sábado, 18 de fevereiro de 2017

ARROZ DE PALMA: Um dos livros mais doces que já li


                                       ESCRITO POR  ANNATROTTAYARYD    
 
                        Arroz de Palma é um livro de receitas de como conviver em família, que nos traz as delícias e maravilhas sobre laços de família, pessoas e muitas vidas.  Ele faz rir, chorar e ir longe com a imaginação, mas acima de tudo, é um livro real, palpável, que retrata a família exatamente como tem que ser: possível, humana e cheia de contradições.       
                              Ele narra a saga de uma família em busca de um futuro melhor, que no curso da vida vai superando diversas dificuldades. Nos cem anos em que acompanhamos suas vidas, irmãos brigam e fazem as pazes. Uns casam e são felizes, outros se separam. Os filhos ora preocupam, ora dão satisfação. Tudo, sempre acompanhado pelo arroz jogado no casamento dos patriarcas José Custódio e Maria Romana, em 1908, grão que serve de fio condutor desta história, como migalhas de pão jogadas no labirinto da memória.
                              Não importa se sua família é numerosa como a do livro ou não, se você tem 80 ou 20 anos, é impossível não se identificar com ele. 
                               O autor, Francisco José Alonso Vellozo Azevedo, é dramaturgo, roteirista cinematográfico, poeta e ex-diplomata, além de um exímio mestre em brincar com os múltiplos sentidos de cada vocábulo e a forma metafórica de se enxergar a rotina. Por isso, o livro é cheio de construções cativantes, poéticas e metáforas criativas, que nos instigam a refletir sobre extremos e relacionamentos.
                              Como nos ensina o autor, através de um de seus personagens, Família boa é à “Moda da Casa”, e “quando acaba, nunca mais se repete”, para nos mostrar, no curso da história, com imensa delicadeza e sensibilidade o quão importante é voltarmos às nossas raízes - não aquelas que encontramos ao olhar para trás, mas aquelas que só achamos quando olhamos dentro e bem lá no fundo...
                              Com toda a certeza, Arroz de Palma é um daqueles livros para pegar com respeito, saborear com calma, ler com a alma e guardar com carinho.
                              E se você ainda não está convencido do que estou falando, transcrevo abaixo um trecho do próprio livro, que já circula livremente pela internet, para não restar qualquer dúvida. Fica a dica. 
                                                 “ARROZ DE PALMA”
                                               FRANCISCO AZEVEDO

“Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes. Reunir todos é um problema, principalmente no Natal e no Ano Novo. Pouco importa a qualidade da panela, fazer uma família exige coragem, devoção e paciência. Não é para qualquer um. Os truques, os segredos, o imprevisível. Às vezes, dá até vontade de desistir. Preferimos o desconforto do estômago vazio. Vêm a preguiça, a conhecida falta de imaginação sobre o que se vai comer e aquele fastio. Mas a vida, (azeitona verde no palito) sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite. O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares. Súbito, feito milagre, a família está servida. Fulana sai a mais inteligente de todas. Beltrano veio no ponto, é o mais brincalhão e comunicativo, unanimidade. Sicrano, quem diria? Solou, endureceu, murchou antes do tempo. Este é o mais gordo, generoso, farto, abundante. Aquele o surpreendeu e foi morar longe. Ela, a mais apaixonada. A outra, a mais consistente. E você? É, você mesmo, que me lê os pensamentos e veio aqui me fazer companhia. Como saiu no álbum de retratos? O mais prático e objetivo? A mais sentimental? A mais prestativa? O que nunca quis nada com o trabalho? Seja quem for, não fique aí reclamando do gênero e do grau comparativo. Reúna essas tantas afinidades e antipatias que fazem parte da sua vida. Não há pressa. Eu espero. Já estão aí? Todas? Ótimo. Agora, ponha o avental, pegue a tábua, a faca mais afiada e tome alguns cuidados. Logo, logo, você também estará cheirando a alho e cebola. Não se envergonhe de chorar. Família é prato que emociona. E a gente chora mesmo. De alegria, de raiva ou de tristeza.

Primeiro cuidado: temperos exóticos alteram o sabor do parentesco. Mas, se misturadas com delicadeza, estas especiarias, que quase sempre vêm da África e do Oriente e nos parecem estranhas ao paladar, tornam a família muito mais colorida, interessante e saborosa.

Atenção também com os pesos e as medidas. Uma pitada a mais disso ou daquilo e, pronto, é um verdadeiro desastre. Família é prato extremamente sensível. Tudo tem de ser muito bem pesado, muito bem medido. Outra coisa: é preciso ter boa mão, ser profissional. Principalmente na hora que se decide meter a colher. Saber meter a colher é verdadeira arte. Uma grande amiga minha desandou a receita de toda a família, só porque meteu a colher na hora errada.

O pior é que ainda tem gente que acredita na receita da família perfeita. Bobagem. Tudo ilusão. Não existe Família à Oswaldo Aranha; Família à Rossini; Família à Belle Meunière; Família ao Molho Pardo, em que o sangue é fundamental para o preparo da iguaria. Família é afinidade, é “à Moda da Casa”. E cada casa gosta de preparar a família a seu jeito. Há famílias doces. Outras, meio amargas. Outras apimentadíssimas. Há também as que não têm gosto de nada, seriam assim um tipo de Família Dieta, que você suporta só para manter a linha. Seja como for, família é prato que deve ser servido sempre quente, quentíssimo. Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir.

Enfim, receita de família não se copia, se inventa. A gente vai aprendendo aos poucos, improvisando e transmitindo o que sabe no dia a dia. A gente cata um registro ali, de alguém que sabe e conta, e outro aqui, que ficou no pedaço de papel. Muita coisa se perde na lembrança. Principalmente na cabeça de um velho já meio caduco como eu. O que este veterano cozinheiro pode dizer é que, por mais sem graça, por pior que seja o paladar, família é prato que você tem que experimentar e comer. Se puder saborear, saboreie. Não ligue para etiquetas. Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana, na louça, no alumínio ou no barro. Aproveite ao máximo. Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete.”

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

DE MULHER PRA MULHER


ESCRITO POR ANNATROTTAYARYD
 
            Na pré-história, onde os povos nômades se alimentavam com o que viam pela frente, penso que tudo era mais tranquilo para as mulheres, que se mantinham a léguas de distância do fogão e não tinham lá grande preocupação. Viviam todos em comunidades, dividindo as tarefas, e como imperava certa promiscuidade nas relações, ninguém se interessava muito em saber quem era o pai de quem.
            Mas, com a fixação na terra, o início do desenvolvimento da agricultura e a divisão social do trabalho, o destino da mulher começou a tomar novos rumos. Os filhos se transforaram em força de trabalho, e saber quem era o pai de quem passou a ter grande importância, afinal, quanto mais filhos, mais força de trabalho e mais poder. Como decorrência, as mulheres, como grandes geradoras de filhos, passaram a ser aprisionadas em casa e tudo o que existe dentro. No papel de mãe-esposa-rainha do lar, cabe então a elas passar a vida inteira grávida ou amamentado, completamente à margem do conhecimento das novas habilidades técnicas e do aprendizado, ao que as doutrinas religiosas monoteístas da época dão a maior força, enfatizando o conceito de que a mulher é o sexo frágil e sinônimo único de mãe/procriadora.  
            Foi nos anos 60 que a coisa toda começou a mudar. Com a expansão do ensino universitário – o que permite às mulheres pensarem a vida profissional de uma forma mais ampla e diferente das mulheres até então, onde as poucas que trabalhavam, tinham profissões que eram quase extensão do seu papel na família, de educadoras/professoras ou cuidadoras/enfermeiras - a mulher se apropria da força de trabalho, ganhando mais do que autonomia financeira, autonomia existencial. E, com a chegada da pílula anticoncepcional, que finalmente possibilita o controle da natalidade, as mudanças se intensificam.
            Desde então, muitas coisas mudaram, mas os homens ainda continuam no comando, controlando o poder político e econômico, a cultura e os costumes, e fazendo e aplicando as leis como bem entendem, e, quando as pressões sociais e a legislação não são suficientes para dobrar as mulheres mais rebeldes, a religião intervém com força total e o seu inegável selo patriarcal.
            Como se não bastasse, lamentavelmente a quase totalidade das mães ainda se incumbe, pessoalmente, de perpetuar e reforçar o sistema, criando filhos arrogantes e filhas submissas.  
            Se nós mulheres entrássemos num acordo para agir de outro modo, com toda a certeza liquidaríamos com o machismo no espaço de uma geração! Afinal, desde sempre a pobreza obrigou os homens a percorrer grandes faixas territoriais, em busca de sustento, num movimento constante de chegar e partir, enquanto as mulheres permanecem, são árvores enraizadas no chão.  Filhos e outros parentes giram em torno delas, que na grande maioria cuidam dos velhos, dos doentes e dos desamparados.
            Mas não. Em todas as classes sociais, exceto nas privilegiadas, é claro, continuamos considerando a abnegação e o trabalho as  maiores virtudes femininas; e o espírito de sacrifício, nosso ponto de honra -  quanto mais sofremos pela família, mais orgulhosas nos sentimos. Além disso, habituadas desde cedo a considerar o companheiro um filho meio bobalhão, continuamos perdoando defeitos graves, da bebedeira à violência doméstica, simplesmente porque ele é homem, e não conseguimos nos unir.
            Tive meu primeiro vislumbre da desvantagem do meu sexo quando ainda era uma pirralha de uns nove anos de idade. Era um dia de sol e calor, e minha mãe me ensinava a fazer tricô, enquanto meu irmão corria de um lado para o outro empinando pipa e chutando bola. Os dedos desajeitados tentavam dar as laçadas enquanto a linha corria das agulhas e a meada de lã se emaranhava, e eu, suando nesse esforço extremo de concentração, quando a essa altura dos acontecimentos, minha mãe me diz: sente-se com as pernas fechadas, feito uma mocinha, filha!
            Joguei o tricô longe e, a partir desse momento, resolvi que ia ser homem. Mantive-me firme nesse propósito, mas foi por pouco tempo. Não demorou muito, meus hormônios me traíram e o meu corpo começou a mudar inexoravelmente, me fazendo enterrar de vez a ideia. Seriam precisos muitos mais anos para aceitar minha condição e compreender que, com o dobro do esforço e a metade do reconhecimento, conquistaria o mesmo que alguns homens por vezes conseguem.
            Hoje não trocaria meu lugar por nenhum deles, e não vejo razão alguma para cobiçar esse pequeno e caprichoso apêndice masculino, mesmo porque, seu eu tivesse um, nem sei o que faria com ele.       
            Como todas as mulheres nascidas desde os anos 60, hoje faço parte da geração das supermulheres.
 
            Aquelas super filhas, super mães, superesposas, super donas-de-casa, super bonitas, super dispostas, super determinadas, ‘worholics’, executivas ISO 9000, que estão sempre tentando provar o tempo todo não-sei-quê, para não-sei-quem. Que entendem que nada é mais chique, charmoso e inteligente do que uma mulher independente, dona do seu próprio nariz, porque sabem muito bem que sem independência econômica não existe liberdade, mas para as quais, infelizmente, o feminismo não chegou nem a tempo, nem ao ponto, de ensinar a dividir as tarefas domésticas.
            Na verdade, isso nem nos passou pela cabeça. Achamos que a liberação consistia apenas em enfrentar a vida e assumir os deveres masculinos, sem cogitar que deveríamos também delegar parte do nosso fardo. E o pior é que seguimos achando isso.
            O resultado? Muito cansaço. O que faz com que milhares de mulheres, continuem questionando os movimentos feministas.
            Por isso, salve-se a tempo da praga centralizadora, que suga a sensualidade e seca a feminilidade, tomar conta de você e comece a delegar parte da sua listinha de afazeres antes que reste da supermulher apenas aquela mísera capinha vermelha. Ou pior, apenas uma superenxaqueca, pós a saída para tentar salvar o mundo de todas as suas terríveis imperfeições. Agenda apertada é menopausa antecipada!         
            Isso mesmo. Se você quiser viver uma vida possível e interessante, terá que aprender a delegar. É claro que o super homem não vai escolher os limões sicilianos como você, muito menos vai lavar atrás das orelhas quando der banho nas crianças, mas e daí? Centralizar é um erro!!
            Se quisermos continuar seguindo em frente, precisamos trazer de volta os nossos limites e saber dizer não, sem culpa, caso contrário, corremos o risco de continuarmos escravas do mesmo jeito daquelas mulheres de antigamente que, trancafiadas em casa, olhavam a vida pela janela.
            Assim, nada de querer sempre uma agenda lotada, muito menos de atender a todos o tempo todo e ficar se preocupando em ser super isso ou super aquilo. Permita-se imperfeita! Faça o possível, mas aceite o improvável, e nada de criar a falsa impressão de ser indispensável. Tudo bem, esse último é bem difícil, eu sei bem disso. Demorei um tempão para aprender que todos sempre sobrevivem sem mim, e confesso, ainda hoje tenho lá minhas recaídas. Mas sou a prova viva de que você consegue.
           Mas acima de tudo, mantenha o relógio funcionando sempre a seu favor, para que possa encontrar tempo para fazer nada e tudo, exatamente tudo aquilo que lhe faz bem, lhe traz paz e principalmente, que permita a você continuar existindo, como você mesma.
          Lembre-se: você é humildemente uma mulher. 

 

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

VOCÊ TEM MEDO DE QUÊ?

                                    escrito por ANNATROTTAYARD

                                       Quando somos criança, costumamos pensar que ser corajoso é não ter medo. Grande bobagem!!!
                                 O medo é inerente ao homem e também aos animais irracionais. Assim, todo mundo nessa vida tem medo, inclusive os corajosos. E por diversas razões. É uma pena que não nos expliquem isso antes.
                                   Segundo a Wikipédia “o medo é uma sensação que proporciona um estado de alerta demonstrado pelo receio de fazer alguma coisa, geralmente por se sentir ameaçado, tanto física como psicologicamente.
                                   É também uma reação obtida a partir do contato com algum estímulo físico ou mental (interpretação, imaginação, crença) que gera uma resposta de alerta no organismo. Esta reação inicial dispara uma resposta fisiológica no organismo que libera hormônios do estresse (adrenalina, cortisol) preparando o indivíduo para lutar ou fugir.
                                   O medo começa na ansiedade e termina no pavor. E pode se transformar em doença, quando vira uma fobia.”
                                   Conheço muita gente que teme fantasmas, almas do outro mundo, saci pererê, assombração, satanás, alma penada e tantos outros fenômenos sobrenaturais. Confesso, já tive medo disso também, um dia.
                                   Hoje, porém, tenho medo mesmo é de gente viva. Tenho medo da falta de humanidade. Das instabilidades das gentes. Da falta de diálogo, do extremismo e da intolerância. Tenho medo de quem promove o medo como forma de correção ou coação. E dos políticos que votam por Deus e exclusivamente por suas famílias, sem se preocupar com o interesse público e o bem-estar de todos.
                                   Também tenho medo que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo me impeça de tentar. Tenho medo de errar.
                                   Até a natureza, tão venerada por ecologistas e ambientalistas me dá medo. Principalmente quando me lembro do Katrina, do tsunami na Indonésia, dos terremotos do Chile e do Japão. Que medo!!!
                                    Também tenho medo do futuro, onde a água não exista mais. Do futuro em que a gente desembale mais do que descasque coisas para comer. E do futuro para jovens meninas, por não ver o futuro prosperar em defesa delas na velocidade necessária.
                                   Tenho medo das incertezas do caminho. Da minha bondade se esvair na ingratidão e no egoísmo alheio. De não saber mais discernir o certo do errado neste mundo de valores cada vez mais confusos.
                                   Tenho muito medo da insegurança das ruas, do desconhecido, do imprevisto, do imprevisível e da morte, então... nem se fale!!!
                                   E tenho mais um montão de medos, que demoraria dias para relacionar aqui. Ou seja, medo é o que não me falta.
                                   Mas, sinceramente?! Mesmo com tantos medos, não me sinto uma covarde. Acho que porque, hoje, sei que toda coragem precisa do medo para existir e talvez também tenha aprendido, de alguma forma, que o medo tem validade objetiva. Se com medo tornarmo-nos covardes, sem medo tornarmo-nos temerários. Por isso, podemos sim usar os nossos medos de forma benéfica e a nosso favor. E se fizermos isso, ele não será um defeito, muito menos algo negativo.
                                   Quando alguém sente medo é porque há, ou pode haver, alguma ameaça. Assim, sentir medo é não só aceitável, mas algo razoável e desejável. Em certa medida, o medo pode até proteger. O problema está apenas quando ele ultrapassa a medida do aceitável e se transforma em medo exagerado, que nos paralisa. Esse sim não é nada bom, porque paralisados, anulamos completamente nossa capacidade de viver e conviver. E a vida é puro movimento.
                                   Pesquisando sobre o medo, percebi que durante a história, poucas vezes os filósofos se ocuparam dele. Thomas Hobbes, filósofo do século XVII, e que tornou famosa a frase “o homem é o lobo do homem”, foi um dos poucos a pensar o medo como um sentimento manipulável que estaria na base da fundação do estado social.
                                   Hobbes viveu em tempos conturbados para a coroa de seu país, e suas ideias tinham muito a ver com a clima de incertezas que marcou aquela época, onde o movimento liberal, que defendia a redução do poder da realeza, vinha ganhando cada vez mais força.
                                   Contrariando outros filósofos políticos e o anseio revolucionário da época, ele acreditava que o homem não possui uma disposição natural para a vida em sociedade, na verdade, possui sim, uma natureza regida pelo egoísmo e pela autopreservação.
                                   Esse instinto abriria caminho para a violência contra o próximo, ao mesmo tempo em que nos obrigaria a buscar uma “paz” comum que nos desse segurança, representada pelo contrato social. Ou seja, a autoridade política teria a função específica de proteger os homens uns dos outros. Sem medo não haveria governabilidade, mas o governo deveria justamente tornar a vida das pessoas livre do medo.
                                   Essa teoria de Hobbes explicaria a função do governo e, por outro lado, a obediência dos homens às leis que viriam regular as relações humanas, sempre perturbadas pelo medo que os homens têm dos próprios homens.  
                                  Mas também pude constatar que, na verdade, somos convocados a sentir medo o tempo todo.
                                  Bancos e empresas de seguro, por exemplo, usam esse argumento abertamente. Políticos espalham temores para arrebanhar votos, jornalistas faturam em cima de catástrofes, biólogos citam vírus letais quando querem obter fundos para desenvolver vacinas, e por aí vai.
                                   Até a moda e o grande e glorioso marketing se utilizam dele, só que usam mensagens mais sutis. Como nos explica o publicitário dinamarquês Martin Lindstrom, ela “joga com o medo de não pertencermos ao grupo”. "O desodorante traz outro medo, de que você não vai conseguir namorada com seu cheiro. A mesma lógica vale para xampus, branqueadores de dente e academias de ginástica. Afinal, malhamos para estar saudáveis, ou por medo de ficar flácidos?", questiona Lindstrom.
                                   Na verdade, boa parte da propaganda explora o medo da rejeição social. E esse medo nunca foi tão forte.
                                     E é interessante, que todo mundo propaga o medo. Não necessariamente por maldade ou interesse próprio. "Se eu disser que há uma doença mortal se espalhando na sala onde você está, você sairá dela mesmo sem saber se é verdade. E vai avisar as outras pessoas", diz Lindstrom.         
                                   Com tudo isso, não é de se estranhar que o medo tenha se tornado o maior problema psicológico do nosso tempo, virando parte do dia a dia de todo mundo.
                                   Segundo dados do Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA, 20,8% das pessoas têm transtorno de ansiedade, ou seja, passam o tempo inteiro com medo de alguma coisa (pois a ansiedade nada mais é do que medo antecipado, de algo que pode ou não ocorrer).        
                                    Mas, será que ter medo é tão ruim? Afinal, se olharmos sob outro ângulo, é ele que, de uma maneira ou de outra, nos move todos os dias para alguma direção.
                                    A questão é que, em uma sociedade que perde o sentido dos sentimentos diariamente, o medo se torna mais um destes nomes para uma diversidade de sensações inespecíficas, e não há uniforme especial, máscaras ou abrigos plásticos que possam nos proteger dele. Só nós mesmos podemos nos proteger dos nossos próprios medos.                            
                                   O medo, assim como a dor, tem um objetivo. É um chamado para mudar de atitude, comportamento ou pensamento, para acordarmos e nos conhecermos melhor. Ele pode nos ajudar a entender mais sobre nossas deficiências e nos forçar a encarar a realidade, o que, na verdade, é um grande presente. E admiti-lo, certamente, é o primeiro passo.
                                   Como nos resume Aaron T. Beck, psiquiatra norte-americano e professor emérito do departamento de psiquiatria na Universidade da Pensilvânia, conhecido como pai da Terapia Cognitiva, no livro The Anxiety and Worry Workbook ("O Manual da Ansiedade e da Preocupação", inédito no Brasil), "A forma como pensamos influencia a maneira como sentimos. Portanto, mudar o modo como pensamos pode mudar como nos sentimos", pode parecer banal, mas funciona e tem efeitos neurologicamente comprovados.
                                   Por exemplo: se você vai a uma entrevista de emprego e fica pensando que podem te fazer perguntas que você não sabe responder, ficará ansioso e com medo. Entretanto, se pensar que está muito bem preparado, isso certamente lhe trará tranquilidade e segurança. 
                                   Para Izabel Telles, terapeuta holística e sensitiva formada pelo American Institute for Mental Imagery de Nova Iorque, “não dá para interromper os estímulos e os acontecimentos que o mundo gera, mas podemos aprender a controlar a nossa fábrica de imagens, revertendo os hologramas aterradores, assustadores e monstruosos que a mente pode vir a criar. A neurologista Katherina Hauner, por sua vez, acredita que a exposição gradual da pessoa ao objeto ameaçador ajuda a superá-lo.
                                    O admirável Franklin D. Roosevelt, no seu discurso de posse, em 1933, declarou acreditar firmemente que ""a única coisa que temos a temer é o próprio medo".
                                   E de fato: nunca sentimos tanto medo e nunca tivemos tanto medo dele, e talvez seja mesmo essa a chave do problema e também sua grande solução. Perder o medo do medo.
                                   Há pouco tempo, soube que uma grande e querida amiga está com metastase e terá que enfrentar um tratamento bastante difícil para lutar pela vida, e  fiquei com muito medo. Por ela e por mim. Ser confrontada com a incerteza do futuro é assustador!!!
                                   Então, passeando pelos jardins da minha memória, me lembrei da minha mãe, que na minha opinião, foi a pessoa mais corajosa que conheci, e também do dia em que disse isso a ela, e ela me respondeu: - Não sou corajosa, filha. Apenas estava num barco que naufragou, e tive que sair nadando. Foi nesse dia em que aprendi o verdadeiro significado de coragem.
                                   Por tudo isso, esse post é uma singela homenagem à minha mãe e à todos os grandes nadadores da vida que conheci, que naufragaram e continuaram nadando, nadando e nadando...até o fim.
                                   À minha amiga, desejo com todas as minhas forças e meu coração, que ela continue sendo esse Michael Pelphes que ela é, e que ainda ganhe muitas e muitas outras medalhas, na sua vida afora. Até o fim.

 

 





 

terça-feira, 12 de abril de 2016

O PÓ QUE NOS UNE

                       
                            Todos nós sabemos, somos mortais. Seja por ordens da natureza, por acidente, por vontade própria ou alheia, um dia morreremos. Entretanto, muito embora essa seja a nossa única certeza, não gostamos de lembrar dela. Eu também não gosto. Longe de mim ser uma pessoa mórbida. Amo a vida. Entretanto, gostando ou não, a morte faz parte da vida de todos nós.
                            Diz a lenda, que há muito tempo, no Tibete, uma mulher viu seu filho, ainda bebê, adoecer e morrer em seus braços, sem que ela nada pudesse fazer. Desesperada, saiu pelas ruas implorando que alguém a ajudasse a encontrar um remédio que pudesse curar a morte do filho. Como ninguém podia ajudá-la, a mulher procurou um mestre budista, colocou o corpo da criança a seus pés e falou sobre a profunda tristeza que a estava abatendo. O mestre, então, respondeu que havia, sim, uma solução para a sua dor. Ela deveria voltar à cidade e trazer para ele uma semente de mostarda nascida em uma casa onde nunca tivesse ocorrido uma perda. A mulher partiu, exultante, em busca da semente. Foi de casa em casa, sempre ouvindo as mesmas respostas: - Muita gente já morreu nessa casa; -Desculpe, já houve morte em nossa família. Depois de vencer a cidade inteira sem conseguir a semente de mostarda pedida pelo mestre, a mulher voltou até ele e disse: -“O sofrimento me cegou a ponto de eu imaginar que era a única pessoa que sofria nas mãos da morte”.
                            De fato, a morte não é privilégio nem desgraça particular de ninguém. Senhora do destino, é certeira e certeza. Leva quem tem que levar e àqueles que ficam deixa a ruptura dolorosa e oferece a chance de pensar e repensar sobre a vida. Antes de sumir, lembra que irá voltar sem data marcada, e deixa a certeza que de a vida sempre continua. A vida que começa nos garantindo apenas o fim.    
                            É interessante como a história humana pode ser contada pelo modo como cada sociedade, em diferentes períodos históricos, olhou para a morte e lidou com ela.
                               Até meados do século passado, por exemplo, era costume morrer em casa, cercado por parentes. “A família reunia-se em volta do leito para ouvir a última palavra daquele que estava morrendo”.
                            Aos poucos, porém, o mundo ocidental foi transformando a morte em tabu: um fato a ser ocultado e banido das conversas cotidianas. Os doentes passaram a morrer no hospital, longe dos olhos – e, não raro, do coração – de seus amigos e parentes, com direito a rituais de luto cada vez mais rápidos e pragmáticos. Tudo aquilo que pudesse lembrá-la – a enfermidade, a velhice e a decrepitude – foi sendo escamoteado. O medo natural que todo ser humano sente diante da própria finitude virou pânico. E passamos a viver a morte calada, ignorada e ocultada entre as paredes de um hospital.
                            Entretanto, ao calarmos sobre morte, perdemos uma grande oportunidade de pensarmos sobre a vida e o tempo. E ao não dialogarmos com a dor, aos poucos vamos deixando de reconhece-la como a inimiga admirável que é, capaz de nos tornar um ser humano mais forte.    
                            Ainda bem, no século 21, a morte calada e clandestina que se estabeleceu no século 20 começa a ser colocada em xeque, passando a mostrar ares de “desavergonhada”.
                            Bom mesmo seria se a morte, depois de anunciada, acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza. Mas infelizmente, nem sempre é isso que acontece.
                            O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no nosso corpo, contra a nossa vontade, sem que possamos nada fazer, porque já não somos mais donos de nós mesmos. Então, como agir quando formos “notificados” pela natureza de que o “nosso prazo de validade ” venceu?
                             Um dia, assistia a um documentário da National Geograhic sobre a vida dos lobos, quando uma loba matou um de seus filhotes que estava mortalmente ferido. Para mim, foi como uma dura lição sobre a compaixão e a necessidade de permitir que a morte venha aos que estão morrendo.  

           Por indicação de uma amiga, também assisti ao filme de Barry Levinson, com Al Pacino, feito para a TV HBO e lançado em DVD com o título “Você não conhece JACK – A vida e as mortes por Jack Kevorkian “. Jack é um médico estadunidense de origem armênia, que logo no início de sua carreira ganhou o apelido de “Dr. Morte“. Ele inventou uma máquina – mais parecida com uma geringonça – que possibilitava aos pacientes cometer suicídio apertando um botão que liberava uma série de drogas no organismo, auxiliando as pessoas com sofrimento insuportável e que desejavam morrer, que conseguissem fazê-lo e pudessem morrer condignamente. Sua crença era de que as pessoas tinham o direito de evitar uma morte sofrida e demorada e de terminar suas vidas com a ajuda de um médico que lhes assegurasse uma morte tranquila.
                            Seria eutanásia, suicídio assistido ou morte com dignidade?                      
                             Lá nos EUA, como o direito penal é regido por leis estaduais, a tipificação desse ato era diferente entre os diversos estados da federação, o que gerou enorme polêmica sobre a atividade desse médico. Todavia, em 1993, o Poder Legislativo de Michigan baixou uma lei que tornava crime alguém fornecer conscientemente a outra pessoa os meios para cometer suicídio, e em dezembro de 1994 a Suprema Corte de Michigan declarou que essa lei era constitucional, possibilitando que Jack Kevorkian fosse processado criminalmente. Ele acabou condenado por homicídio, cumpriu pena até 2007 e no ano de 2011 faleceu, aos 83 anos de idade. Mas deixou um legado.
                            Alguns países europeus como a Holanda, Bélgica, Suíça, Luxemburgo e alguns estados dos EUA, a partir dos anos 90 legalizaram essa conduta médica que proporciona morte digna aos pacientes terminais que sofrem demais e desejam apressar sua morte.
                            Para o nosso direito penal, que vale para todo o território nacional, desde sempre, e ainda que seja a pedido do paciente, a conduta do Dr. Jack é tratada como homicídio doloso, mas privilegiado (com redução da pena).
                            E os únicos projetos de lei do Senado existentes aqui no Brasil, na atualidade, cuidam da prática da ortotanásia, que é outra coisa.
                            A ortotanásia consiste em oferecer apenas cuidados paliativos – assistência permanente, meios ordinários e medicamentos possíveis – àqueles pacientes terminais, que se recusam a receber tratamentos médicos extraordinários e tratamentos invasivos que prolonguem sua vida em condições precárias. Por exemplo, sejam ligados a máquinas.
                             Mesmo ainda sem a existência de lei, esse procedimento foi regulamentado pelo CFM – Conselho Federal de Medicina – em novembro de 2006, e só pode ser realizado quando não é mais possível a cura do paciente, desde que mediante autorização do próprio paciente ou de sua família, no caso de incapacidade do primeiro. A morte do papa João Paulo II é um dos exemplos mais conhecidos de ortotanásia. E no Brasil, Mário Covas também optou por isso.
                            Em 2012, também o Conselho Federal de Medicina baixou a polêmica Resolução n 1995, que instituiu as Diretivas Antecipadas de Vontade, também conhecida como Testamento Vital, que autoriza que os pacientes decidam, prévia e expressamente, a quais cuidados e tratamentos querem ser submetidos no final de suas vidas, quando estiverem incapacitados de expressar livre e autonomamente suas vontades.
                            Entretanto, ainda continuamos indiferentes, impedindo qualquer auxílio médico que venha proporcionar morte digna aos que sofrem dores lancinantes ou humilhações e desejam morrer. E seguimos vivendo a nossa própria vida, sem o  direito de morrermos a nossa própria morte. 
                            Obviamente, esse assunto envolve questões dificílimas, relativas a afetos, respeito à dignidade das pessoas e crenças religiosas. Mesmo assim, é preciso encará-lo de frente e com coragem.
                            Não dá mais para vivermos a morte “envergonhada” ou “clandestina” que se estabeleceu no século 20, solitária, onde ninguém tem coragem ou palavras para falar sobre a morte, nem o próprio doente. Onde as pessoas continuam perguntando o que mais os médicos podem fazer por ela, na esperança de vencerem a doença, mas sem tempo para se despedirem de ninguém e sem permitir que se despeçam dela. E as famílias, desesperadas, só pensam em fazer tudo e de tudo para estender a vida a qualquer custo, como se todos – médicos, familiares e doente - tivessem o dever de fazer todo o possível para que a vida continue, sem dar ouvidos ao pedido que a vida está fazendo e sem nem mesmo escutar aquele que vive o seu morrer.
                            Quando se espera que a ciência prolongue a vida a qualquer preço e a juventude torna-se um valor em si, só resta à morte se tornar um fracasso a ser escamoteado. Entretanto, ao não reconhecermos nossa finitude, nos desumanizamos. Não somos mercadorias e não podemos aceitar ser no final da vida.
                             Por isso, mesmo com toda a dor, os sentimentos ambíguos, conflitos e contradições que a povoam, precisamos sim, falar sobre a morte. Principalmente, precisamos discutir a morte publicamente. Está mais do que na hora de nos reconciliarmos com ela.
                            E cá entre nós: reconhecer a nossa finitude e lembrar do pó que nos une, sempre nos leva a  reordenar nossos valores, o que nos faz  pessoas melhores.
                            Como um sopro de inspiração e para reflexão, deixo aqui registrada a carta de despedida, escrita pelo neurologista e escritor Oliver Sacks, ao descobrir, após uma biópsia, que possuía uma metástase grave no seu fígado.
                            Com o título de “Minha própria vida”, Oliver Sacks - um dos pensadores mais interessantes do nosso tempo- faz uma linda declaração de amor à vida e nos conta sobre o seu morrer. E,  com extrema delicadeza, nos lembrar que a largura da vida é muito mais importante que o seu comprimento.
"Há um mês, eu sentia que estava em boas condições de saúde, robusto até. Aos 81 anos, ainda nado uma milha por dia. Mas a minha sorte acabou – há algumas semanas, descobri que tenho diversas metástases no fígado. Nove anos atrás, encontraram um tumor raro no meu olho, um melanoma ocular. Apesar da radiação e os lasers que removeram o tumor terem me deixado cego deste olho, apenas em casos raríssimos esse tipo de câncer entra em metástase. Faço parte dos 2% azarados.
Sinto-me grato por ter recebido nove anos de boa saúde e produtividade desde o diagnóstico original, mas agora estou cara a cara com a morte. O câncer ocupa um terço do meu fígado e, apesar de ser possível desacelerar seu avanço, esse tipo específico não pode ser destruído.
Depende de mim agora escolher como levar os meses que me restam. Tenho de viver da maneira mais rica, profunda e produtiva que conseguir. Nisso, sou encorajado pelas palavras de um dos meus filósofos favoritos, David Hume, que, ao saber que estava terminalmente doente aos 65 anos, escreveu uma curta autobiografia em um único dia de abril de 1776. Ele chamou-a de “Minha Própria Vida”.
“Estou agora com uma rápida deterioração. Sofro muito pouca dor com a minha doença; e, o que é mais estranho, nunca sofri um abatimento de ânimo. Possuo o mesmo ardor para o estudo, e a mesma alegre companhia de sempre.”
Tive sorte de passar dos oitenta anos. E os 15 anos que me foram dados além da idade de Hume foram igualmente ricos em trabalho e amor. Nesse tempo, publiquei cinco livros e completei uma autobiografia (um pouco mais longa do que as poucas páginas de Hume) que será publicada nesta primavera; tenho diversos outros livros quase terminados.
Hume continua: “Eu sou… um homem de disposição moderada, de temperamento controlado, de um humor alegre, social e aberto, afeito a relacionamentos, mas muito pouco propenso a inimizades, e de grande moderação em todas as minhas paixões.”
Aqui eu me distancio de Hume. Apesar de desfrutar de relações amorosas e amizades e não ter verdadeiros inimigos, eu não posso dizer (e ninguém que me conhece diria) que sou um homem de disposições moderadas. Pelo contrário, sou um homem de disposições veementes, com entusiasmos violentos e extrema imoderação em minhas paixões.
E ainda assim, uma linha do ensaio de Hume me toca como especialmente verdadeira: “É difícil”, ele escreveu, “estar mais separado da vida do que eu estou no presente.”
Nos últimos dias, consegui ver a minha vida como a partir de uma grande altitude, como um tipo de paisagem, e com uma sensação cada vez mais profunda de conexão entre todas as suas partes. Isso não quer dizer que terminei de viver.
Pelo contrário, eu me sinto intensamente vivo, e quero e espero, nesse tempo que me resta, aprofundar minhas amizades, dizer adeus àqueles que amo, escrever mais, viajar se eu tiver a força, e alcançar novos níveis de entendimento e discernimento.
Isso vai envolver audácia, clareza e, dizendo sinceramente: tentar passar as coisas a limpo com o mundo. Mas vai haver tempo, também, para um pouco de diversão (e até um pouco de tolice).
Sinto um repentino foco e perspectiva nova. Não há tempo para nada que não seja essencial. Preciso focar em mim mesmo, no meu trabalho e nos meus amigos. Não devo mais assistir ao telejornal toda noite. Não posso mais prestar atenção à política ou discussões sobre o aquecimento global.
Isso não é indiferença, mas desprendimento – eu ainda me importo profundamente com o Oriente Médio, com o aquecimento global, com a crescente desigualdade social, mas isso não é mais assunto meu; pertence ao futuro. Alegro-me quando encontro jovens talentosos – até mesmo aquele que me fez a biópsia e chegou ao diagnóstico de minha metástase. Sinto que o futuro está em boas mãos.
Nos últimos dez anos mais ou menos, tenho ficado cada vez mais consciente das mortes dos meus contemporâneos. Minha geração está de saída, e sinto cada morte como uma ruptura, como se dilacerasse um pedaço de mim mesmo. Não vai haver ninguém igual a nós quando partirmos, assim como não há ninguém igual a nenhuma outra pessoa. Quando as pessoas morrem, não podem ser substituídas. Elas deixam buracos que não podem ser preenchidos, porque é o destino – o destino genético e neural – de cada ser humano ser um indivíduo único, achar seu próprio caminho, viver sua própria vida, morrer sua própria morte.
Não posso fingir que não estou com medo. Mas meu sentimento predominante é de gratidão. Amei e fui amado; recebi muito e dei algo em troca; li, viajei, pensei e escrevi. Tive uma relação com o mundo, a relação especial de escritores e leitores.
Acima de tudo, fui um ser senciente, um animal pensante nesse planeta maravilhoso e isso, por si só, tem sido um enorme privilégio e aventura.”