quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Projeto TUTU: um lindo exemplo de como a vida sempre pode ser mais leve


     Navegando pela internet, já me deparei com diversas histórias de amor, manifestadas das maneiras mais incríveis possíveis. Algumas românticas, outras emocionantes. Muitas um tanto malucas. Mas certamente, uma das mais lindas e que muito me emocionou, foi a de Bob e Linda Carey.

     Juntos desde 1980, em 2003, Linda foi diagnosticada com câncer de mama. Bob, então, quis inventar um jeito de deixá-la mais alegre, principalmente nos períodos de quimioterapia. Foi quando a ideia do The Tutu Project (O Projeto Tutu) nasceu: um divertido e cativante esforço de um homem que queria tornar as coisas mais fáceis e engraçadas para sua esposa, depois que ela foi diagnosticada com câncer.
     “Minha mãe morreu de câncer de mama, minha avó morreu de câncer e o meu pai também. Comecei a tirar essas fotos como uma forma de terapia, para conseguir apoiar, mais uma vez, uma pessoa que amava na luta contra essa doença”, conta Bob.
Não importa se faz calor ou frio, Bob não para. Sai com a câmera e com o tripé, escolhe o cenário, faz o foco, tira a roupa, coloca um tutu cor-de-rosa de bailarina e tira fotos divertidas e emocionantes por aí, para Linda se distrair no hospital.












      
     Linda diz que ela simplesmente começa a rir sempre que vê o seu marido dançando por aí com apenas um tutu e isso a ajuda a se manter positiva. E afirma:  “Quando vejo o meu marido de tutu, é como se ele se transformasse, não é mais o meu marido. É como um super-herói que coloca a capa. Ele não tem medo do que os outros vão dizer, do que vão pensar, ele não desiste”.
       Quando Linda ela começou a mostrar as imagens para as amigas também doentes, logo percebeu o ambiente do hospital muito mais leve. “Essas fotos eram o nosso assunto, a gente ria delas, ajudava a nos manter longe do câncer, a não levar a vida tão a sério, pelo menos por aquele momento”, conta.
No seu site, Bob diz que o câncer dela os ensinou que a vida é boa. “Lidar com isso pode ser difícil e às vezes a melhor coisa - não, a única coisa - que podemos fazer para encarar outro dia é rir de nós mesmos e compartilhar a risada com os outros”.





     As fotos foram parar num vídeo e explodiram na internet, sendo vistas por milhares de pessoas no mundo inteiro. A partir disso, eles começaram a receber várias mensagens, e-mails de famílias que também estavam passando pela mesma dificuldade, lutando contra o câncer.
     Mensagens como esta da Austrália: “Queria dizer obrigada por ter vestido esse tutu cor de roso e encher meu coração de alegria”. "Foi quando eu percebi que não era mais sobre mim apenas, que estava fazendo outras pessoas felizes, disse Bob.
     Então, Bob e Linda resolveram criar a instituição de caridade chamada The Carey Foundation, que ajuda mulheres com câncer de mama a se manterem financeiramente durante o tratamento. Uma das maneiras de ajudar a instituição é comprando o livro Ballerina, lançado em 2013, que contém histórias de lutas contra a doença e, é claro, fotos de Bob e seu tutu ao redor do mundo.
     "O câncer não precisa ser uma sentença de morte. Você pode achar um caminho para lutar contra ele. Para mim, sorrir traz muita força, acende o meu coração. É realmente o melhor remédio", afirma Linda.
       E com certeza, com um pouco de sabedoria, podemos deixar a vida mais leve.
        Se quiser conferir mais imagens feitas por Bob ou comprar algum de seus produtos, acesse o site do The Tutu Project. http://thetutuproject.com/

sábado, 12 de julho de 2014

MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS, de Clarissa Pinkola Estes




     Mulheres que correm com os lobos é um livro que identifica a essência da alma feminina e sua psique instintiva mais profunda com o arquétipo da Mulher Selvagem, e propõe o resgate desse passado longínquo, como forma de atingir a verdadeira libertação.
     Eu o considero um livro de cabeceira, daqueles para se abrir vez ou outra, ao acaso, para reler o que a sorte indicar. Trata-se de um verdadeiro fortificante para nós mulheres, quando estamos no meio do caminho, quer lutando em difíceis paisagens interiores, quer quando lutamos no mundo e por ele.
     MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS é um trabalho de pesquisa extenso e de análise junguiana, que Clarissa Pinkola Estes faz sobre dezenove contos, alguns reformatados pelos irmãos Grimm, outros populares, todos pesquisados desde a origem como contados pela tradição oral, em vilarejos distantes e comunidades afastadas. Contos de fadas, mitos e histórias que nos proporcionam uma compreensão que aguça o nosso olhar para que possamos escolher o caminho deixado pela natureza selvagem e nos servem como verdadeiros bálsamos medicinais com instruções incrustradas que nos orientam a respeito das complexidades da vida.
     Segundo a autora, as terras espirituais da Mulher Selvagem, durante o curso da história, foram saqueadas ou queimadas, com seus refúgios destruídos e seus ciclos naturais transformados em ritmos artificiais para agradar os outros.
     No decorrer da História da humanidade, houve um momento em que as mulheres foram consideradas animais trapaceiros e vorazes e, assim como os lobos, foram forçadas a acreditar que seus instintos não eram bons. Por isso, as mulheres que eram devotas à Grande Deusa foram caçadas. Foram-lhe impostos apertados espartilhos e regras. Não se podia dançar, rir ou brincar. Seu espaço na casa tornou-se restrito às tarefas domésticas e sua função única, servir o esposo e criar seus filhos.
     Então, a mulher moderna tornou-se um borrão de atividades, que sofre pressões no sentido de ser tudo para todos.
     Entretanto as Mulheres Selvagens, assim como os lobos, têm percepção aguçada e espírito brincalhão, são gregários por natureza, curiosos, dotados de grande resistência e força, são profundamente intuitivos e preocupam-se com seus filhotes e seus comuns. Têm experiência em se adaptar a circunstâncias em constante mutação. São dotados de determinação, extrema coragem e elevada capacidade para a devoção, e é tudo isso o que o livro busca resgatar.
     Eu o comprei há muito tempo, depois de ler sobre ele em uma revista. Mas acreditem: comecei a ler e empaquei logo no começo. Então, o livro passou mais de um ano na prateleira da estante, até que novamente eu me interessasse por ele.
     O livro inicia com uma pequena introdução, e depois a análise do primeiro conto - o Barba Azul; e foi exatamente neste primeiro conto que, na primeira leitura, eu parei.
    Nunca entendi direito o motivo, mas o curioso é que, nos anos que se seguiram, encontrei outras mulheres que também leram e amaram o livro, mas também tiveram exatamente a mesma dificuldade: só conseguiram pegar o ritmo de leitura, quando começaram a ler, a partir do segundo conto, deixando o tal Barba Azul por último. Nenhuma soube explicar o por quê. Ficou a incógnita!
    Por isso minha dica é: comece o livro a partir da análise do segundo conto. Sentirá como se janelas imensas se abrissem para você e não conseguirá mais largar o livro até terminar a última página. Só então volte para o primeiro conto.
     O original do livro é de 1992, e chegou ao Brasil apenas no final da década de 90. Interessante que, em seu lançamento aqui no Brasil, o livro era considerado como "feminista", e foi publicado e divulgado junto com uma leva de outros títulos bastante populares, destinados às mulheres "modernas e independentes". Porém, quase uma década depois, para minha surpresa, eis que encontro o livro de Estés vendido na prateleira de "auto ajuda".
     Recentemente fui atrás de mais um volume do livro, para dar de presente e agora, eu o encontrei na seção de "livros técnicos de psicologia", o que achei engraçado, porque talvez esse livro seja tudo isso mesmo, dependendo de quem o lê.
     Ele é um livro "feminista", na medida em que motiva e incentiva a mulher a encontrar o seu lado "selvagem", criativo, forte, protetor, rebelde, tanto quanto exorta cada mulher a expressar criativamente as suas emoções, seja plantando o mais belo jardim, escrevendo poesias, pintando, cantando, ou qualquer outra forma de arte. Mas também é um livro de "autoajuda", se o lemos com empatia e com o coração e alma abertos ao aprendizado. E sem dúvida é um livro "de psicologia", pois Estés é uma PH.D. em análise junguiana, que são utilizados para um estudo profundo de cada um dos dezenove contos analisados, todos correlacionados com casos práticos, e que nos remetem à utilização do arquétipo ao sentido da vida individual.
     O que mais me fascina no trabalho de Clarissa Estes é a forma como ela rejeita os padrões de beleza e "sucesso" da mídia contemporânea, e segue fundo para arquétipos que falam na alma feminina. Os lobos, significando a natureza rebelde e selvagem, são uma imagem poderosa. Mas também o "cantar sobre os ossos" ao se referir aos mistérios da vida e da morte, o "clã das cicatrizes" sobre o valor da experiência de vida, a forma como aborda a velhice como um momento de sabedoria e conhecimento, seu enfoque da alegria de viver, e dos cuidados necessários com os "predadores" violentos e perigosos que espreitam as mulheres, e de como identificam suas vítimas. Em cada conto, em cada análise, um pouco de sabedoria.
     Este é um livro que eu recomendo... mas nunca empresto.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

A MULHER E O BANHEIRO

     Se você é mulher, não deixe de ler esse texto leve e bem humorado. Com certeza em muitos momentos se identificará com essa grande epopéia e dará boas risadas. Se você é homem, leia também. Ele certamente o ajudará a entender melhor porque as mulheres vão ao banheiro em grupo e principalmente porque demoram tanto.
     Eu, tenho que confessar, que quase morri de tanto rir. Não só pelo texto em sí, mas principalmente pelas recordações que ele me trouxe.
     Em especial, lembrei-me de um dia em que, ainda muito pequena – devia ter uns cinco ou seis anos - fui com a minha mãe a um banheiro de um restaurante de estrada. O banheiro era inesquecivelmente nojento e só pactuamos entrar lá porque o caso era grave e de extrema necessidade.
     A primeira providência de minha mãe foi me pegar no colo, para que eu não encostasse em absolutamente nada. Então, ela chutou a porta e o que aconteceu lá dentro foi algo muito próximo a uma apresentação circense, envolvendo equilíbrio, garra, contorcionismo e muita determinação. Para vocês terem uma idéia, ela me pediu para segurar no seu pescoço, enquanto ela mesma se inclinava para frente, segurando minhas pernas, para fazer uma cadeirinha....Bem, daí para frente vou me permitir não entrar em mais detalhes, deixando o resto a critério da imaginação ou da experiência de cada um.
     Só posso dizer que é verdadeiramente incrível o que nós mulheres somos capazes de fazer para não encostar num vaso sanitário. Boa leitura e divirtam-se.


A MULHER E O BANHEIRO

   O grande segredo de todas as mulheres com relação aos banheiros é que quando pequenas, quem as levava ao banheiro era sua mãe. Ela ensinava a limpar o assento com papelo higiênico e cuidadosamente colocava tiras de papel no perímetro do vaso e instruía: "Nunca, nunca sente em um banheiro público".
   Em seguida, mostrava "a posição", que consiste em se equilibrar sobre o vaso numa posição de sentar sem que, no entanto, o corpo entre em contato com o vaso.
   A Posição" é uma das primeiras lições de vida de uma menina, super importante e necessária, e irá nos acompanhar por toda a vida. No entanto, ainda hoje, em nossa vida adulta, "a posição" é dolorosamente difícil de manter quando a bexiga está estourando.
    Quando você TEM que ir ao banheiro público, você encontra uma fila de mulheres, que faz você pensar que o Brad Pitt deve estar lá dentro. Você se resigna e espera, sorrindo para as outras mulheres que também estão com braços e pernas cruzados na posição oficial de "estou me mijando".
     Finalmente chega a sua vez, isso, se não entrar a típica mamãe com a menina que não pode mais se segurar. Você, então verifica cada cubículo por baixo da porta para ver se há pernas. Todos estão ocupados. É sempre assim.
     Finalmente, um se abre e você se lança em sua direção quase puxando a pessoa que está saindo. Você entra e percebe que o trinco não funciona.
    Ele nunca funciona. Você então pendura a bolsa no gancho que há na porta e se não há gancho (quase nunca há gancho), você inspeciona a área.
   O chão está cheio de líquidos não identificados e você não se atreve a deixar a bolsa ali, então a pendura no pescoço enquanto observa como ela balança sob o teu corpo, sem contar que é quase decapitada pela alça porque a bolsa está cheia de bugigangas que você foi enfiando lá dentro, a maioria das quais não usa, mas que guarda porque nunca se sabe.
   Mas, voltando à porta...Como não tinha trinco, a única opção é segurá-la com uma mão, enquanto, com a outra, abaixa a calcinha com um ouxão e se coloca "na posição".
* Alívio... AAhhhhhh... Finalmente! *
   Nessa hora os músculos começam a tremer. Você está suspensa no ar, com as pernas flexionadas e a calcinha cortando a circulação das pernas, o braço fazendo força contra a porta e uma bolsa de 5 kg pendurada no pescoço.
     Você adoraria sentar, mas não teve tempo de limpar o assento nem de cobrir o vaso com papel higiênico. No fundo, você acredita que nada vai acontecer, mas a voz de tua mãe ecoa na tua cabeça "jamais sente em um banheiro público!" e, assim, você mantém "a posição" com o tremor nas pernas.
     E, por um erro de cálculo na distância, um jato finíssimo salpica na tua própria bunda e molha até tuas meias! Por sorte, não molha os sapatos.
     Adotar "a posição" requer grande concentração. Para tirar essa desgraça da cabeça, você procura o rolo de papel higiênico, maaassss, puuuuta que o pariuuuu! O rolo está vazio. Isso sempre acontece.
     Então você pede aos céus para que, nos 5kg de bugigangas que você carrega na bolsa, haja pelo menos um miserável lenço de papel. Mas, para procurar na bolsa, você tem que soltar a porta. Você pensa por um momento, mas não há opção.
     E, assim que você solta a porta, alguém a empurra e você tem que freiá-la com um movimento rápido e brusco enquanto grita OCUPAAADOOOO!
     Aí, você considera que todas as mulheres esperando lá fora ouviram o recado e você pode soltar a porta sem medo, pois ninguém tentará abri-la novamente (nisso, nós mulheres nos respeitamos muito) e você pode procurar teu lenço sem angústia.
   Você gostaria de usar todos, mas quão valiosos são em casos similares e você guarda um, por dia cas dúvidas. Você então começa a contar os segundos que faltam para você sair dali, suando porque você está vestindo o casado já que não há gancho na porta ou cabide para pendurá-lo.
É incrível o calor que faz nestes lugares tão pequenos e nessa posição de força que parece que as coxas e panturrilhas vão explodir. Sem falar da porrada que você levou da porta, a dor na nuca pela alça da bolsa, o suor que corre da testa, as pernas salpicadas.
   A lembrança de tua mãe, que estaria morrendo de vergonha se te visse assim, porque sua bunda nunca tocou o vaso de um banheiro público, porque frnacamente, "você não sabe que doenças você pode pegar ali". Nessa hora você está exausta.
     Ao ficar de pé você não sente mais as pernas. Você acomoda a roupa rapidíssimo e tira a alça da bolsa por cima da cabeça! Então, vai a pia lavar as mãos. Está tudo cheio de água, então você não pode soltar a bolsa nem por um segundo. Você a pendura em um ombro, e não sabendo como funciona a torneira automática, você a toca até que consegue fazer sair um filete de água fresca e estende a mão em busca de sabão.
   Você se lava na posição de corcunda de notre dame para não deixar a bolsa escorregar para baixo do filete de água. O secador? Você nem usa. É um traste inútil, então você seca as mãos na roupa porque pensa usar o último lenço de papel que sobrou na bolsa para isso.
   Finalmente você sai do inferno, Sorte se um pedaço de papelo higiênico não tiver grudado no sapato e você sair arrastando-o, ou pior, a saia levantada, presa na meia-calça, que você teve que levantar à velocidade da luz, e te deixou a bunda à mostra! Nesse momento, você vê o teu carinha que entrou e saiu do banheiro masculino e ainta teve tempo de sobra para ler um livro enquanto esperada por você.
   "Por que você demorou tanto?" - pergunta o idiota.
   Você se limita a responder: "A fila estava enorme".
   E esta é a razão porque as mulheres vão ao banheiro em grupo. Por solidariedade, já que uma segura a tua bolsa e o casaco, a outra segura a porta e assim fica muito mais simples e rápido já que você só tem que se concentrar em manter "a posição" e a dignidade.
    Obrigada a todas as amigas que já me acompanharam ao banheiro    Obrigada a todas as amigas que já me acompanharam ao banheiro.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

INSEGURANÇA E BARBÁRIE


     Numa sociedade sob o império econômico e sob o domínio do medo, da insegurança e do egoísmo, o que se observa por entre os escombros de civilidade que ainda restam é um mundo cada vez menos humano e mais bárbaro.
     Um jovem, acusado de assalto, é acorrentado nu a um poste com uma trava de bicicleta e tem sua orelha cortada, no Rio de Janeiro. Outro ladrão é acorrentado em Itajaí - Santa Catarina. Em Goiânia, um adolescente é espancado pela população após um furto. Em Teresina - Piauí, um suspeito de assalto é amarrado e tem seu rosto posto em um formigueiro. No interior de Minas Gerais, um rapaz de dezoito anos, foi amarrado a um poste e açoitado com fios de energia elétrica pela população.
     E a “justiça com as próprias mãos” não para. Nos últimos dois meses três pessoas inocentes foram assassinadas em “linchamentos coletivos”, acusadas de crimes não comprovados. Alailton Ferreira e Marcelo Pereira da Silva foram mortos em espancamentos coletivos, acusados de estupro. E o caso mais recente é o do Guarujá, onde Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, foi espancada até a morte pela população, depois de ter sido identificada como a suposta sequestradora de crianças sacrificadas em rituais de “magia negra’ em retrato falado da página de notícias do Facebook ‘Guarujá Alerta’.
     Sem investigações, sem leis, sem direitos, nem humanos. Apenas julgamentos súbitos praticados por indivíduos engolfados em sua razão e dominados pela vontade coletiva irracional de ódio, praticados em verdadeiros rituais de vingança e desumanização daqueles cuja conduta é socialmente imprópria, aos quais não é dado tempo nem oportunidade para provar ou não a sua inocência.
     Assistimos atônitos à onda crescente de barbárie e nos comovemos com tamanha brutalidade, preocupados com o retrocesso civilizatório. Sabemos que eles não são os primeiros e fatalmente não serão as últimas vítimas, nem da violência, nem do descaso nem da ignorância. Mesmo assim, a indignação não vem.
     A desigualdade que se perpetua no concreto da vida cotidiana e que começa e persiste na cabeça de cada um, legitima a ideia de que a vida de uns vale menos do que a de outros, de que a vida dos mesmos de sempre vale menos do que a dos mesmos de sempre. No país das indignações seletivas, onde a tortura é consentida, temos por hábito aplaudir soluções arbitrárias contra um caos legitimado.
     Afinal, o Estado é omisso. A polícia é desmoralizada. A Justiça é falha. São todos marginais e também vagabundos. Não podemos mais conviver com a impunidade. No fundo, o Brasil que pede direitos humanos apenas para humanos direitos se sente vingado.
     E é muito mais fácil dividir o mundo entre bons e maus, mocinhos e bandidos e transformar os problemas humanos em problemas dos políticos e dos donos do poder econômico, e não de todos nós.
     Assim esquecemos o óbvio em nome da conveniência. E motivados pelo discurso do medo e da insegurança nos permitimos perder a única coisa que nos diferencia no mundo animal – a razão - para nos tornarmos o pior e mais cruel lobo de nós mesmos.
     O problema é que é justamente nesse eixo entre o bem o e mal que giram os preconceitos, as discriminações, os arbítrios, as violências públicas. E é exatamente essa visão maniqueísta que permite que o nosso país continue dividido entre aqueles que são cidadãos e têm direitos e aqueles que não têm nenhum direito.
     Naturalmente o instinto de preservação da espécie se transmuda em preservação apenas dos humanos bons, geralmente pertencentes ao clico econômico mais qualificado, assemelhados ora por certas características genéticas comuns, ora pela posse de certos signos do pertencimento, para nos tornarmos estranhos entre os iguais.
     Mas se olharmos atentamente, veremos que na sua essência, o que os linchamentos praticados sugerem é um quadro de mudanças sociais patológicas, na medida em que, nos recantos escuros de um cenário urbano que se expande deteriorado, representam a afirmação de valores negativos, que não se inserem no elenco de concepções positivas a respeito da constituição da humanidade do homem, com respeito aos procedimentos legais, institucionais e racionais de aplicação da justiça, da liberdade, responsabilidade e cidadania.
     Nesse contexto também não podemos esquecer nossas raízes históricas que fazem com que as maiores vítimas de violência no Brasil sejam os negros e pobres. Muito menos podemos fechar os olhos para o cenário de urbanização inconclusa que vivemos, insuficiente, patológica e excludente, de relações sociais essencialmente mediadas por privações.
     É preciso urgentemente nos olharmos no espelho com coragem suficiente para encarar a face feia da natureza humana e pararmos de pedir vingança contra o mal por nós mesmos causado.
     Porque somente assim podermos enxergar apenas “nós” na humanidade, e não “nós” como algo contraposto a “eles”.
     Em termos jurídicos, a condição de humanidade decorre, em essencial medida, da vida em sociedade, mais especificamente, da teia de comunicações que os seres humanos, nas suas relações sociais, mantêm ou podem manter com outros seres humanos. Assim, não faz qualquer sentido buscar compreender a dignidade da pessoa humana numa imagem de ser humano como ser isolado de tudo o mais, com base numa filosofia que tem a pretensão de interpretar o homem despido de sua socialidade, como coisa-bastante-em-si.
     A dignidade não reside apenas na pessoa, mas também e principalmente na interação entre pessoas. O respeito, como bem disse Chaplin, no seu excepcional discurso final de “O Grande Ditador”: “O reino de Deus está dentro do homem — não de um só homem ou grupo de homens, mas de todos os homens.”
     Por isso, que possamos seguir em frente, levando conosco uma única certeza: que o futuro da humanidade depende da intensidade da humanidade.
Pronto falei.
     Esse texto foi publicado hoje (28/05/2014) no site do Correio da Cidadania.

domingo, 4 de maio de 2014

GENTILEZA: UM DETALHE QUE FAZ TODA A DIFERENÇA



            Impossível falar de gentileza sem fazer referência ao Profeta Gentileza. Você já ouviu falar dele?
José Datrino era um empresário, dono de uma transportadora de cargas no Rio de Janeiro, que se viu sacudido por um acontecimento de grande força trágica: o incêndio de um grande circo na cidade de Niterói, que matou várias pessoas. Deixou tudo que possuía para viver uma missão na Terra, assumindo uma nova identidade. Passou, então, a ser um cavaleiro andante, em plena cidade contemporânea, a conduzir seu estandarte cheio de apliques, metendo-se pelos lugares para levar palavras e atitudes gentis.  Como patrimônio histórico, deixou 55 painéis nas pilastras dos viadutos cariocas com suas “palavras de gentileza”.
            Foi internado três vezes, como "maluco, débil mental". No pátio do manicômio, os enfermos ficavam todos à sua volta, ouvindo sua pregação. De volta às ruas, sua figura singular passou a atrair toda sorte de atenção. Aos que o apontavam na rua, como maluco, ele dizia: "maluco pra te amar, louco pra te salvar".  "Seja maluco, mas seja como eu, maluco beleza, da natureza, das coisas divinas."


 
           Um homem que, de tanto caminhar pelas ruas com sua túnica branca e barba longa “pregando” a gentileza, acabou conhecido como “Profeta Gentileza".

              Eu fiquei sabendo de sua existência apenas em 2009, quando ele foi interpretado pelo ator Paulo José, na novela Caminho das ìndias, de autoria de Glória Perez. Curiosa, fui atrás de sua história. Ganhei o dia e desde então, jamais o esqueci.
             Profeta Gentileza. Um grande homem, com um grande legado, que passou a maior parte de sua vida pregando a gentileza como um modo de existir. Um pouco maluco, meio folclórico e um tanto extraordinário, como todo profeta, Gentileza denuncia e anuncia.
            Denuncia este mundo, regido “pelo capeta capital que vende tudo e destrói tudo”. Vê no circo destruído uma metáfora do circomundo que também será destruído. Mas anuncia: “gentileza é o remédio para todos os males. Deus é Gentileza porque é Beleza, Perfeição, Bondade, Riqueza...a Natureza”. E, com um refrão sempre às voltas, especialmente nas 56 pilastras com inscrições, na entrada da rodoviária Novo Rio no Caju prega ao mundo: “Gentileza gera gentileza, amor”.
            Um homem que, ao dar algo que ninguém pediu, sem querer nada em troca, fez toda a diferença nas vizinhanças do Caju. E que só sendo, suavemente, foi pondo abaixo a lógica do mundo, para nos mostrar, nas plavras de Leonardo Boff, "que a crítica da modernidade não é monopólio dos grandes mestres do pensamento acadêmico como Freud, com seu O mal estar da civilização ou a Escola de Frankfurt com Horkheimer e o seu O Eclipse da razão, ou mesmo Habermas, com Conhecimento e Interesse, mas pode ser também de um grande e certeiro representante do pensamento popular e cordial."
            Em 1980, o Profeta Gentileza virou tema de música do Gonzaguinha, e nos anos 1990, da Marisa Monte, em duas canções que levam o nome Gentileza.  
            E também virou tema de livro: Brasil: Tempo de Gentileza, do professor Leonardo Guelman, publicado em 2000, pela EDUFF, ricamente ilustrado com inúmeras fotografias, principalmente do profeta e de seus penduricalhos e painéis.

            Para quem quiser saber mais sobre a sua história é só acessar:         
                       http://www.riocomgentileza.com.br/index-2.html.

            E para quem quiser ouvir as músicas em sua homenagem:
              https://www.youtube.com/watch?v=dNIR7qNgFLA
              https://www.youtube.com/watch?v=mpDHQVhyUrY


            Certamente você, assim como eu, já teve a oportunidade de conhecer, vida afora, pessoas tão gentis quanto inesquecíveis.
            Eu, por exemplo, sempre me lembro de um rapaz, deficiente físico, que ficava na esquina da República do Líbano. Sem as pernas, de cima de um skate, ele gritava logo cedo para todos aqueles que por ali passavam: “- Bom dia, minha gente. Gente bonita. Tenham um dia maravilhoso.” Além de tornar o meu dia melhor, ele sempre me fazia prometer nunca reclamar da vida.
            Lembro-me também, de uma ascensorista do Fórum João Mendes que falava como uma aeromoça e, entre um andar e outro, nos fazia viajar para diversas cidades do Brasil e do Mundo. Ao final, agradecia a companhia e desejava a todos um ótimo dia. Tamanha era a sua espiritualidade e gentileza, que na maioria das vezes acabava aplaudida. Não havia quem não saísse do elevador com um franco sorriso no rosto.
            Também me lembro de muitos outros, que não seria o caso de relacionar aqui, mas que com um sorriso, um bom dia, um elogio sincero, uma ajuda inesperada, um pequeno gesto, tornaram o meu dia mais feliz.
            Então fico me perguntando: - Por que algo tão essencial parece estar se tornando supérfluo?
            Talvez seja porque nesse mundo, em que tudo se consome, gentileza não custe nada. Ou quem sabe, porque não se ganha nada de material com ela. Talvez porque esteja fora de moda ou pareça, em algumas oportunidades, até algo meio otário ou mesmo piegas. Talvez isso aconteça porque as pessoas achem que gentileza seja algo menor, descartável.
             Infelizmente, a regra, hoje em dia, parece ser tratar mal as pessoas, fechar a cara, não dar bom dia, nunca elogiar e dizer coisas duras sem nenhum cuidado. Tudo isso elevado a título de atributo dos poderosos. Quase uma virtude.
            Estou cansada de me deparar com pessoas que entram no elevador onde só está você, nem te olham na cara e saem sem nem mesmo lhe dar um grunhido. Ou então aquelas, na garagem, que entram no elevador super-rápido e até puxam a porta, só para não correr o risco de você chegar a tempo.
            E nem se fale daquelas arrogantes, que falam bem alto para serem atendidas mais rápidas e com mais deferência. Aliás, não sei de onde surgiu essa lógica maluca de que falar alto e exalar arrogância é necessário para ser tratado com deferência?!
            Quanto mais importante a pessoa e mais alto o cargo, menos gentileza. Acho até que nos currículos de muitos chefões, intelectuais e ‘bambambans’ por aí deva estar escrito: “Doutor em gritar com as pessoas”. Ou: “PhD por Harvard em humilhar os subordinados”. Ou quem sabe: “Mestre em massacrar iguais em inglês fluente, mas se for necessário pode xingar também em alemão, francês, espanhol e mandarim”.
             A verdade, porém, é que nunca haverá razão que resista ao fato de agirmos mal com quem quer que seja. E sempre haverá um jeito bom de dizermos as coisas, mesmo as mais duras. Aliás, se pensarmos bem, veremos que é mais fácil ser gentil do que ser grosseiro. Despende menos energia e o resultado é sempre melhor.    
            Gentileza não é algo que temos, é algo que somos. E que nos tornamos. É obedecer à lógica do coração. Enxergar e vestir a pele do outro.
            Ser gentil é uma virtude. É dar sem esperar nada em troca. É um ato de resistência diante de uma vida determinada por valores calculáveis. E é justamente o resgate desta gratuidade que faz o humano ressurgir como valor primordial e o mundo ficar melhor. Dar, porque o simples dar já é receber, é isso que verdadeiramente faz toda a diferença.
            Por isso, se tiver vontade de elogiar, não pense duas vezes, elogie. Quando a crítica for imprescindível, abuse da delicadeza. Não só veja, mas enxergue as pessoas. Escute o que elas têm a lhe dizer. Sorria mais. Agradeça sempre. Faça a diferença.  
            Dia desses recebi de uma amiga uma história que circula pela internet, a respeito de um empregado de um frigorífico da Noruega que, ao término do trabalho, ficou preso na câmara frigorífica, quando a inspecionava.
            Bateu e gritou em vão, porque todos já haviam ido embora. Quando já tinha perdido as esperanças, viu a porta se abrir e o vigia entrar, o resgatando a tempo.
            Perguntado ao vigia por que ele foi abrir a porta da câmara, se isto não fazia parte da sua rotina de trabalho ele explicou: “-Trabalho nesta empresa há 35 anos, centenas de empregados entram e saem aqui todos os dias e ele é o único que me cumprimenta ao chegar pela manhã e se despede de mim ao sair. Hoje pela manhã disse ‘Bom dia’ quando chegou. Entretanto, não se despediu de mim na hora da saída. Imaginei que poderia ter-lhe acontecido algo. Por isto o procurei”.”
            Isso mesmo: o homem foi salvo por sua gentileza!!!
            Não sei se esta história é verdadeira ou não, só sei que eu acredito nela. E você?

domingo, 6 de abril de 2014

DESCONSTRUINDO ESTEREÓTIPOS

       Quando criança, minhas brincadeiras favoritas eram empinar pipa e brincar de polícia e ladrão. E com apenas um irmão mais velho, obviamente brincava de carrinho e chute a gol. Na verdade brincava mesmo de gol, porque como meu irmão era o dono da bola - afinal, bola é presente para meninos - o gol era a única coisa que me restava, se quisesse brincar.
     Também era craque em pular corda, elástico e brincar de carrinho de rolimã. A única coisa que me recusava terminantemente era assistir "Jaspion",  o que já era demais para mim!!! Mais velha, adorava jogar War ou Banco Imobiliário. Quanto às minhas bonecas?! Passaram a vida toda ilesas, com todos os braços e pernas, a roupa original, sem nenhum corte de cabelo nem riscos ou maquiagem, a tal ponto que, já adulta, acabei doando todas, no mais perfeito estado.
     Demorei muito tempo para entender porque me sentia meio por fora, por não gostar de brincar de boneca, casinha ou cabeleireiro como as meninas em geral. Mas foi como adulta que vim a compreender que meu universo infantil foi tão maravilhosamente fora do padrão graças ao meu irmão mais velho.  Por isso, tenho que confessar que fiquei muito feliz ao descobrir recentemente, na internet, uma grande novidade na área dos brinquedos: uma linha de brinquedos para meninas engenheiras.
     Meninas gostam de rosa e meninos de azul, certo? Pode ser, mas não só. Meninas também podem gostar de construir e de inventar máquinas. E podem ter brinquedos legais e desejados também pelos meninos, o que permite que entrem em pé de igualdade no mundo da brincadeira.
     A brilhante iniciativa foi de uma engenheira formada em Stanford que, disposta a usar a porta que abriu para fazer passar por ela outras meninas, criou uma linha de brinquedos chamada Goldie Blox, dedicada a futuras engenheiras e inventoras.
     Tanto quanto o brinquedo, o vídeo de lançamento é genial e brinca com vários clichês femininos. Tão bom que se tornou um viral no ano passado, com mais de 8 milhões de visualizações na primeira semana, o que acabou trazendo a reboque consequências animadoras, como a discussão social sobre as opções que estamos dando às nossas meninas e a nova proposta de interação entre as crianças.
     “Pensei em minha infância, com princesas e pôneis, e me perguntei por que kits de construção, matemática e ciência eram para garotos”, disse Debbie Sterling, fundadora e chefe-executiva da Goldie Blox, em entrevista. “Queríamos criar uma inversão cultural, fechar esse vão entre os gêneros e preencher algumas dessas vagas de emprego que crescem à velocidade da luz.”
     Infelizmente, as mulheres ainda continuam pouco representadas como engenheiras em companhias de tecnologia, principalmente por causa do problema de formação, já que em pleno Século XXI, 89% das pessoas formadas em engenharia no mundo são homens. Um problema que, segundo dizem muitos analistas, começa na infância, quando professores e pais não encorajam as garotas a almejarem essa profissão.
     O slogan escrito na camisa da protagonista do comercial é: “Mais do que só uma princesa”, uma frase que resume bem a proposta do filme, que é desconstruir estereótipos e incentivar as meninas a se tornarem engenheiras.
     Uma linha de brinquedos que trata de dar opções às meninas e que dá mais valor ao cérebro que ao visual. Simplesmente maravilhoso, não é mesmo?!
     E essa foto do concurso de fantasias Goldie Blox! Achei o máximo essa mulher aranha de pérolas!!!
      Para ver o vídeo é só acessar o link:
      E por falar em estereótipos...
     Recentemente a Diretora do Facebook se uniu à Getty Images para desafiar estereótipos relativos à mulher e criar uma coleção de fotos mostrando a mulher executiva além do tailleur.
     Quem não conhece aquelas fotos da mulher de negócios, de tailleur e óculos, carregando uma maleta? Ou a mãe, sorrindo enquanto coloca leite no prato de cereais das crianças na mesa do café da manhã? Tem também a mulher faz-tudo, segurando um laptop com uma mão e o bebê na outra.
     Trata-se de fotos de bancos de imagens que ilustram famílias e mulheres que trabalham fora bem conhecidas por qualquer pessoa que vê um anúncio ou folheia uma revista, não é mesmo?
     “Onipresença que é prejudicial e alimenta estereótipos ultrapassados”, diz Sheryl Sandberg, executiva do Facebook que se tornou uma defensora das mulheres que chegam a postos de liderança.
     Para tentar solucionar o problema, a organização sem fins lucrativos de Sheryl LeanIn.org anunciou uma parceira com a Getty Images, um dos maiores bancos de imagens do mundo para oferecer uma coleção especial de fotos representando mulheres e famílias de maneira mais afirmativa.
     Vejam as novas fotos da mulher executiva, que interessantes.
     “Uma das maneiras mais rápidas de se conseguir que as pessoas pensem de modo diferente sobre alguma coisa é mudar o seu visual”, disse Cindy Gallop, que dirige a filial nos Estados Unidos da agência de publicidade Bartle Bogle Hegarty.
     Para se pensar, não é mesmo?
    P.S. Este post é uma singela homenagem a todas as amigas dos meus filhos, estudantes de engenharia. Todas super inteligentes, corajosas, determinadas, ma-ra-vi-lho-sas!!! Saibam que sou super fã de vocês.

domingo, 9 de março de 2014

OS MISTÉRIOS DO PERU

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       O Peru, mais que encantador, é surpreendente. Com paisagens lindíssimas e bem diversificadas, é envolvente e místico, além de representar a melhor e mais interessante aula de história, a céu aberto, da cultura e civilização Inca. Para melhorar, os peruanos adoram “nosotros” brasileiros, são extremamente simpáticos e acolhedores e conservam o tempo inteiro sobre futebol. De quebra, a comida é excelente. Misturas inusitadas, pratos com lindos acabamentos, e serviço muito bom - não é para menos que a culinária peruana é uma das mais respeitadas internacionalmente, na atualidade. Quanto à pobreza, claro que ela é evidente e em muitos momentos impressiona, mas acaba superada pela cultura, tradição e misticismo que envolve os lugares e as pessoas.
      Escolhemos começar nossa viagem por Cuzco, que fica a 3400 m de altitude, e logo na chegada pudemos entender o que toda essa altitude significa. Subir um lance de escada em Cuzco equivale a aproximadamente uns quinze andares em São Paulo, com direito a aperto no peito e leve tontura. E então, de repente você entende na pele porque os times brasileiros de futebol sempre perdem quando jogam na Bolívia ou no Peru. O único jeito é não se fazer de rogado e tomar logo o famigerado chá de coca, e sem preocupações, já que ele não deixa ninguém doidão. Mais parece um chá verde ou ban chá meio amargo, tomado sem açúcar, e acredite, ajuda muuuuito.
    Mesmo assim, se você não quiser ver o chão virar, a cabeça doer e nem ter o estomago embrulhado, lembre-se : keep calm e nada de passeios longos no primeiro dia, senão é Soroche na certa – esse é o nome local que eles dão a todo esse mal estar, provocado pela altitude.
Em Cuzco, nos hospedamos no Hotel Arqueólogo. Bonito, charmoso, com um restaurante divino e preço bem justo, foi uma ótima opção. Agora, se dinheiro não for sua preocupação e a ocasião for bem especial, você pode se hospedar no Hotel Monastério, da rede Orient-Express. Vi in loco e é simplesmente ma-ra-vi-lho-so.
      Considerada a capital turística do Peru, Cuzco foi declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1983. Com um bonito centro histórico de influência espanhola, a Plaza de Armas é o melhor local para começar seu passeio. Comece explorando as duas lindas catedrais construídas bem em cima de monumentos Incas – num ato típico daqueles que pretendiam acabar com as tradições locais - aproveite conhecer as lojinhas e não deixe de visitar o Museo Inka.
      E ainda na Plaza de Armas, aproveite para contratar o passeio pelo Vale Sagrado dos Incas, para o dia seguinte. Existem muitas agências pela região que fazem isso, é muito fácil e tranquilo.
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        Optamos por um passeio que incluía Pisac, famosa por seus mercados de artesanato e suas grandiosas ruínas incas, que ficam no alto de uma linda montanha, de onde você pode contemplar todo o vale a centenas de metros de altura. Só essa visão lá do alto já compensa o passeio. O elemento central do sítio arqueológico de Pisac é o Templo Del Sol, um observatório astronômico. Mas tem também o Templo de La Luna, complexo de termas cerimoniais e o Intihuatana, que traça os movimentos do sol. Todos muito interessantes.
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    Ollantaytambo, não tão bonita como Machu Picchu, mas certamente é ainda mais interessante por toda a sua  engenhosidade e estrutura militar. Foi em Ollantaytambo onde se deu a maior vitória inca sobre os espanhóis.
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     E Chincero, vilarejo onde são confeccionadas as lãs peruanas típicas, de ovelha ou de alpaca. O povo local, de língua quéchua, preserva muito os costumes incas, usa trajes tradicionais e pratica ainda pratica o escambo. Foi muito bacana ver o processo artesanal de tingimento das lãs. 
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      De volta a Cuzco, cansados, optamos por jantar no próprio hotel, o que foi delicioso. Outra dica de restaurante para o dia é o simpático café de Mamá Oli, que apresenta um cardápio saudável com uma variada carta de sucos, tortas e saladas com ingredientes típicos, música agradável e ambiente tranquilo para aproveitar o dolce far niente. Fica próximo do Hotel Monastério.
      Compras? Se quiser algo realmente diferente e tiver tempo, recomendo ir até o Bairro San Blás, onde fica a maioria dos ateliês dos artistas. Na Calle Cuesta San Blas, 567, tem a loja do artista cusquenõ Pacheco Venero Luis Alfredo, com telas em diferentes tamanhos e molduras lindas em madeira de lei, com diversos anjos pintados em cores fortes e detalhes em baixo-relevo dourados. Acabei não comprando nada, mas no site http://turomaquia.com/compras-em-cusco/ encontrei uma foto bem legal de uma tela do Arcanjo Uriel para você ver o estilo e se gosta.
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      Também soube que em Urubamba tem o artista Pablo Seminario, muito conhecido, que faz coisas lindas em cerâmica, para todos os gostos e para todos os bolsos. Se você quiser conferir, para saber se vale a pena passar por lá, fica a dica http://www.ceramicaseminario.com.
    No dia seguinte fomos de Cuzco até Machu Picchu no trem de luxo Hiram Bingham– Oriente Express, uma opção simplesmente maravilhosa, que recomendo mil vezes!!!! Fizemos o passeio optando pela modalidade diurna, mas você pode optar também pela modalidade com pernoite – mais cara. 
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        A viagem foi muito agradável, com aperitivos, almoço e música ao vivo, enquanto o trem passava por cenários deslumbrantes, sempre em transformação.
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        Quando chegamos em Águas Calientes, já havia um ônibus nos esperando para nos levar até Machu Picchu e lá fizemos um maravilhoso tour guiado – nosso guia era um verdadeiro professor de história, e tivemos a melhor e mais sensacional aula sobre a civilização Inca a céu aberto. Simplesmente inesquecível!!! No final da tarde, ainda tivemos direito de contemplar Machu Picchu com um lindo arco-íris.
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Machu Picchu : uma construção inca que funde a arquitetura com o terreno.
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     Na saída, fizemos uma parada estratégica para um brunch no Sanctuary Lodge, um hotel cinco estrelas que fica lá em cima, a poucos metros de Machu Picchu e depois voltamos de trem para Cuzco, com direito a um requintado jantar gourmet.
      Assim, minha sugestão é ficar quatro noites em Cuzco: primeiro dia para descansar e se aclimatar, fazendo passeios leves. Segundo dia para conhecer Cuzco, terceiro dia para fazer o passeio pelo Santuário e quarto dia para ir e voltar de Machu Picchu.
     De Cuzco, pegamos um voo direto para Puno, onde ficamos hospedados no Hotel Libertador, com uma vista maravilhosa para o lago Titicaca, o mais alto, com 3.800 m de altitude e o segundo maior da América do Sul. Como já estávamos aclimatados, não tivemos problema algum com a altitude. Há muitas ilhas espalhadas pelo lago e os habitantes mantêm um modo de vida tradicional, centrado na pesca, na agricultura e na tecelagem. Optamos por conhecer a Isla Uros, que fica próxima de Puno, mas falaram muito bem também de um passeio até a Isla Taquile, mais distante. Para quem quiser se aventurar, ouvi que vale muito a pena.
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       O povo uros vive em ilhas flutuantes, as quais parecem imensos ninhos de palha. Cada uma tem um chefe e população própria, e todas estão submetidas a um administrador geral. Eles se consideram o povo mais antigo da Terra, e diz a lenda que eles já existiam antes do sol e não podiam afundar nem ser atingidos por raios. A maior ilha flutuante tem 160 anos, uma sala de reuniões e uma escola. O junco totora usado para a formação das ilhas também é usado como alimento, lenha para fogueiras e na construção de barcos, casas e artefatos. Como eles próprios descrevem “sua existência é como viver entre a água e o céu”.
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    Só vendo mesmo para crer.

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    Também fizemos um passeio até as torres Sepulcrais circulares – conhecidas por chulpas, de Sillustani, passeio muito interessante, que também recomendo.
       E na volta, entramos em uma casa de família, para tomar um lanchinho com os moradores locais e ver de perto seus costumes.
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COMIDINHAS
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ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO
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FAZENDO FARINHA DE QUINUA
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 A FARMÁCIA DA CASA
     Em pleno Século XXI nos sentimos na Idade Média!!! Simplesmente inacreditável!!!
     De Puno pegamos um voo para Arequipa, fomos até Colca, Paraca, Nazca e Lima, mas o resto da viagem vai ficar para um outro post, em continuação, combinado?
     Para finalizar, algumas dicas que considero importantes:
- Leve dinheiro vivo. No Peru, não é todo lugar que aceita cartão de crédito. Além disso, eles insistem em cambiar até no cartão, com taxas sempre mais altas e desfavoráveis que não valem a pena e os caixas eletrônicos, por um acordo com os bancos brasileiros, não permitem saque superior a R$100,00 por dia, e a cada saque você paga uma taxa de serviço de R$15,00.
- Sempre negocie antes de pegar táxi, porque não existe taxímetro. Isso mesmo!! Por isso fique esperto.
- Nem pense em pernoitar em Águas Calientes. A cidade é de pobreza espartana, e um dia é mais do que suficiente para você conhecer Machu Picchu. Portanto, a menos que você esteja disposto a gastar uma fortuna para se hospedar no Sanctuary Lodge, volte para Cuzco.
- Leve sempre com você um casaco impermeável para se proteger do vento frio e de eventuais chuvas.
- Leve apenas sapatos próprios para caminhada que tenham boa aderência, com sola de borracha.
- Quando comprar artesanatos, aproveite para tirar uma foto com a própria artesã.
 Espero que tenha gostado. Até o próximo post.