmo, vagabunda’”, afirma Ana Mércia. As violências que seguiam incluíam, em geral, choques nas genitálias, palmatórias no rosto, sessões de espancamento no pau de arara, afogamentos ou torturas na cadeira do dragão, cujo assento era uma placa de metal que dava descargas elétricas no corpo amarrado do prisioneiro. Mas com as mulheres era diferente. “Havia uma voracidade do torturador sobre o corpo da torturada”, afirma a psicóloga Maria Auxiliadora Arantes, cuja tese de doutorado sobre tortura no Brasil será publicada este ano. “O corpo nu da mulher desencadeia reações no torturador, que quer fazer desse corpo um objeto de prazer.”
 PASSEATA DE MULHERES NO LARGO CARIOCA À CINELÂNDIA, NO RIO DE JANEIRO EM 1983 (Foto: Almir Veiga (CPDOCJB))

Foi exatamente o que viveu Ieda Seixas, de 65 anos. Aos 23, ela foi presa por causa da militância do pai, operário. Demorou muito tempo para ser capaz de relatar o que passou. E, quase 40 anos depois, não consegue conter as lágrimas ao descrever: “Levaram-me para um banheiro durante a noite, no DOI-Codi, eram uns dez homens. Fiquei sentada em um banco com dois deles me comprimindo, um de cada lado. Na minha frente, em uma cadeira, sentou um cara que chamavam de Bucéfalo. Ele me dava muito tapa na cara, a minha cabeça virava de um lado para o outro, mas eu nem sentia, porque um dos homens que estava sentado ao meu lado não parava de passar a mão em mim, colocou os dedos em todos os meus orifícios. Era tão terrível que eu pedia: ‘Coloquem-me no pau de arara’. Mas aquele homem dizia: ‘Não, gente. Não precisa levar essa aqui para o pau de arara. Comigo ela vai gozar e vai falar’.

Todos riam. Naquela noite, se eu tivesse tido meios, teria tentado me matar.” O suicídio pode ter sido o destino de outras mulheres que não conseguiram suportaram a violência sexual. Segundo Luci Buff, da Comissão da Verdade, começam a aparecer informações de que até mesmo freiras teriam sido estupradas por militares. Amélia Teles, de 68 anos, relata que não foi capaz de conter o vômito ao ver que o torturador ejaculava sobre seu corpo nu e ferido, depois de masturbar-se olhando para a vítima, amarrada na cadeira do dragão. Militante do Partido Comunista, ela tinha dois filhos, de 5 e 4 anos, quando foi presa, em 1972. O assédio sexual do torturador não foi a pior parte. Em um dos dias na prisão, depois de ser exaustivamente torturada Amélia viu a porta da sala se abrir e seus dois filhos entrarem. “Foi a pior coisa do mundo. Eu, amarrada (nua) na cadeira do dragão, sem nem poder abraçá-los. A minha filha me perguntou: ‘Mãe, por que você está azul?’. Eram as marcas dos hematomas, do sangue pisado, espalhados pelo meu corpo”, afirma Amélia. “Eles foram claros comigo: para manter meus filhos vivos, eu teria que colaborar com eles.” Os dois filhos hoje são adultos. Passaram por terapia e guardam apenas fragmentos de memória de sua visita ao DOI-Codi. Nenhum quis ter filhos. Amélia credita esse fato ao trauma na infância.

Agredir crianças para atingir a mãe não era um recurso excepcional. Nem sequer as mulheres grávidas eram poupadas. Em 1974, com uma barriga de seis meses de gestação, a militante do grupo revolucionário MR-8 Nádia Nascimento foi presa, junto com o seu companheiro, em São Paulo. “Já foram logo me dizendo que filho de comunista não merecia nascer. Arrancaram minha roupa na frente do meu companheiro, que já estava muito machucado pela tortura, e perguntavam se ele queria que me torturassem, diziam que dependia dele. Ameaçaram me estuprar na frente dele, mesmo grávida. Até que, em um dado momento, me colocaram na cadeira do dragão. Ali, comecei a sangrar por causa dos choques e perdi meu filho”, conta Nádia, que teve uma série de complicações médicas decorrentes do aborto provocado e da falta de cuidados hospitalares. A criança se chamaria Lucas e hoje teria 39 anos de idade. 
A LÍDER ESTUDANTIL CATARINA MELONI EM PASSEATA. MAIS TARDE, ELA ESCREVERIA O LIVRO"1968: O TEMPO DAS ESCOLHAS" (Foto: Jesus Carlos (Imagem Global)
Também presa aos seis meses de gestação, Criméia de Almeida, de 67 anos, conseguiu manter seu filho na barriga, a despeito das torturas. Quando a bolsa estourou, na cela solitária que ela ocupava em uma carceragem do exército em Brasília, dezenas de baratas que habitavam o lugar começaram a subir por suas pernas, alvoroçadas por se alimentar do líquido amniótico. Embora pedisse ajuda, teve de esperar horas até ser transferida a um hospital. Lá, a ex-guerrilheira do Araguaia, que havia trabalhado como parteira na Amazônia, teve as pernas e os braços amarrados. “Quando o bebê nasceu, já o levaram para longe de mim. E o médico me costurou sem anestesia, eu gritava de dor. Daí passaram a usar meu filho para me torturar. Passavam dois dias sem trazê-lo para mamar. Quando ele vinha, estava com soluço, magro, morto de fome. Ele nasceu com quase 3,2 kg. Mas com um mês de vida pesava apenas 2,7 kg. Na infância, ele tinha muitos pesadelos, chegou a ter convulsões. É claro que ficaram traumas em todos nós. Quando eu estava presa e ouvia o tilintar de chaves na carceragem, que significava que alguém seria torturado, o bebê começava a soluçar dentro do útero. Hoje, aos 40 anos, João Carlos ainda soluça toda vez que fica estressado”, afirma Criméia.

Ele não conheceu o pai, André Grabois, que até hoje é considerado desaparecido político. Criméia não teve a chance de enterrar seu companheiro. É provável que André tenha sido assassinado pelos militares durante a guerrilha do Araguaia – movimento comunista na região amazônica combatido pelo governo entre 1972 e 1974, no qual acredita-se que os militares tenham lançado bombas de Napalm, o mesmo químico usado no Vietnã, de acordo com mais uma revelação recente da Comissão da Verdade. Sorridente até ali, em um evento sobre educação internacional para mulheres, a ministra das mulheres, Eleonora Menicucci, ganhou um semblante pesado ao ser indagada por Marie Claire sobre sua história na ditadura. Quando foi presa, em 1971, tinha apenas 22 anos e uma filha de 1 ano e 10 meses. Para forçála a dar informações de sua atividade política, os militares colocaram a menina, Maria, apenas de fralda, no frio. A criança chorava e os torturadores ameaçavam dar choques nela. Ieda Seixas, que foi aprisionada na mesma cela que a atual ministra logo depois dessa sessão de tortura, afirma: “A Eleonora andava como um animal enjaulado, de um lado para o outro, e dizia ‘minha filha, minha filha’. Tinha os olhos esbugalhados, passava a mão pelos cabelos com desespero, parecia que ia explodir. Era mais do que estar transtornada, ela estava em estado de choque”.

Sobre a experiência, a ministra diz: “A Maria superou tudo e hoje é uma vencedora. Eu também superei. Tive outro filho que me deu a certeza de que o que fiz foi correto e me mostrou que eu ainda era capaz de ser mãe mesmo depois de todas as torturas que sofri. Mas, ainda assim, relembrar isso é muito sofrido. Acho que cada um resolve à sua maneira. A Maria aprendeu a lidar com isso com mais liberdade e menos sofrimento. Eu, tudo o que tinha de falar, eu falei. Porque o pior não é a tortura física, mas a psicológica, a ameaça. As ameaças que faziam comigo de torturar a Maria na minha frente eram tão pesadas que talvez fossem mais fortes do que a própria tortura em si”.
AS GRADES DO DOPS (Foto: Material Brasil Nunca Mais do Arquivo Edgard Leuenroth/Unicamp)

O FUTURO

É com essa mesma memória que o Brasil tenta aos poucos lidar. A abertura dos arquivos e os depoimentos, que pode resultar em processos contra os torturadores, não são as únicas manifestações. No cinema, "Hoje", filme da diretora Tata Amaral, mostra o quão atual é nossa dívida com a história. A protagonista do longa, vivida pela atriz Denise Fraga, é uma ex-militante de esquerda cujo marido foi morto pelos militares. Ela recebe uma indenização pela morte dele e compra um apartamento, mas, no dia da mudança, o desaparecido ressurge. A figura do retorno mostra como é difícil seguir em frente sem resolver o passado. É assim no filme e na vida de Criméia, Amélia, Ieda, Ana Mércia e Ana Maria. “Ao fazer "Hoje", me deparo com uma sociedade que permite que sua memória seja roubada. E que aceita que, neste momento, alguém esteja sendo torturado numa prisão brasileira. Será que em algum momento a gente vai dizer: ‘Chega!’?”

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

YAYOI KUSAMA: A PRINCESA DAS BOLINHAS


            Loucura e arte não caminham necessariamente juntas, mas sem sombra de dúvidas, em determinadas circunstâncias transtornos mentais podem abrir caminhos inusitados para a criatividade. É justamente o caso da japonesa Yayoi Kusama, de 84 anos, considerada um dos maiores nomes da arte contemporânea e também um ícone da moda.
            Nascida em 1929, em Matsumoto-shi, desde sempre Yayoi sofreu com alucinações, sendo diagnosticada esquizofrênica. Com uma história de vida sofrida, cheia de altos e baixos, marcada por muita rejeição, até mesmo da própria mãe que nunca aceitou o seu lado artístico e suas diferenças, ela fez da arte sua rota de fuga da realidade e conseguiu com ela, se comunicar com o mundo e mostrar às pessoas como é o mundo que ela enxerga. 
            Como ela mesma diz: “Minha arte é expressão da minha vida, sobretudo da minha doença mental, originária das alucinações que eu posso ver. Traduzo as alucinações e imagens obsessivas que me atormentam em esculturas e pinturas.” 
            Conhecida como “A Princesa das Bolinhas”, Yayoi transpõe para telas, roupas, vídeos, esculturas e até para corpos nus as formas e cores psicodélicas que enxerga em seu mundo. Seu trabalho funciona como uma forma de evitar o suicídio e mantê-la viva. 
            Até hoje, por vontade própria, Yayoi vive em um Hospital Psiquiátrico, em Tóquio, onde está internada desde 1977, e usa seu apartamento, que fica  há poucos minutos do Hospital, como ateliê para sua mente inquieta e sem limites.
             Tendo trabalhado ao lado de grandes nomes da Arte Moderna e Contemporânea como Andy Warhol, Joseph Cornell e Donald Judd, a artista logo passou a liderar o movimento da vanguarda. Participou de diversas exposições de arte a céu aberto no Central Park e Brooklyn Bridge, muitas vezes envolvendo nudez. Engajou-se numa campanha contra a guerra do Vietnã e é uma grande simpatizante na luta dos homossexuais por seus direitos na sociedade.
            Yayoi também realizou uma parceria com a Louis Vuitton. Uma ideia que surgiu durante uma viagem da equipe de estilo da maison à Tóquio, quando Marc Jacobs se sentiu atraído pela energia interminável da “rainha dos polka dots”.
             A coleção, intitulada de Infinitely Kusama“, contou com roupas, bolsas, sapatos e outros acessórios com a icônica estampa.













            Além disso, a tradicional e divertida estampa de bolinha, também serviu de inspiração para a criação, também por Marc Jacobs, do DOT - perfume com fragrância tão criativa quanto o frasco, com topo de espumante de frutas vermelhas e Dragon Fruit, assinatura floral no coração de jasmim e base de baunilha e almíscar. Simplesmente um charme, não é mesmo!!!
            Atualmente, Yayoi figura como a terceira artista mulher que mais ganhou dinheiro com seu trabalho (atrás apenas das americanas Joan Mitchell e Mary Cassatt), tendo faturado ao longo da vida cerca de US$ 127,7 milhões.
 Feminista, moderna e revolucionária por natureza, sem dúvida alguma trata-se de uma mulher à frente do seu tempo. Aliás,  uma pessoa que faz toda a diferença, não só por discutir publicamente sua doença mental, mas principalmente por nos mostrar o humano atrás da doença e novas formas de ver o mundo sem as amarras convencionais, através da única linguagem universal que nos permite entender e tolerar o diferente: a arte.
              Por tudo isso, fiquei imensamente feliz ao saber que a mostra “Obsessão Infinita“, recorde de público no Malba, em Buenos Aires – onde ficou em cartaz por mais de dois meses – finalmente chegou ao Brasil, marcando a estreia de Yayoi Kusama no nosso país.
              Atualmente em cartaz no CCBB do Rio de Janeiro, a expo traz  uma retrospectiva de 100 trabalhos realizados pela japonesa entre os anos de 1949 e 2012. São pinturas, esculturas, vídeos, apresentação de slides e instalações de deixar qualquer um de boca aberta.
             Produzida pelo Instituto Tomie Ohtake, em parceria com o estúdio da artista, e com curadoria de Philip Larratt-Smith e Frances Morris, como não poderia deixar de ser, a exposição tem como marca registrada as famosas bolinhas, em diversas cores, tamanhos e estilos. E dentre os maiores destaques está um de seus trabalhos seminais, o “Campo de falos” — um jardim de falos decorados com bolas vermelhas e brancas numa sala espelhada.
            Outro destaque é a instalação “Cheia de brilho da vida”, em que as bolinhas aparecem na forma de lâmpadas que se acendem e apagam em cores diferentes. E o público também é chamado a participar da obsessão da artista, recebendo, logo na entrada, uma cartela de adesivos, todos de bolas coloridas, para decorar outra instalação, a “Sala da obliteração”, originalmente toda em branco. Também poderá ser vista na exposição uma das suas mais celebradas séries, a “Infinity net” (“Rede infinita”), realizada em 1950. E, ao final, 36 telas gigantescas pintadas entre 2012 e 2013 mostram que a artista continua trabalhando com afinco em seu ateliê, dentro da instituição psiquiátrica em que vive. 
             A exposição permanecerá no Rio até 26 de janeiro de 2014, no Centro Cultural Banco do Brasil, que fica na Rua Primeiro de Março, 66 – Centro. Com entrada franca!     E passará por Brasília e São Paulo:  de 17/02/2014 a 27/04/2014 - Centro Cultutal Banco do Brasil, Brasília; e  de 21/05/2014 a 27/07/2014 - Instituto Tomie Ohtake, São Paulo.

            Simplesmente imperdível!!!

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

VOCÊ CONHECE A HISTÓRIA DO MACACO?

            Ainda bem, na vida, todo mundo tem lá os seus mestres. Aquelas pessoas inesquecíveis e extraordinárias que te fazem bem, dizem a coisa certa na hora certa e servem de grande exemplo e fonte de inspiração, sabe? Pois é. Eu tive a sorte de ter vários, e foi exatamente um deles quem me contou essa história.
            Nós trabalhávamos juntos e eu sempre o importunava. Entrava em sua sala e ia logo perguntado: - Ocupado? Ao que ele sempre me respondia, com aquele jeito introspectivo e sério: - Tanto quanto você.
            Achava aquela resposta simplesmente o máximo, digna dos grandes sábios, e sempre me deliciava. Então ele imediatamente parava o que estivesse fazendo para me ouvir e eu ganhava o dia, me sentindo a importante. Jamais me esquecerei.
            Mas voltando à história do macaco, foi num desses dias, quando eu cheguei meio esbaforida e completamente pessimista com alguma coisa que não lembro bem o que era, que de repente ele me perguntou:
- Anna, você já ouviu a história do macaco?
            MA-CA-CO?! Pensei com meus botões. Até hoje fico imaginando a minha cara. Mas vindo de quem vinha me limitei a responder:
-Não.
- Então sente-se, disse ele. E começou:
            Certo dia, João, que morava em um sítio distante da cidade, saiu com seu carro para ir comprar mantimentos no centro. Quando já estava no meio do caminho, em plena estrada de terra, percebeu que o pneu do carro havia furado. Saiu do carro, abriu o porta-malas para pegar o macaco para poder trocar o pneu, e nada. Estava sem ele.
            Ah! É esse macaco, pensei novamente com meus botões.
            João olhou para um lado, olhou para o outro e nada. Nenhum sinal de vida. Resolveu sentar no acostamento e esperar um pouco para ver se aparecia uma boa alma, mas nada. Ninguém apareceu.
            Então, levantou-se e olhando ao redor, lá longe, bem distante, viu uma fumacinha e, como onde há fumaça há fogo e onde há fogo, geralmente há gente, resolveu caminhar naquela direção.
            Andou, andou e andou. E já estava bem suado quando percebeu que aquela era a casa do Paulão, um chato de plantão, mal humorado, que conhecia só de vista, porque o infeliz não cumprimentava, muito menos conversava com ninguém. Com tal constatação, não pode deixar de exclamar:
- PQP!!! Que azar. Justo esse chato?! Só me faltava essa.
            Que Paulão tinha carro e consequentemente macaco, disso ele tinha certeza, mas aquele grosso era bem capaz de não querer emprestar o macaco.
- E se eu pedir o macaco e ele me disser que não tem? Afinal, chato que é chato não ajuda, só atrapalha. Mas que ele tem macaco, ele tem.
            E enquanto andava pensava e enquanto pensava andava e falava consigo mesmo:
 - Tudo bem. Eu chego lá, peço o macaco e digo que depois eu devolvo. Ele não tem motivo para não me emprestar. Mas do jeito que ele é, é bem capaz de fechar a porta na minha cara. Ah, se o Paulão fizer isso!!! Era só o que me faltava, andar tudo isso para nada. Tudo bem, vou pedir o macaco na maior educação e não vai ter erro. Será?
             E quanto mais perto da casa de Paulão chegava, mais agitado e nervoso ficava:
- Se esse cara não quiser me emprestar o macaco ele vai ver só. Chato tudo bem, eu já sei que ele é, mas não me emprestar o macaco já é demais. Um egoísta esse Paulão, isso sim. Babaca! Se ele não quiser me emprestar, pego o macaco na força. Mas e eu lá sei onde ele guarda o macaco?!
            Andou mais um pouco, pensou e esbravejou bastante até que finalmente chegou na casa do Paulão. Encheu-se de coragem, bateu na porta e quando Paulão atendeu, foi logo dizendo:
- Paulão, é o seguinte, enfia o macaco no #&. Virou as costas e foi embora.
            Nem preciso dizer que caí na risada e demos boas gargalhadas. Quando voltei para minha sala, fiquei pensando quantas vezes e com quantos “Paulões” já tinha feito exatamente isso, e para minha tristeza, pude concluir que com vários. Bem mais do que gostaria. Acho que até mesmo com o meu marido!!!
            Tudo bem que de lá para cá continuo ouvindo não das pessoas, mas posso garantir que agora eu realmente pergunto antes.
            Bem, nem preciso falar que todo mundo na minha casa já conhece a história do macaco, e vira e mexe a gente se lembra, em alguma história ou assunto:
- Olha o macaco!!!!
            Figuraça esse meu mestre, né?

terça-feira, 15 de outubro de 2013

QUER MELHORAR O MUNDO? EDUQUE AS MENINAS



     Esse é o mantra pronunciado pelo antropólogo e jornalista americano, Justin Reeves, 33 anos, produtor de Girl Rising, documentário lançado esse ano, com direito a tapete vermelho, que chegará ao Brasil em DVD, em 2014, que deveria ser repetido por todos nós.
     Há dez anos trabalhando no Equador, Chile e na Argentina com iniciativas de combate à AIDS, Justin percebeu que mulheres que recebem educação mudam a comunidade, e se entregou ao projeto. Depois de percorrer vários países pobres ou em desenvolvimento onde vivem as nove garotas desse documentário poético, Justin concluiu que "As meninas do mundo inteiro têm sonhos parecidos, querem ir para a escola. E, quando não vão, ficam sujeitas ao sexo sem proteção, casamento precoce, tráfico humano e à violência. Se estudam, podem quebrar um ciclo de pobreza. Quando o número de alunas cresce em 10%, o PIB do país delas sobe cerca de 3%. Profissionalizadas, elas casam mais tarde, cuidam melhor da saúde e da instrução dos filhos.
   As nove meninas extraordinárias do filme vivem no Camboja, Nepal, Índia, Egito, Peru, Haiti, Serra Leoa, Etiópia e Afeganistão, e enfrentam implacáveis circunstâncias para conseguir acesso à educação. Duas dessas histórias são de crianças beneficiadas por projetos da Visão Mundial: Ruksana (Índia) e Azmera (Etiópia).
   Dirigido pelo indicado ao Oscar, Richard Robbins, e produzido pela aclamada produtora Martha Adams, o documentário conta as histórias dessas nove mulheres, escritas por nove roteiristas célebres do próprio país, e narrado por nove atrizes de renome, dentre elas Meryl Streep, Anne Hathaway, Kerry Washington, Selena Gomez e Cate Blanchett.
   Wadley, do Haiti, aparenta ter 7 anos e se vê impedida pela professora de assistir às aulas porque a mãe não pôde mais pagar a mensalidade depois do terremoto que matou 316 mil pessoas e desorganizou o país, em 2010. Wadley enfrenta a mestra. A peruana Senna, louca para virar escritora, trabalha duro, já que o pai se acidentou numa mina. Justin viveu dias na casa insalubre da família dela, a 5 mil metros de altura, vendo que o frio terrível não roubava a energia de Senna,que lê até no escuro. Ele ainda conheceu Yasmin – detida no Egito por ferir com faca um carroceiro sedento por estuprá-la – e Suma, do Nepal. Vendida pelos pais como escrava doméstica aos 8 anos, Suma foi alfabetizada na adolescência. Liberta, sai de bicicleta resgatando meninas aprisionadas na cozinha pelos patrões.
   Na Índia, a história de Ruksana foi contada pela célebre roteirista Sooni Taraporevala. Seu trabalho anterior inclui o roteiro do filme indicado ao Oscar, Salaam Bombay. Em Girl Rising, Sooni conta a história de Ruksana, uma menina de 11 anos, indiana, que vive nas ruas de Calcutá. Ela vive na calçada com sua família, na mesma rua e calçada em que sua mãe nasceu e foi criada, e passa a noite em um abrigo. Sua família é muito amorosa e lhe dá muito apoio. "São apenas as circunstâncias físicas em que ela vive que são difíceis," conta a roteirista. A “casa” deles fica contra a parede de uma instituição. Eles têm uma espécie de lona que forma o telhado, e tudo fica nesse espaço. Muito embora o pai de Ruksana trabalhe em dois empregos e sua mãe seja cozinheira, eles não conseguem encontrar qualquer tipo de habitação razoável para morar, e estão sob a constante ameaça de demolição, porque o governo realiza frequentemente ações de demolição para limpar as calçadas. Ruksana raramente perde um dia de escola. Ela tem um entusiasmo muito grande com a escola, e seus pais zelam muito para que seus filhos sejam bem-educados.
   Talentosas e surpreendentes, as protagonistas emocionam pela resiliência, esperança e a beleza com que olham para a vida.
    Apaixonante e emocionante, Girl Rising é uma ação de destaque na Campanha 10x10, um movimento global, em parceria com a Visão Mundial, para promover a educação de meninas em países em desenvolvimento. Um filme que mostra de forma sensível e profunda a força do espírito humano e como o poder da educação pode mudar uma menina, transformar vidas e melhorar o mundo.
   Milhões de meninas enfrentam barreiras que os meninos não precisam enfrentar para estudar. Infelizmente, ainda hoje 66 milhões de garotas permanecem sem acesso à educação. Nós podemos ajudar a quebrar essas barreiras, chamando a atenção mundial para os benefícios da educação de meninas e a sua comunidade pode ser um ótimo lugar para começar.
   Que tal começar divulgando o máximo que puder? Juntos, certamente poderemos construir um mundo melhor.
        Esse post é uma singela homenagem a Malala Yousafzai, a paquistanesa que desafiou os talibãs e foi baleada na cabeça aos 15 anos por defender a educação feminina. Recentemente premiada com o respeitado Prêmio Sakharov para a Liberdade de Pensamento, do Parlamento europeu, é uma das mais cotadas para ser laureada com o Nobel da Paz. Estou torcendo por você!!!
               Para mais detalhes sobre o filme, acesse: girlrising.com

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

AS VÁRIAS VERSÕES DOS CONTOS DE FADAS

             Você sabia que nem sempre os contos de fadas foram recheados de magia e encantamento? Isso mesmo. Nas versões originais, muitos deles pareciam mais histórias de terror, dignas de pesadelos. João e Maria, por exemplo, além de serem abandonados pelos pais por falta de condições para criá-los, passaram fome e tiveram os olhos devorados pelos animais da floresta. Em, A Bela Adormecida, a linda e vulnerável princesa foi estuprada pelo príncipe e gerou o filho enquanto dormia. Já a doce Chapeuzinho Vermelho, depois de comer a carne da própria avó, foi abusada e devorada pelo lobo, sem nenhum caçador para salvá-la. E a Branca de Neve, tão linda, depois de ser feita de empregada pelos anões, resolveu se vingar da madrasta obrigando-a a vestir sapatos de ferro quente e dançar até a morte.
            Tudo bem que havia uma boa intenção por trás dessas histórias macabras, já que a finalidade dos contos, em geral contados de pais para filhos, era justamente fazer com que os pequenos camponeses tomassem cuidado e ficassem alerta, por isso costumavam abordar temas nada nobres como morte, fome, abandono, vingança, tortura, abuso sexual e tantas outras preocupações da vida cotidiana. Mas cá entre nós, isso estava mais para terapia de choque. Credo! Dá até para imaginar aquelas pobres crianças, semanas sem dormir.
            Ainda bem, na Idade Média, quando a sociedade  iniciou a distinção entre crianças e adultos, isso mudou e os contos de fadas tiveram seus enredos abrandados, muitos adquirindo as versões que conhecemos até hoje, bem mais simpáticas.
            O primeiro a estabelecer bases para esse novo gênero literário de cunho popular, contos de fadas, foi o francês Charles Perrault, que deu vida à Chapeuzinho Vermelho, Bela Adormecida, Cinderela, Pequeno Polegar e o Gato de Botas, dentre outros. Inclusive, foi graças a ele, por conta de um erro de tradução, que nossa Cinderela – que usava sapatos de pele (vair) - passou a usar sapatos de cristal (verre).
            No século seguinte, os famosos irmãos Grimm e o dinamarquês Hans Christian Andersen deram seguimento nessa linha literária e a incrementaram os contos, criando as famosas “morais de história”. E de lá para cá, muita água rolou e muitas versões surgiram, proporcionalmente às mudanças sociais e culturais de cada época.
            Recentemente muitas releituras dos contos de fadas, altamente tecnológicas e cheias de efeitos especiais, foram  lançadas nos cinemas, e para quem ainda não viu, vale a pena conferir.
             Dessa vez, João e Maria depois de serem abandonados pelos pais na sombria floresta e ficarem sob os cuidados da malvada bruxa da casa de doces, crescem, matam a bruxa e se tornam exterminadores de criaturas do mal, com um detalhe, João, como tantos hoje em dia, de tanto comer doces acabou diabético e tem que tomar insulina, com uma injeção da idade das pedras que é de arrepiar os cabelos!!
 Em Branca de Neve e o Caçador, o rei literalmente morre de amores por Ravenna -  a ma-ra-vi-lho-sa bruxa - e deixa para ela todo o reino. Branca de Neve é jogada em uma masmorra, onde fica até se tornar uma bela jovem, enquanto a rainha, obcecada pela beleza, e mais ainda pela juventude, precisa do coração das jovens do reino para se manter sempre jovem. Branca de Neve consegue fugir sem que seu coração seja arrancado, mas a malvada não desiste e, além de contar com a ajuda do seu irmão – com quem mantém um relacionamento bem estranho – contrata Eri, o exímio caçador, para trazer sua presa de volta. O caçador, que no final da história é o príncipe, resolve ajudar a jovem  Branca de Neve em sua cruzada contra o reinado da malévola, e esta morre de velha e bem feia.
            João e o Pé de Feijão, na versão moderna passou a se chamar Jack e o Caçador de Gigantes.
            E já se tem notícia de que uma nova versão da história da Bela Adormecida está saíndo do forno, com estréia prevista para março de 2014, contada do ponto de vista da vilã, Malévola, interpretada por Angelina Jolie.

             Agora, sobre os tais “finais felizes”, a fotografa canadense Dina Goldstein fez um set de fotos bem interessante denominado “Fallen Princess”, que mostra o que aconteceu com as princesas, na vida como ela é, depois do “felizes para sempre”. E de quebra, aproveitou para tratar de assuntos da atualidade que estão a merecer atenção como poluição, câncer, guerra, abandono e até obesidade.
  
Se quiser ver todas as fotos, é só acessar: http//dinagoldstein.com/

            E pensando bem, que bom que a vida real é diferente dos contos de fadas. Tudo bem que os contos são lindos e terminam sempre com um final feliz, mas todos, impreterivelmente, terminam ao final de no máximo dez páginas, enquanto nossas vidas não.
            Ainda bem, nós somos coleções de muitos volumes, o que nos permite,  mesmo depois de um episódio horrível e desastroso, ter a possibilidade de ter outro, depois outro e mais outro episódio à nossa espera, o que é simplesmente maravilhoso, porque sempre teremos a chance de acertar e fazer da nossa vida o que queremos que ela seja.
            Por isso, não tenha inveja das princesas e nem perca seu tempo almejando os contos de fadas. Lembre-se que a vida é bela, que o fracasso é um mestre mais eficaz do que o sucesso e siga sempre em frente, em busca do SEU FINAL FELIZ.
            Agora para terminar, deixo aqui registrada a versão atualíssima   do conto  “A Princesa e o sapo”, que eu adoro contar para os meus filhos para me lembrar que os tempos mudaram. E eu preciso me lembrar, porque vou ser sogra de duas, vocês sabem o que é isso?!  Então ai vai, por Luis Fernando Veríssimo:
“Era uma vez...numa terra muito distante...uma princesa linda, independente e cheia de auto-estima.
Ela se deparou com uma rã enquanto contemplava a natureza e pensava em como o maravilhoso lago do seu castelo era relaxante e ecológico...Então, a rã pulou para o eu colo e disse: - Linda princesa, eu já fui um príncipe muito bonito, Uma bruxa má lançou-me um encanto e transformou-se nesta rã asquerosa. Um beijo teu, no entanto, já de me transformar de novo num belo príncipe e poderemos casar e constituir um lar feliz no teu lindo castelo, A tua mãe poderia vir morar conosco e tu poderias prepara o meu jantar, lavar as minhas roupas, crias os nossos filhos e seríamos felizes para sempre...
Naquela noite, enquanto saboreava pernas de rã sautée, acompanhadas de um cremoso molho acebolado e de um finíssimovinho branco, a princesa sorria pensando consigo mesma:
-Eu hein?...nem morta!”
                                                           FIM