quarta-feira, 17 de agosto de 2016

VOCÊ TEM MEDO DE QUÊ?

                                    escrito por ANNATROTTAYARD

                                       Quando somos criança, costumamos pensar que ser corajoso é não ter medo. Grande bobagem!!!
                                 O medo é inerente ao homem e também aos animais irracionais. Assim, todo mundo nessa vida tem medo, inclusive os corajosos. E por diversas razões. É uma pena que não nos expliquem isso antes.
                                   Segundo a Wikipédia “o medo é uma sensação que proporciona um estado de alerta demonstrado pelo receio de fazer alguma coisa, geralmente por se sentir ameaçado, tanto física como psicologicamente.
                                   É também uma reação obtida a partir do contato com algum estímulo físico ou mental (interpretação, imaginação, crença) que gera uma resposta de alerta no organismo. Esta reação inicial dispara uma resposta fisiológica no organismo que libera hormônios do estresse (adrenalina, cortisol) preparando o indivíduo para lutar ou fugir.
                                   O medo começa na ansiedade e termina no pavor. E pode se transformar em doença, quando vira uma fobia.”
                                   Conheço muita gente que teme fantasmas, almas do outro mundo, saci pererê, assombração, satanás, alma penada e tantos outros fenômenos sobrenaturais. Confesso, já tive medo disso também, um dia.
                                   Hoje, porém, tenho medo mesmo é de gente viva. Tenho medo da falta de humanidade. Das instabilidades das gentes. Da falta de diálogo, do extremismo e da intolerância. Tenho medo de quem promove o medo como forma de correção ou coação. E dos políticos que votam por Deus e exclusivamente por suas famílias, sem se preocupar com o interesse público e o bem-estar de todos.
                                   Também tenho medo que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo me impeça de tentar. Tenho medo de errar.
                                   Até a natureza, tão venerada por ecologistas e ambientalistas me dá medo. Principalmente quando me lembro do Katrina, do tsunami na Indonésia, dos terremotos do Chile e do Japão. Que medo!!!
                                    Também tenho medo do futuro, onde a água não exista mais. Do futuro em que a gente desembale mais do que descasque coisas para comer. E do futuro para jovens meninas, por não ver o futuro prosperar em defesa delas na velocidade necessária.
                                   Tenho medo das incertezas do caminho. Da minha bondade se esvair na ingratidão e no egoísmo alheio. De não saber mais discernir o certo do errado neste mundo de valores cada vez mais confusos.
                                   Tenho muito medo da insegurança das ruas, do desconhecido, do imprevisto, do imprevisível e da morte, então... nem se fale!!!
                                   E tenho mais um montão de medos, que demoraria dias para relacionar aqui. Ou seja, medo é o que não me falta.
                                   Mas, sinceramente?! Mesmo com tantos medos, não me sinto uma covarde. Acho que porque, hoje, sei que toda coragem precisa do medo para existir e talvez também tenha aprendido, de alguma forma, que o medo tem validade objetiva. Se com medo tornarmo-nos covardes, sem medo tornarmo-nos temerários. Por isso, podemos sim usar os nossos medos de forma benéfica e a nosso favor. E se fizermos isso, ele não será um defeito, muito menos algo negativo.
                                   Quando alguém sente medo é porque há, ou pode haver, alguma ameaça. Assim, sentir medo é não só aceitável, mas algo razoável e desejável. Em certa medida, o medo pode até proteger. O problema está apenas quando ele ultrapassa a medida do aceitável e se transforma em medo exagerado, que nos paralisa. Esse sim não é nada bom, porque paralisados, anulamos completamente nossa capacidade de viver e conviver. E a vida é puro movimento.
                                   Pesquisando sobre o medo, percebi que durante a história, poucas vezes os filósofos se ocuparam dele. Thomas Hobbes, filósofo do século XVII, e que tornou famosa a frase “o homem é o lobo do homem”, foi um dos poucos a pensar o medo como um sentimento manipulável que estaria na base da fundação do estado social.
                                   Hobbes viveu em tempos conturbados para a coroa de seu país, e suas ideias tinham muito a ver com a clima de incertezas que marcou aquela época, onde o movimento liberal, que defendia a redução do poder da realeza, vinha ganhando cada vez mais força.
                                   Contrariando outros filósofos políticos e o anseio revolucionário da época, ele acreditava que o homem não possui uma disposição natural para a vida em sociedade, na verdade, possui sim, uma natureza regida pelo egoísmo e pela autopreservação.
                                   Esse instinto abriria caminho para a violência contra o próximo, ao mesmo tempo em que nos obrigaria a buscar uma “paz” comum que nos desse segurança, representada pelo contrato social. Ou seja, a autoridade política teria a função específica de proteger os homens uns dos outros. Sem medo não haveria governabilidade, mas o governo deveria justamente tornar a vida das pessoas livre do medo.
                                   Essa teoria de Hobbes explicaria a função do governo e, por outro lado, a obediência dos homens às leis que viriam regular as relações humanas, sempre perturbadas pelo medo que os homens têm dos próprios homens.  
                                  Mas também pude constatar que, na verdade, somos convocados a sentir medo o tempo todo.
                                  Bancos e empresas de seguro, por exemplo, usam esse argumento abertamente. Políticos espalham temores para arrebanhar votos, jornalistas faturam em cima de catástrofes, biólogos citam vírus letais quando querem obter fundos para desenvolver vacinas, e por aí vai.
                                   Até a moda e o grande e glorioso marketing se utilizam dele, só que usam mensagens mais sutis. Como nos explica o publicitário dinamarquês Martin Lindstrom, ela “joga com o medo de não pertencermos ao grupo”. "O desodorante traz outro medo, de que você não vai conseguir namorada com seu cheiro. A mesma lógica vale para xampus, branqueadores de dente e academias de ginástica. Afinal, malhamos para estar saudáveis, ou por medo de ficar flácidos?", questiona Lindstrom.
                                   Na verdade, boa parte da propaganda explora o medo da rejeição social. E esse medo nunca foi tão forte.
                                     E é interessante, que todo mundo propaga o medo. Não necessariamente por maldade ou interesse próprio. "Se eu disser que há uma doença mortal se espalhando na sala onde você está, você sairá dela mesmo sem saber se é verdade. E vai avisar as outras pessoas", diz Lindstrom.         
                                   Com tudo isso, não é de se estranhar que o medo tenha se tornado o maior problema psicológico do nosso tempo, virando parte do dia a dia de todo mundo.
                                   Segundo dados do Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA, 20,8% das pessoas têm transtorno de ansiedade, ou seja, passam o tempo inteiro com medo de alguma coisa (pois a ansiedade nada mais é do que medo antecipado, de algo que pode ou não ocorrer).        
                                    Mas, será que ter medo é tão ruim? Afinal, se olharmos sob outro ângulo, é ele que, de uma maneira ou de outra, nos move todos os dias para alguma direção.
                                    A questão é que, em uma sociedade que perde o sentido dos sentimentos diariamente, o medo se torna mais um destes nomes para uma diversidade de sensações inespecíficas, e não há uniforme especial, máscaras ou abrigos plásticos que possam nos proteger dele. Só nós mesmos podemos nos proteger dos nossos próprios medos.                            
                                   O medo, assim como a dor, tem um objetivo. É um chamado para mudar de atitude, comportamento ou pensamento, para acordarmos e nos conhecermos melhor. Ele pode nos ajudar a entender mais sobre nossas deficiências e nos forçar a encarar a realidade, o que, na verdade, é um grande presente. E admiti-lo, certamente, é o primeiro passo.
                                   Como nos resume Aaron T. Beck, psiquiatra norte-americano e professor emérito do departamento de psiquiatria na Universidade da Pensilvânia, conhecido como pai da Terapia Cognitiva, no livro The Anxiety and Worry Workbook ("O Manual da Ansiedade e da Preocupação", inédito no Brasil), "A forma como pensamos influencia a maneira como sentimos. Portanto, mudar o modo como pensamos pode mudar como nos sentimos", pode parecer banal, mas funciona e tem efeitos neurologicamente comprovados.
                                   Por exemplo: se você vai a uma entrevista de emprego e fica pensando que podem te fazer perguntas que você não sabe responder, ficará ansioso e com medo. Entretanto, se pensar que está muito bem preparado, isso certamente lhe trará tranquilidade e segurança. 
                                   Para Izabel Telles, terapeuta holística e sensitiva formada pelo American Institute for Mental Imagery de Nova Iorque, “não dá para interromper os estímulos e os acontecimentos que o mundo gera, mas podemos aprender a controlar a nossa fábrica de imagens, revertendo os hologramas aterradores, assustadores e monstruosos que a mente pode vir a criar. A neurologista Katherina Hauner, por sua vez, acredita que a exposição gradual da pessoa ao objeto ameaçador ajuda a superá-lo.
                                    O admirável Franklin D. Roosevelt, no seu discurso de posse, em 1933, declarou acreditar firmemente que ""a única coisa que temos a temer é o próprio medo".
                                   E de fato: nunca sentimos tanto medo e nunca tivemos tanto medo dele, e talvez seja mesmo essa a chave do problema e também sua grande solução. Perder o medo do medo.
                                   Há pouco tempo, soube que uma grande e querida amiga está com metastase e terá que enfrentar um tratamento bastante difícil para lutar pela vida, e  fiquei com muito medo. Por ela e por mim. Ser confrontada com a incerteza do futuro é assustador!!!
                                   Então, passeando pelos jardins da minha memória, me lembrei da minha mãe, que na minha opinião, foi a pessoa mais corajosa que conheci, e também do dia em que disse isso a ela, e ela me respondeu: - Não sou corajosa, filha. Apenas estava num barco que naufragou, e tive que sair nadando. Foi nesse dia em que aprendi o verdadeiro significado de coragem.
                                   Por tudo isso, esse post é uma singela homenagem à minha mãe e à todos os grandes nadadores da vida que conheci, que naufragaram e continuaram nadando, nadando e nadando...até o fim.
                                   À minha amiga, desejo com todas as minhas forças e meu coração, que ela continue sendo esse Michael Pelphes que ela é, e que ainda ganhe muitas e muitas outras medalhas, na sua vida afora. Até o fim.

 

 





 

terça-feira, 12 de abril de 2016

O PÓ QUE NOS UNE

                       
                            Todos nós sabemos, somos mortais. Seja por ordens da natureza, por acidente, por vontade própria ou alheia, um dia morreremos. Entretanto, muito embora essa seja a nossa única certeza, não gostamos de lembrar dela. Eu também não gosto. Longe de mim ser uma pessoa mórbida. Amo a vida. Entretanto, gostando ou não, a morte faz parte da vida de todos nós.
                            Diz a lenda, que há muito tempo, no Tibete, uma mulher viu seu filho, ainda bebê, adoecer e morrer em seus braços, sem que ela nada pudesse fazer. Desesperada, saiu pelas ruas implorando que alguém a ajudasse a encontrar um remédio que pudesse curar a morte do filho. Como ninguém podia ajudá-la, a mulher procurou um mestre budista, colocou o corpo da criança a seus pés e falou sobre a profunda tristeza que a estava abatendo. O mestre, então, respondeu que havia, sim, uma solução para a sua dor. Ela deveria voltar à cidade e trazer para ele uma semente de mostarda nascida em uma casa onde nunca tivesse ocorrido uma perda. A mulher partiu, exultante, em busca da semente. Foi de casa em casa, sempre ouvindo as mesmas respostas: - Muita gente já morreu nessa casa; -Desculpe, já houve morte em nossa família. Depois de vencer a cidade inteira sem conseguir a semente de mostarda pedida pelo mestre, a mulher voltou até ele e disse: -“O sofrimento me cegou a ponto de eu imaginar que era a única pessoa que sofria nas mãos da morte”.
                            De fato, a morte não é privilégio nem desgraça particular de ninguém. Senhora do destino, é certeira e certeza. Leva quem tem que levar e àqueles que ficam deixa a ruptura dolorosa e oferece a chance de pensar e repensar sobre a vida. Antes de sumir, lembra que irá voltar sem data marcada, e deixa a certeza que de a vida sempre continua. A vida que começa nos garantindo apenas o fim.    
                            É interessante como a história humana pode ser contada pelo modo como cada sociedade, em diferentes períodos históricos, olhou para a morte e lidou com ela.
                               Até meados do século passado, por exemplo, era costume morrer em casa, cercado por parentes. “A família reunia-se em volta do leito para ouvir a última palavra daquele que estava morrendo”.
                            Aos poucos, porém, o mundo ocidental foi transformando a morte em tabu: um fato a ser ocultado e banido das conversas cotidianas. Os doentes passaram a morrer no hospital, longe dos olhos – e, não raro, do coração – de seus amigos e parentes, com direito a rituais de luto cada vez mais rápidos e pragmáticos. Tudo aquilo que pudesse lembrá-la – a enfermidade, a velhice e a decrepitude – foi sendo escamoteado. O medo natural que todo ser humano sente diante da própria finitude virou pânico. E passamos a viver a morte calada, ignorada e ocultada entre as paredes de um hospital.
                            Entretanto, ao calarmos sobre morte, perdemos uma grande oportunidade de pensarmos sobre a vida e o tempo. E ao não dialogarmos com a dor, aos poucos vamos deixando de reconhece-la como a inimiga admirável que é, capaz de nos tornar um ser humano mais forte.    
                            Ainda bem, no século 21, a morte calada e clandestina que se estabeleceu no século 20 começa a ser colocada em xeque, passando a mostrar ares de “desavergonhada”.
                            Bom mesmo seria se a morte, depois de anunciada, acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza. Mas infelizmente, nem sempre é isso que acontece.
                            O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no nosso corpo, contra a nossa vontade, sem que possamos nada fazer, porque já não somos mais donos de nós mesmos. Então, como agir quando formos “notificados” pela natureza de que o “nosso prazo de validade ” venceu?
                             Um dia, assistia a um documentário da National Geograhic sobre a vida dos lobos, quando uma loba matou um de seus filhotes que estava mortalmente ferido. Para mim, foi como uma dura lição sobre a compaixão e a necessidade de permitir que a morte venha aos que estão morrendo.  

           Por indicação de uma amiga, também assisti ao filme de Barry Levinson, com Al Pacino, feito para a TV HBO e lançado em DVD com o título “Você não conhece JACK – A vida e as mortes por Jack Kevorkian “. Jack é um médico estadunidense de origem armênia, que logo no início de sua carreira ganhou o apelido de “Dr. Morte“. Ele inventou uma máquina – mais parecida com uma geringonça – que possibilitava aos pacientes cometer suicídio apertando um botão que liberava uma série de drogas no organismo, auxiliando as pessoas com sofrimento insuportável e que desejavam morrer, que conseguissem fazê-lo e pudessem morrer condignamente. Sua crença era de que as pessoas tinham o direito de evitar uma morte sofrida e demorada e de terminar suas vidas com a ajuda de um médico que lhes assegurasse uma morte tranquila.
                            Seria eutanásia, suicídio assistido ou morte com dignidade?                      
                             Lá nos EUA, como o direito penal é regido por leis estaduais, a tipificação desse ato era diferente entre os diversos estados da federação, o que gerou enorme polêmica sobre a atividade desse médico. Todavia, em 1993, o Poder Legislativo de Michigan baixou uma lei que tornava crime alguém fornecer conscientemente a outra pessoa os meios para cometer suicídio, e em dezembro de 1994 a Suprema Corte de Michigan declarou que essa lei era constitucional, possibilitando que Jack Kevorkian fosse processado criminalmente. Ele acabou condenado por homicídio, cumpriu pena até 2007 e no ano de 2011 faleceu, aos 83 anos de idade. Mas deixou um legado.
                            Alguns países europeus como a Holanda, Bélgica, Suíça, Luxemburgo e alguns estados dos EUA, a partir dos anos 90 legalizaram essa conduta médica que proporciona morte digna aos pacientes terminais que sofrem demais e desejam apressar sua morte.
                            Para o nosso direito penal, que vale para todo o território nacional, desde sempre, e ainda que seja a pedido do paciente, a conduta do Dr. Jack é tratada como homicídio doloso, mas privilegiado (com redução da pena).
                            E os únicos projetos de lei do Senado existentes aqui no Brasil, na atualidade, cuidam da prática da ortotanásia, que é outra coisa.
                            A ortotanásia consiste em oferecer apenas cuidados paliativos – assistência permanente, meios ordinários e medicamentos possíveis – àqueles pacientes terminais, que se recusam a receber tratamentos médicos extraordinários e tratamentos invasivos que prolonguem sua vida em condições precárias. Por exemplo, sejam ligados a máquinas.
                             Mesmo ainda sem a existência de lei, esse procedimento foi regulamentado pelo CFM – Conselho Federal de Medicina – em novembro de 2006, e só pode ser realizado quando não é mais possível a cura do paciente, desde que mediante autorização do próprio paciente ou de sua família, no caso de incapacidade do primeiro. A morte do papa João Paulo II é um dos exemplos mais conhecidos de ortotanásia. E no Brasil, Mário Covas também optou por isso.
                            Em 2012, também o Conselho Federal de Medicina baixou a polêmica Resolução n 1995, que instituiu as Diretivas Antecipadas de Vontade, também conhecida como Testamento Vital, que autoriza que os pacientes decidam, prévia e expressamente, a quais cuidados e tratamentos querem ser submetidos no final de suas vidas, quando estiverem incapacitados de expressar livre e autonomamente suas vontades.
                            Entretanto, ainda continuamos indiferentes, impedindo qualquer auxílio médico que venha proporcionar morte digna aos que sofrem dores lancinantes ou humilhações e desejam morrer. E seguimos vivendo a nossa própria vida, sem o  direito de morrermos a nossa própria morte. 
                            Obviamente, esse assunto envolve questões dificílimas, relativas a afetos, respeito à dignidade das pessoas e crenças religiosas. Mesmo assim, é preciso encará-lo de frente e com coragem.
                            Não dá mais para vivermos a morte “envergonhada” ou “clandestina” que se estabeleceu no século 20, solitária, onde ninguém tem coragem ou palavras para falar sobre a morte, nem o próprio doente. Onde as pessoas continuam perguntando o que mais os médicos podem fazer por ela, na esperança de vencerem a doença, mas sem tempo para se despedirem de ninguém e sem permitir que se despeçam dela. E as famílias, desesperadas, só pensam em fazer tudo e de tudo para estender a vida a qualquer custo, como se todos – médicos, familiares e doente - tivessem o dever de fazer todo o possível para que a vida continue, sem dar ouvidos ao pedido que a vida está fazendo e sem nem mesmo escutar aquele que vive o seu morrer.
                            Quando se espera que a ciência prolongue a vida a qualquer preço e a juventude torna-se um valor em si, só resta à morte se tornar um fracasso a ser escamoteado. Entretanto, ao não reconhecermos nossa finitude, nos desumanizamos. Não somos mercadorias e não podemos aceitar ser no final da vida.
                             Por isso, mesmo com toda a dor, os sentimentos ambíguos, conflitos e contradições que a povoam, precisamos sim, falar sobre a morte. Principalmente, precisamos discutir a morte publicamente. Está mais do que na hora de nos reconciliarmos com ela.
                            E cá entre nós: reconhecer a nossa finitude e lembrar do pó que nos une, sempre nos leva a  reordenar nossos valores, o que nos faz  pessoas melhores.
                            Como um sopro de inspiração e para reflexão, deixo aqui registrada a carta de despedida, escrita pelo neurologista e escritor Oliver Sacks, ao descobrir, após uma biópsia, que possuía uma metástase grave no seu fígado.
                            Com o título de “Minha própria vida”, Oliver Sacks - um dos pensadores mais interessantes do nosso tempo- faz uma linda declaração de amor à vida e nos conta sobre o seu morrer. E,  com extrema delicadeza, nos lembrar que a largura da vida é muito mais importante que o seu comprimento.
"Há um mês, eu sentia que estava em boas condições de saúde, robusto até. Aos 81 anos, ainda nado uma milha por dia. Mas a minha sorte acabou – há algumas semanas, descobri que tenho diversas metástases no fígado. Nove anos atrás, encontraram um tumor raro no meu olho, um melanoma ocular. Apesar da radiação e os lasers que removeram o tumor terem me deixado cego deste olho, apenas em casos raríssimos esse tipo de câncer entra em metástase. Faço parte dos 2% azarados.
Sinto-me grato por ter recebido nove anos de boa saúde e produtividade desde o diagnóstico original, mas agora estou cara a cara com a morte. O câncer ocupa um terço do meu fígado e, apesar de ser possível desacelerar seu avanço, esse tipo específico não pode ser destruído.
Depende de mim agora escolher como levar os meses que me restam. Tenho de viver da maneira mais rica, profunda e produtiva que conseguir. Nisso, sou encorajado pelas palavras de um dos meus filósofos favoritos, David Hume, que, ao saber que estava terminalmente doente aos 65 anos, escreveu uma curta autobiografia em um único dia de abril de 1776. Ele chamou-a de “Minha Própria Vida”.
“Estou agora com uma rápida deterioração. Sofro muito pouca dor com a minha doença; e, o que é mais estranho, nunca sofri um abatimento de ânimo. Possuo o mesmo ardor para o estudo, e a mesma alegre companhia de sempre.”
Tive sorte de passar dos oitenta anos. E os 15 anos que me foram dados além da idade de Hume foram igualmente ricos em trabalho e amor. Nesse tempo, publiquei cinco livros e completei uma autobiografia (um pouco mais longa do que as poucas páginas de Hume) que será publicada nesta primavera; tenho diversos outros livros quase terminados.
Hume continua: “Eu sou… um homem de disposição moderada, de temperamento controlado, de um humor alegre, social e aberto, afeito a relacionamentos, mas muito pouco propenso a inimizades, e de grande moderação em todas as minhas paixões.”
Aqui eu me distancio de Hume. Apesar de desfrutar de relações amorosas e amizades e não ter verdadeiros inimigos, eu não posso dizer (e ninguém que me conhece diria) que sou um homem de disposições moderadas. Pelo contrário, sou um homem de disposições veementes, com entusiasmos violentos e extrema imoderação em minhas paixões.
E ainda assim, uma linha do ensaio de Hume me toca como especialmente verdadeira: “É difícil”, ele escreveu, “estar mais separado da vida do que eu estou no presente.”
Nos últimos dias, consegui ver a minha vida como a partir de uma grande altitude, como um tipo de paisagem, e com uma sensação cada vez mais profunda de conexão entre todas as suas partes. Isso não quer dizer que terminei de viver.
Pelo contrário, eu me sinto intensamente vivo, e quero e espero, nesse tempo que me resta, aprofundar minhas amizades, dizer adeus àqueles que amo, escrever mais, viajar se eu tiver a força, e alcançar novos níveis de entendimento e discernimento.
Isso vai envolver audácia, clareza e, dizendo sinceramente: tentar passar as coisas a limpo com o mundo. Mas vai haver tempo, também, para um pouco de diversão (e até um pouco de tolice).
Sinto um repentino foco e perspectiva nova. Não há tempo para nada que não seja essencial. Preciso focar em mim mesmo, no meu trabalho e nos meus amigos. Não devo mais assistir ao telejornal toda noite. Não posso mais prestar atenção à política ou discussões sobre o aquecimento global.
Isso não é indiferença, mas desprendimento – eu ainda me importo profundamente com o Oriente Médio, com o aquecimento global, com a crescente desigualdade social, mas isso não é mais assunto meu; pertence ao futuro. Alegro-me quando encontro jovens talentosos – até mesmo aquele que me fez a biópsia e chegou ao diagnóstico de minha metástase. Sinto que o futuro está em boas mãos.
Nos últimos dez anos mais ou menos, tenho ficado cada vez mais consciente das mortes dos meus contemporâneos. Minha geração está de saída, e sinto cada morte como uma ruptura, como se dilacerasse um pedaço de mim mesmo. Não vai haver ninguém igual a nós quando partirmos, assim como não há ninguém igual a nenhuma outra pessoa. Quando as pessoas morrem, não podem ser substituídas. Elas deixam buracos que não podem ser preenchidos, porque é o destino – o destino genético e neural – de cada ser humano ser um indivíduo único, achar seu próprio caminho, viver sua própria vida, morrer sua própria morte.
Não posso fingir que não estou com medo. Mas meu sentimento predominante é de gratidão. Amei e fui amado; recebi muito e dei algo em troca; li, viajei, pensei e escrevi. Tive uma relação com o mundo, a relação especial de escritores e leitores.
Acima de tudo, fui um ser senciente, um animal pensante nesse planeta maravilhoso e isso, por si só, tem sido um enorme privilégio e aventura.”
 
 

 

 

segunda-feira, 14 de março de 2016

MULHER x (mulher)


                        “Vamos lá: levantem o braço com vontade! Nada de meio bracinho encolhido! Vocês têm que mostrar energia, decisão!!
                        Se você pensou que isso é uma aula de pilates ou uma sessão de aeróbica, errou. Trata-se, na verdade, de uma aula sobre a arte de pedir (e obter) a palavra em público, parte de um projeto que vem sendo realizado desde 2010, pela prestigiada Harvard Business School, nos Estados Unidos, a jovens estudantes inscritas no programa de equidade de gênero, com o intuito de diminuir o gap de desempenho entre estudantes homens e mulheres.
                        O objetivo da atividade? Incentivar a participação feminina nas discussões em classe, responsável por 50% da media final das notas, algo visto como uma dificuldade para elas.
            A iniciativa foi de Drew Gilpin Faust, a primeira presidente mulher de Harvard, após constatar, através de um levantamento histórico dos registros da Universidade, que muito embora calouros de ambos os sexos ingressem naquela universidade com notas e qualificação equivalentes, vão se distanciando ao longo do curso – sempre em favor dos meninos.
                        Visando reverter esse quadro, ela propôs a criação desse programa de equidade de gênero, buscando não só melhorar o desempenho das mulheres em Harvard, mas também capacitá-las para que cheguem à liderança das empresas e em pé de igualdade ao mercado de trabalho com os homens.
                        De acordo com um balanço realizado com a turma de 2013, com o programa houve um aumento significativo das notas das meninas, que concluíram o curso com um número recorde de prêmios acadêmicos e distinções de excelência.
                        Tenho que confessar que quando soube da existência desse programa através de um texto escrito por Cynthia de Almeida, para a revista Claudia, fiquei surpresa. Como assim, as meninas de Harvard, que estão bem longe de ser estudantes medianas ou inseguras e que passaram por um dos mais disputados funis acadêmicos, teriam dificuldade de erguer o braço e participar?             
                           Fiquei muito tempo pensando sobre isso, e de repente, lendo um lindo texto de uma amiga sobre sua história com o Ministério Público, me deparei com a crônica "Mulher entre Parênteses", escrita por Martha Medeiros em 2011 para o Jornal Zero Hora, que até então não conhecia. A crônica fala da mulher boazinha, agradável e insignificante, que não dá opinião, com medo de desagradar. Fala daquela mulher que, mesmo independente financeiramente, tem amarras emocionais que a aprisionam sem cela. Daquela que leva a vida pela metade.
                              Como uma flecha, essa história me remeteu aos ensinamentos da minha mãe e de tantas outras mães que buscam criar as filhas dentro do mais alto e rigoroso padrão social : - Comporte-se;  - Não se mexa tanto; - Não crie confusão;  - Menina bonita não fala alto e não fica chamando a atenção;  – Não questione tanto, é muito feio!! 
                          E as coisas começaram a fazer sentido.  Já não estava mais tão surpresa com o programa de equidade de gênero realizado por Harvard.
                         Então, me lembrei de Virgínia Woolf, que em 1928, no período pós-guerra, escreveu um ensaio sobre a mulher e a literatura e de um jeito poético, ainda que cruel, passeou pelos problemas que, naquele tempo, as mulheres enfrentavam para além da sua literatura (como o fato de que não podiam frequentar faculdades, guardar dinheiro, empreender qualquer que fosse um negócio, etc.).
                        Em “Mulheres e ficção”, Virginia teceu um panorama histórico sobre a escassez de mulheres escritoras, sobre as dificuldades por elas enfrentadas, e sobre como esse cenário começava a dar sinais de mudança. Ao final, chega mesmo a vaticinar: “[…] as mulheres do futuro escreverão menos, mas melhores romances; e não apenas romances, mas também poesia e crítica e história. Ao dizer isso, por certo olhamos à frente, para aquela era de ouro e talvez fabulosa em que as mulheres terão o que por tanto tempo lhes foi negado - tempo livre e dinheiro e um quarto só para si.”
                        E refletindo, percebi que mais de oito décadas depois, muitas coisas mudaram, mas nem tanto. Hoje já podemos votar, frequentar faculdades, entrar em bibliotecas, ter dinheiro no banco e até montar nosso próprio negócio. Não estamos mais dependentes incondicionais de um bom casamento, podemos inclusive nem nos casar e já temos alguma liberdade para decidir entre ter ou não ter filhos, mas ainda temos dificuldade de falar e escrever, relatar e registrar nossas experiências. 
                        Eu sei que escrever é difícil para todo mundo – tanto para homens quanto para as mulheres – mas as vozes masculinas são muito mais presentes. Ainda há pouca gente falando para mulher, sobre mulher, com a mulher. Na maioria das vezes ainda é um homem escrevendo sobre questões nossas.
                       Clarice Lispector, quando tentou, foi taxada de mulher louca. E dia desses, li que J.K Rowling, escritora de Harry Potter, foi aconselhada a abreviar seu nome quando entrou no mercado, para chamar a atenção dos meninos para a sua saga.
                        Na maior parte dos livros as personagens femininas não são as principais – e, quando o são, em geral elas estão chorando por homens. Nos livros de aventura, épico ou fantasia, com personagens femininas em primeiro plano, geralmente elas são masculinizadas para ter um alcance de mercado maior.
                        Os romances estão entrelaçados por nossas fragilidades. Mas raramente pelos motivos com que nossas fragilidades foram criadas. Muito pouco se fala que trocamos de roupa várias vezes antes de colocar nossos pés fora de casa, porque temos que estar belas, mas de forma que não chame a atenção, muito menos desperte a libido. Que trabalhamos muito, para ganhar menos. Que encontramos namorados machistas que querem nos controlar. Das vezes em que somos caladas por homens a nossa volta, com ou sem a consciência deles. De que mulher nas ciências exatas quase não existe e se existe tem que dar um duro danado para chegar em algum lugar. De que mulher nas ciências humanas ainda produz bem pouco de interessante para a academia.
                        Ninguém fala como é a vida de uma mulher que apanha e tenta se livrar do marido. E da que não consegue se livrar do marido, por qualquer que seja a razão (afinal, se ela está com ele é porque gosta de apanhar – como se alguém em sã consciência gostasse de apanhar!!!). Ninguém quer entender como funciona o sistema de aborto clandestino. Porque é sempre mais fácil jogar tudo para debaixo do tapete.
                    Fomos por tanto tempo silenciadas que ao longo do tempo silenciamos, e seguimos preferindo a elegância do silêncio à eloquência.
                        Continuamos mulheres entre parênteses, presas aos estereótipos e às amarras sociais que nos tolhem.
                        A questão, entretanto, é que o silêncio preserva, mas não promove mudanças. Impossível o debate de ideias sem o sacrifício do silêncio.
                        Como banir rótulos? Como mudarmos o nosso próprio pensamento machista, que nos foi incutido desde sempre pela sociedade em que vivemos? Como nos identificarmos, assim como nossas dificuldades e nossas necessidades? Como chegarmos à liderança, sem nos tornarmos eloquentes?
                        A representatividade de nossa luta diária – nas ruas, no trabalho, nos espaços sociais aumentou, é verdade, mas continua baixa.       
                        De repente, me lembrei do quanto fiquei feliz ao saber da existência da campanha “Ban Bossy”, que contou com a participação de Beyoncé, Jane Lynch, Alicia Keys e Jennifer Garner, entre outras, para encorajar a ambição feminina, através do banimento de rótulos, e o programa de equidade de gênero realizado por Harvard passou a fazer todo o sentido.
                        Como explica Beyoncé: - Quando um rapaz se afirma, ele é chamado de "líder"; contudo, quando uma menina faz o mesmo, ela arrisca-se a ser marcada de "mandona", “autoritária”, palavras que trazem incutidas a ideia de que não devemos levantar a mão, não devemos falar mais alto e nos afastam dos anseios de liderança — uma tendência que continua na vida adulta.
                        “Sejam corajosas!” incentiva a campanha. "Há que reconhecer as muitas maneiras com que se desencoraja, sistematicamente, a liderança nas meninas desde tenra idade – ao invés disso, precisamos incentivá-las," diz a COO do Facebook, Sheryl Sandberg.
                        "Eu não sou mandona - eu sou o chefe" ("I'm not bossy – I'm the boss"), conta Beyoncé no vídeo.
                          Para mais informações é só acessar www.banbossy.com
                        Então, finalmente minha surpresa com o programa de Harvard acabou e conclui que ainda bem, sempre é tempo para ensinarmos e aprendermos a levantar a mão.                      
                        Para quem não conhece ou ainda não teve a oportunidade de ler a crônica de Martha Medeiros, segue abaixo:

“Uma mulher entre parênteses

Tinha algo a dizer, mas jamais aos gritos, jamais com ênfase, jamais invocando uma reação.
Era como ela catalogava as pessoas: através dos sinais de pontuação. Irritava-se com as amigas que terminavam as frases com reticências... Eram mulheres que nunca definiam suas opiniões, que davam a entender que poderiam mudar de ideia dali a dois segundos e que abusavam da melancolia.
Por outro lado, tampouco se sentia à vontade com as mulheres em estado constante de exclamação. Extra, extra! Tudo nelas causava impacto! Consideravam-se mais importantes do que as outras! Ela, não. Ela era mais discreta. A mais discreta de todas.
Também não era do tipo mulher dois pontos: aquela que está sempre prestes a dizer uma verdade inquestionável, que merece destaque. Também não era daquelas perguntadeiras xaropes que não acreditam no que ouvem, não acreditam no que veem e estão sempre querendo conferir se os outros possuem as mesmas dúvidas: será, será, será? Ela possuía suas interrogações, claro, mas não as expunha.
Era uma mulher entre parênteses.
Fazia parte do universo, mas vivia isolada em seus próprios pensamentos e emoções.
Era como se ela fosse um sussurro, um segredo. Como uma amante que não pode ser exibida à luz do dia. Às vezes, sentia um certo incômodo com a situação, parecia que estava sendo discriminada, que não deveria interagir com o restante das pessoas por possuir algum vírus contagioso.
Outras vezes, avaliava sua situação com olhos mais românticos e concluía que tudo não passava de proteção. Ela era tão especial que seria uma temeridade misturar-se com mulheres óbvias e transparentes em excesso. A mulher entre parênteses tinha algo a dizer, mas jamais aos gritos, jamais com ênfase, jamais invocando uma reação. Ela havia sido adestrada para falar para dentro, apenas consigo mesma.
Tudo muito elegante.
Aos poucos, no entanto, ela passou a perceber que viver entre parênteses começava a sufocá-la. Ela mantinha suas verdades (e suas fantasias) numa redoma, e isso a livrava de uma existência vulgar, mas que graça tinha?
Resolveu um dia comentar sobre o assunto com o marido, que achou muito estranho ela reivindicar mais liberdade de expressão. Ora, manter-se entre parênteses era um charmoso confinamento. “Minha linda, você é uma mulher que guarda a sua alma."
Um dia ela acordou e descobriu que não queria mais guardar a sua alma. Não queria mais ser um esclarecimento oculto. Ela queria fazer parte da confusão.
“Mas, minha linda...” E não quis mais, também, aquele homem entre aspas.”

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

HOLOCAUSTO BRASILEIRO

                                             ESCRITO POR ANNATROTTAYARYD
  Para alguns, o nome Holocausto Brasileiro pode parecer, à primeira vista, algum tipo de hipérbole marqueteira, mas não é. Trata-se, na realidade, de um importante livro-reportagem de autoria da jornalista Daniela Arbex, que resgata do esquecimento um dos capítulos mais macabros da nossa história: a barbárie e a desumanidade praticadas, durante a maior parte do século XX, no maior hospício do Brasil, conhecido por Colônia, onde, com a conivência de médicos, funcionários e da própria sociedade, o Estado violou, matou e mutilou dezenas de milhares de internos.
  Ironicamente, ou talvez não, tal qual os habitantes dos campos nazistas, os internos do Colônia eram enviados para lá por trens, os “trens de doido”, como eram chamados regionalmente, a partir de expressão criada por Guimarães Rosa.  Eram epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, tímidos, meninas grávidas violentadas por seus patrões, gente que se sentia triste, gente que se rebelava ou apenas gente que incomodava alguém com mais poder, a maioria sem qualquer diagnóstico médico.  Também havia crianças transferidas do Hospital de Neuropsiquiatria Infantil, em Oliveiras, MG, todos ali largados à própria sorte, sem qualquer projeto terapêutico ou acesso à educação formal ou informal. 
  Ao chegar, perdiam seus bens, seus nomes, seus vínculos, sua voz e sua dignidade. Viviam nus, comiam ratos, bebiam água do esgoto, dormiam ao relento, eram espancados. Nas noites geladas, cobertos por trapos, morriam de frio. Como a morte simbólica se dava na ocasião da internação, a morte física mal era notada. Entre 1968 e 1980 essa fábrica de mortes se deu conta do valor de mercado dos cadáveres dos sujeitos que, quando vivos, nada valiam; 1823 corpos foram vendidos para suprir 17 faculdades de Medicina em todo o país. Ao menos 30 bebês foram “sequestrados” e “adotados” por “famílias de bem”.
  Transformando em palavras o que era silêncio e devolvendo nome, história e identidade àqueles que até então eram invisíveis de todos nós, o livro Holocausto Brasileiro dói e assusta ao mostrar as vítimas da violência dos normais. E, ao expor e resgatar com veemência o lado sombrio dos hospícios e o uso do poder arbitrário pelas autoridades, tantas vezes convertido em completo abuso e descaso, nos faz estremecer.
  Nas fotografias, o livro mantém vivo o passado recente, escancara a miséria humana e compartilha conosco o sofrimento das pessoas que resistiram e sobreviveram.         
  Para quem não sabe, a prática alienante e degradante do “Hospital Psiquiátrico Colônia” foi mantida até o início da década de 1980, quando a redemocratização gradual do país levantou a cortina de ferro que o protegia, indignando a opinião pública, que exigiu mudanças efetivas. A figura mais ilustre a emprestar seu prestígio e força política na denúncia do “Hospital Psiquiátrico Colônia” foi o psiquiatra italiano Franco Basaglia, teórico da Reforma Psiquiátrica, que levou à abertura de todos os manicômios daquele país, em 1973. Ele veio ao Brasil em 1979 para uma série de palestras, oportunidade em que o psiquiatra mineiro Antônio Soares Simone o convidou para visitar uma série de hospitais públicos daquele Estado, dentre eles, o “Colônia”.
    No final de sua visita, Basaglia convocou uma coletiva de imprensa e denunciou as condições desumanas do hospital, comparando-o a um campo nazista.  Esta entrevista teve forte repercussão nacional e internacional e não pode ser abafada.  Mesmo assim, Simone sofreu processo dos hospitais visitados e correu o risco de ter seu diploma cassado pelo CRM. 
  A repercussão desta denúncia aumentou a pressão sobre o poder público e ficou mais difícil impedir novas visitações, o que possibilitou a realização das reportagens de Hiram Firmino no “Estado de Minas” e do filme Em Nome da Razão, de Helvécio Ratton. Estes trabalhos deram condições políticas para a Luta Antimanicomial e para a organização da Reforma Psiquiátrica brasileira, que definiu novas diretrizes para a Saúde Mental, superando o modelo manicomial que perdurava desde a era Vargas, num importante esforço de redemocratização do país. 
   Essa história, entretanto, ainda não acabou.  A vistoria nacional realizada em 2004 pelo Conselho Federal de Psicologia em parceria com o Conselho Federal da OAB contabilizou 28 instituições com internos em condições degradantes, altos índices de óbitos, cárceres e instrumentos de coerção e tortura. Em nova vistoria realizada em 2011, constatou-se a permanência de maus tratos e violação dos direitos humanos tanto em hospitais quanto em Comunidades Terapêuticas.
     Certamente o respeitar o diferente, o aprender com o estranho e o tolerar os outros representam grandes desafios para o gênero humano e para qualquer sociedade que deseja o progresso e o desenvolvimento real.
  Mas o que vimos durante anos, foram soluções mais fáceis, no sentido de segregar aqueles que são diferentes, afastar outros que fogem ao padrão estabelecido, a fim de proteger o conjunto de crenças consolidadas para manutenção do estado de coisas existente.
  Essas atitudes separatistas e distintivas entre seres humanos, porém, nunca aparentaram ser efetivamente positivas para o gênero humano. Excluir aqueles que são supostamente diferentes, apenas pelo mero fato de que não compartilham de um mesmo padrão mental, representa uma atitude odiosa de sociedades excludentes e preconceituosas.
     Evidente que existe o outro lado, de onde é possível fazer também um relato tão chocante e tocante, mostrando loucos que desgraçaram a vida de inocentes, que infernizaram suas famílias, que mataram ou se suicidaram, livres das amarras dos hospícios. Por isso, não consigo endossar a visão romântica de Foucault, autor de A história da loucura, que pretendia soltar todos os ‘malucos’ pelo mundo. 
     Concordo que há diagnóstico em excesso no mundo moderno, que qualquer variação de comportamento é logo vista como doença tratável à base de remédios ou até internação. Mas será que, então, a loucura é um mito? Será que, caso exista, ela pode ser sempre tratada de forma branda, em CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) e Serviços Residenciais Terapêuticos, sob responsabilidade única das famílias e vontade própria do doente? Minha experiência me diz que não, e que minimizar os riscos que esses doentes representam para si próprios e para terceiros é perigoso. Em muitos casos, ainda que extremos, a internação compulsória pode ser a única forma de salvá-los, ou proteger os demais.
     Claro que tenho medo dos ‘Simões Bacamarte’ - personagem de O Alienista, de Machado de Assis -  que acreditando ser o único detentor da razão, constatou que todos na cidade eram loucos, trancafiando-os na Casa Verde. Lá no final, porém, percebeu que o louco era ele mesmo, soltou todos e se prendeu sozinho no hospício.
      Por isso, devemos lutar a todo custo contra a arbitrariedade e o abuso de poder das autoridades. Assim como o livro acima mencionado, o filme A Troca, com Angelina Jolie, relata um caso verídico, entre tantos, do mal que isso pode causar a inocentes. Mas também não dá para dizer que no mundo são todos “malucos beleza”, como na música de Raul Seixas.
      Existem pessoas com transtornos mentais, dependentes de álcool e drogas perigosos sim, que colocam em risco a própria vida e a vida de terceiros e precisam de tratamento e de internação, e existem casos em que não há tratamento.
       Por isso, penso que nessa história, ainda precisamos achar o caminho do meio. Não são questões fáceis, por isso desconfio de respostas muito enfáticas e definitivas. Também não sou eu a detentora das respostas.
        Reconheço que a luta antimanicomial serviu para jogar luz sobre as trevas desses “hospitais” desumanos, mas realmente não consigo ir ao limite pregado por Foucault ou Szasz, de “liberar geral”, ou mesmo suspender o critério minimamente objetivo acerca da existência da loucura. Isso sim, para mim, parece coisa de maluco!
          Penso que um bom avanço seria conseguir nos livrarmos do pré-conceito que desumaniza os portadores de doença mental e nos faz entender a internação como a história inteira, quando na realidade ela é apenas uma parte da história, um momento e não um destino. Isso, por si só, já nos permitiria escrever uma nova história, com outro final.
        Porque se há alguma razão na “loucura”, em doses leves, há muita loucura na razão “absoluta.
      E para aqueles que estão pensando se advogo em causa própria? Minha resposta é:
- Talvez....