quarta-feira, 28 de maio de 2014

INSEGURANÇA E BARBÁRIE


     Numa sociedade sob o império econômico e sob o domínio do medo, da insegurança e do egoísmo, o que se observa por entre os escombros de civilidade que ainda restam é um mundo cada vez menos humano e mais bárbaro.
     Um jovem, acusado de assalto, é acorrentado nu a um poste com uma trava de bicicleta e tem sua orelha cortada, no Rio de Janeiro. Outro ladrão é acorrentado em Itajaí - Santa Catarina. Em Goiânia, um adolescente é espancado pela população após um furto. Em Teresina - Piauí, um suspeito de assalto é amarrado e tem seu rosto posto em um formigueiro. No interior de Minas Gerais, um rapaz de dezoito anos, foi amarrado a um poste e açoitado com fios de energia elétrica pela população.
     E a “justiça com as próprias mãos” não para. Nos últimos dois meses três pessoas inocentes foram assassinadas em “linchamentos coletivos”, acusadas de crimes não comprovados. Alailton Ferreira e Marcelo Pereira da Silva foram mortos em espancamentos coletivos, acusados de estupro. E o caso mais recente é o do Guarujá, onde Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, foi espancada até a morte pela população, depois de ter sido identificada como a suposta sequestradora de crianças sacrificadas em rituais de “magia negra’ em retrato falado da página de notícias do Facebook ‘Guarujá Alerta’.
     Sem investigações, sem leis, sem direitos, nem humanos. Apenas julgamentos súbitos praticados por indivíduos engolfados em sua razão e dominados pela vontade coletiva irracional de ódio, praticados em verdadeiros rituais de vingança e desumanização daqueles cuja conduta é socialmente imprópria, aos quais não é dado tempo nem oportunidade para provar ou não a sua inocência.
     Assistimos atônitos à onda crescente de barbárie e nos comovemos com tamanha brutalidade, preocupados com o retrocesso civilizatório. Sabemos que eles não são os primeiros e fatalmente não serão as últimas vítimas, nem da violência, nem do descaso nem da ignorância. Mesmo assim, a indignação não vem.
     A desigualdade que se perpetua no concreto da vida cotidiana e que começa e persiste na cabeça de cada um, legitima a ideia de que a vida de uns vale menos do que a de outros, de que a vida dos mesmos de sempre vale menos do que a dos mesmos de sempre. No país das indignações seletivas, onde a tortura é consentida, temos por hábito aplaudir soluções arbitrárias contra um caos legitimado.
     Afinal, o Estado é omisso. A polícia é desmoralizada. A Justiça é falha. São todos marginais e também vagabundos. Não podemos mais conviver com a impunidade. No fundo, o Brasil que pede direitos humanos apenas para humanos direitos se sente vingado.
     E é muito mais fácil dividir o mundo entre bons e maus, mocinhos e bandidos e transformar os problemas humanos em problemas dos políticos e dos donos do poder econômico, e não de todos nós.
     Assim esquecemos o óbvio em nome da conveniência. E motivados pelo discurso do medo e da insegurança nos permitimos perder a única coisa que nos diferencia no mundo animal – a razão - para nos tornarmos o pior e mais cruel lobo de nós mesmos.
     O problema é que é justamente nesse eixo entre o bem o e mal que giram os preconceitos, as discriminações, os arbítrios, as violências públicas. E é exatamente essa visão maniqueísta que permite que o nosso país continue dividido entre aqueles que são cidadãos e têm direitos e aqueles que não têm nenhum direito.
     Naturalmente o instinto de preservação da espécie se transmuda em preservação apenas dos humanos bons, geralmente pertencentes ao clico econômico mais qualificado, assemelhados ora por certas características genéticas comuns, ora pela posse de certos signos do pertencimento, para nos tornarmos estranhos entre os iguais.
     Mas se olharmos atentamente, veremos que na sua essência, o que os linchamentos praticados sugerem é um quadro de mudanças sociais patológicas, na medida em que, nos recantos escuros de um cenário urbano que se expande deteriorado, representam a afirmação de valores negativos, que não se inserem no elenco de concepções positivas a respeito da constituição da humanidade do homem, com respeito aos procedimentos legais, institucionais e racionais de aplicação da justiça, da liberdade, responsabilidade e cidadania.
     Nesse contexto também não podemos esquecer nossas raízes históricas que fazem com que as maiores vítimas de violência no Brasil sejam os negros e pobres. Muito menos podemos fechar os olhos para o cenário de urbanização inconclusa que vivemos, insuficiente, patológica e excludente, de relações sociais essencialmente mediadas por privações.
     É preciso urgentemente nos olharmos no espelho com coragem suficiente para encarar a face feia da natureza humana e pararmos de pedir vingança contra o mal por nós mesmos causado.
     Porque somente assim podermos enxergar apenas “nós” na humanidade, e não “nós” como algo contraposto a “eles”.
     Em termos jurídicos, a condição de humanidade decorre, em essencial medida, da vida em sociedade, mais especificamente, da teia de comunicações que os seres humanos, nas suas relações sociais, mantêm ou podem manter com outros seres humanos. Assim, não faz qualquer sentido buscar compreender a dignidade da pessoa humana numa imagem de ser humano como ser isolado de tudo o mais, com base numa filosofia que tem a pretensão de interpretar o homem despido de sua socialidade, como coisa-bastante-em-si.
     A dignidade não reside apenas na pessoa, mas também e principalmente na interação entre pessoas. O respeito, como bem disse Chaplin, no seu excepcional discurso final de “O Grande Ditador”: “O reino de Deus está dentro do homem — não de um só homem ou grupo de homens, mas de todos os homens.”
     Por isso, que possamos seguir em frente, levando conosco uma única certeza: que o futuro da humanidade depende da intensidade da humanidade.
Pronto falei.
     Esse texto foi publicado hoje (28/05/2014) no site do Correio da Cidadania.

domingo, 4 de maio de 2014

GENTILEZA: UM DETALHE QUE FAZ TODA A DIFERENÇA



            Impossível falar de gentileza sem fazer referência ao Profeta Gentileza. Você já ouviu falar dele?
José Datrino era um empresário, dono de uma transportadora de cargas no Rio de Janeiro, que se viu sacudido por um acontecimento de grande força trágica: o incêndio de um grande circo na cidade de Niterói, que matou várias pessoas. Deixou tudo que possuía para viver uma missão na Terra, assumindo uma nova identidade. Passou, então, a ser um cavaleiro andante, em plena cidade contemporânea, a conduzir seu estandarte cheio de apliques, metendo-se pelos lugares para levar palavras e atitudes gentis.  Como patrimônio histórico, deixou 55 painéis nas pilastras dos viadutos cariocas com suas “palavras de gentileza”.
            Foi internado três vezes, como "maluco, débil mental". No pátio do manicômio, os enfermos ficavam todos à sua volta, ouvindo sua pregação. De volta às ruas, sua figura singular passou a atrair toda sorte de atenção. Aos que o apontavam na rua, como maluco, ele dizia: "maluco pra te amar, louco pra te salvar".  "Seja maluco, mas seja como eu, maluco beleza, da natureza, das coisas divinas."


 
           Um homem que, de tanto caminhar pelas ruas com sua túnica branca e barba longa “pregando” a gentileza, acabou conhecido como “Profeta Gentileza".

              Eu fiquei sabendo de sua existência apenas em 2009, quando ele foi interpretado pelo ator Paulo José, na novela Caminho das ìndias, de autoria de Glória Perez. Curiosa, fui atrás de sua história. Ganhei o dia e desde então, jamais o esqueci.
             Profeta Gentileza. Um grande homem, com um grande legado, que passou a maior parte de sua vida pregando a gentileza como um modo de existir. Um pouco maluco, meio folclórico e um tanto extraordinário, como todo profeta, Gentileza denuncia e anuncia.
            Denuncia este mundo, regido “pelo capeta capital que vende tudo e destrói tudo”. Vê no circo destruído uma metáfora do circomundo que também será destruído. Mas anuncia: “gentileza é o remédio para todos os males. Deus é Gentileza porque é Beleza, Perfeição, Bondade, Riqueza...a Natureza”. E, com um refrão sempre às voltas, especialmente nas 56 pilastras com inscrições, na entrada da rodoviária Novo Rio no Caju prega ao mundo: “Gentileza gera gentileza, amor”.
            Um homem que, ao dar algo que ninguém pediu, sem querer nada em troca, fez toda a diferença nas vizinhanças do Caju. E que só sendo, suavemente, foi pondo abaixo a lógica do mundo, para nos mostrar, nas plavras de Leonardo Boff, "que a crítica da modernidade não é monopólio dos grandes mestres do pensamento acadêmico como Freud, com seu O mal estar da civilização ou a Escola de Frankfurt com Horkheimer e o seu O Eclipse da razão, ou mesmo Habermas, com Conhecimento e Interesse, mas pode ser também de um grande e certeiro representante do pensamento popular e cordial."
            Em 1980, o Profeta Gentileza virou tema de música do Gonzaguinha, e nos anos 1990, da Marisa Monte, em duas canções que levam o nome Gentileza.  
            E também virou tema de livro: Brasil: Tempo de Gentileza, do professor Leonardo Guelman, publicado em 2000, pela EDUFF, ricamente ilustrado com inúmeras fotografias, principalmente do profeta e de seus penduricalhos e painéis.

            Para quem quiser saber mais sobre a sua história é só acessar:         
                       http://www.riocomgentileza.com.br/index-2.html.

            E para quem quiser ouvir as músicas em sua homenagem:
              https://www.youtube.com/watch?v=dNIR7qNgFLA
              https://www.youtube.com/watch?v=mpDHQVhyUrY


            Certamente você, assim como eu, já teve a oportunidade de conhecer, vida afora, pessoas tão gentis quanto inesquecíveis.
            Eu, por exemplo, sempre me lembro de um rapaz, deficiente físico, que ficava na esquina da República do Líbano. Sem as pernas, de cima de um skate, ele gritava logo cedo para todos aqueles que por ali passavam: “- Bom dia, minha gente. Gente bonita. Tenham um dia maravilhoso.” Além de tornar o meu dia melhor, ele sempre me fazia prometer nunca reclamar da vida.
            Lembro-me também, de uma ascensorista do Fórum João Mendes que falava como uma aeromoça e, entre um andar e outro, nos fazia viajar para diversas cidades do Brasil e do Mundo. Ao final, agradecia a companhia e desejava a todos um ótimo dia. Tamanha era a sua espiritualidade e gentileza, que na maioria das vezes acabava aplaudida. Não havia quem não saísse do elevador com um franco sorriso no rosto.
            Também me lembro de muitos outros, que não seria o caso de relacionar aqui, mas que com um sorriso, um bom dia, um elogio sincero, uma ajuda inesperada, um pequeno gesto, tornaram o meu dia mais feliz.
            Então fico me perguntando: - Por que algo tão essencial parece estar se tornando supérfluo?
            Talvez seja porque nesse mundo, em que tudo se consome, gentileza não custe nada. Ou quem sabe, porque não se ganha nada de material com ela. Talvez porque esteja fora de moda ou pareça, em algumas oportunidades, até algo meio otário ou mesmo piegas. Talvez isso aconteça porque as pessoas achem que gentileza seja algo menor, descartável.
             Infelizmente, a regra, hoje em dia, parece ser tratar mal as pessoas, fechar a cara, não dar bom dia, nunca elogiar e dizer coisas duras sem nenhum cuidado. Tudo isso elevado a título de atributo dos poderosos. Quase uma virtude.
            Estou cansada de me deparar com pessoas que entram no elevador onde só está você, nem te olham na cara e saem sem nem mesmo lhe dar um grunhido. Ou então aquelas, na garagem, que entram no elevador super-rápido e até puxam a porta, só para não correr o risco de você chegar a tempo.
            E nem se fale daquelas arrogantes, que falam bem alto para serem atendidas mais rápidas e com mais deferência. Aliás, não sei de onde surgiu essa lógica maluca de que falar alto e exalar arrogância é necessário para ser tratado com deferência?!
            Quanto mais importante a pessoa e mais alto o cargo, menos gentileza. Acho até que nos currículos de muitos chefões, intelectuais e ‘bambambans’ por aí deva estar escrito: “Doutor em gritar com as pessoas”. Ou: “PhD por Harvard em humilhar os subordinados”. Ou quem sabe: “Mestre em massacrar iguais em inglês fluente, mas se for necessário pode xingar também em alemão, francês, espanhol e mandarim”.
             A verdade, porém, é que nunca haverá razão que resista ao fato de agirmos mal com quem quer que seja. E sempre haverá um jeito bom de dizermos as coisas, mesmo as mais duras. Aliás, se pensarmos bem, veremos que é mais fácil ser gentil do que ser grosseiro. Despende menos energia e o resultado é sempre melhor.    
            Gentileza não é algo que temos, é algo que somos. E que nos tornamos. É obedecer à lógica do coração. Enxergar e vestir a pele do outro.
            Ser gentil é uma virtude. É dar sem esperar nada em troca. É um ato de resistência diante de uma vida determinada por valores calculáveis. E é justamente o resgate desta gratuidade que faz o humano ressurgir como valor primordial e o mundo ficar melhor. Dar, porque o simples dar já é receber, é isso que verdadeiramente faz toda a diferença.
            Por isso, se tiver vontade de elogiar, não pense duas vezes, elogie. Quando a crítica for imprescindível, abuse da delicadeza. Não só veja, mas enxergue as pessoas. Escute o que elas têm a lhe dizer. Sorria mais. Agradeça sempre. Faça a diferença.  
            Dia desses recebi de uma amiga uma história que circula pela internet, a respeito de um empregado de um frigorífico da Noruega que, ao término do trabalho, ficou preso na câmara frigorífica, quando a inspecionava.
            Bateu e gritou em vão, porque todos já haviam ido embora. Quando já tinha perdido as esperanças, viu a porta se abrir e o vigia entrar, o resgatando a tempo.
            Perguntado ao vigia por que ele foi abrir a porta da câmara, se isto não fazia parte da sua rotina de trabalho ele explicou: “-Trabalho nesta empresa há 35 anos, centenas de empregados entram e saem aqui todos os dias e ele é o único que me cumprimenta ao chegar pela manhã e se despede de mim ao sair. Hoje pela manhã disse ‘Bom dia’ quando chegou. Entretanto, não se despediu de mim na hora da saída. Imaginei que poderia ter-lhe acontecido algo. Por isto o procurei”.”
            Isso mesmo: o homem foi salvo por sua gentileza!!!
            Não sei se esta história é verdadeira ou não, só sei que eu acredito nela. E você?

domingo, 6 de abril de 2014

DESCONSTRUINDO ESTEREÓTIPOS

       Quando criança, minhas brincadeiras favoritas eram empinar pipa e brincar de polícia e ladrão. E com apenas um irmão mais velho, obviamente brincava de carrinho e chute a gol. Na verdade brincava mesmo de gol, porque como meu irmão era o dono da bola - afinal, bola é presente para meninos - o gol era a única coisa que me restava, se quisesse brincar.
     Também era craque em pular corda, elástico e brincar de carrinho de rolimã. A única coisa que me recusava terminantemente era assistir "Jaspion",  o que já era demais para mim!!! Mais velha, adorava jogar War ou Banco Imobiliário. Quanto às minhas bonecas?! Passaram a vida toda ilesas, com todos os braços e pernas, a roupa original, sem nenhum corte de cabelo nem riscos ou maquiagem, a tal ponto que, já adulta, acabei doando todas, no mais perfeito estado.
     Demorei muito tempo para entender porque me sentia meio por fora, por não gostar de brincar de boneca, casinha ou cabeleireiro como as meninas em geral. Mas foi como adulta que vim a compreender que meu universo infantil foi tão maravilhosamente fora do padrão graças ao meu irmão mais velho.  Por isso, tenho que confessar que fiquei muito feliz ao descobrir recentemente, na internet, uma grande novidade na área dos brinquedos: uma linha de brinquedos para meninas engenheiras.
     Meninas gostam de rosa e meninos de azul, certo? Pode ser, mas não só. Meninas também podem gostar de construir e de inventar máquinas. E podem ter brinquedos legais e desejados também pelos meninos, o que permite que entrem em pé de igualdade no mundo da brincadeira.
     A brilhante iniciativa foi de uma engenheira formada em Stanford que, disposta a usar a porta que abriu para fazer passar por ela outras meninas, criou uma linha de brinquedos chamada Goldie Blox, dedicada a futuras engenheiras e inventoras.
     Tanto quanto o brinquedo, o vídeo de lançamento é genial e brinca com vários clichês femininos. Tão bom que se tornou um viral no ano passado, com mais de 8 milhões de visualizações na primeira semana, o que acabou trazendo a reboque consequências animadoras, como a discussão social sobre as opções que estamos dando às nossas meninas e a nova proposta de interação entre as crianças.
     “Pensei em minha infância, com princesas e pôneis, e me perguntei por que kits de construção, matemática e ciência eram para garotos”, disse Debbie Sterling, fundadora e chefe-executiva da Goldie Blox, em entrevista. “Queríamos criar uma inversão cultural, fechar esse vão entre os gêneros e preencher algumas dessas vagas de emprego que crescem à velocidade da luz.”
     Infelizmente, as mulheres ainda continuam pouco representadas como engenheiras em companhias de tecnologia, principalmente por causa do problema de formação, já que em pleno Século XXI, 89% das pessoas formadas em engenharia no mundo são homens. Um problema que, segundo dizem muitos analistas, começa na infância, quando professores e pais não encorajam as garotas a almejarem essa profissão.
     O slogan escrito na camisa da protagonista do comercial é: “Mais do que só uma princesa”, uma frase que resume bem a proposta do filme, que é desconstruir estereótipos e incentivar as meninas a se tornarem engenheiras.
     Uma linha de brinquedos que trata de dar opções às meninas e que dá mais valor ao cérebro que ao visual. Simplesmente maravilhoso, não é mesmo?!
     E essa foto do concurso de fantasias Goldie Blox! Achei o máximo essa mulher aranha de pérolas!!!
      Para ver o vídeo é só acessar o link:
      E por falar em estereótipos...
     Recentemente a Diretora do Facebook se uniu à Getty Images para desafiar estereótipos relativos à mulher e criar uma coleção de fotos mostrando a mulher executiva além do tailleur.
     Quem não conhece aquelas fotos da mulher de negócios, de tailleur e óculos, carregando uma maleta? Ou a mãe, sorrindo enquanto coloca leite no prato de cereais das crianças na mesa do café da manhã? Tem também a mulher faz-tudo, segurando um laptop com uma mão e o bebê na outra.
     Trata-se de fotos de bancos de imagens que ilustram famílias e mulheres que trabalham fora bem conhecidas por qualquer pessoa que vê um anúncio ou folheia uma revista, não é mesmo?
     “Onipresença que é prejudicial e alimenta estereótipos ultrapassados”, diz Sheryl Sandberg, executiva do Facebook que se tornou uma defensora das mulheres que chegam a postos de liderança.
     Para tentar solucionar o problema, a organização sem fins lucrativos de Sheryl LeanIn.org anunciou uma parceira com a Getty Images, um dos maiores bancos de imagens do mundo para oferecer uma coleção especial de fotos representando mulheres e famílias de maneira mais afirmativa.
     Vejam as novas fotos da mulher executiva, que interessantes.
     “Uma das maneiras mais rápidas de se conseguir que as pessoas pensem de modo diferente sobre alguma coisa é mudar o seu visual”, disse Cindy Gallop, que dirige a filial nos Estados Unidos da agência de publicidade Bartle Bogle Hegarty.
     Para se pensar, não é mesmo?
    P.S. Este post é uma singela homenagem a todas as amigas dos meus filhos, estudantes de engenharia. Todas super inteligentes, corajosas, determinadas, ma-ra-vi-lho-sas!!! Saibam que sou super fã de vocês.

domingo, 9 de março de 2014

OS MISTÉRIOS DO PERU

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       O Peru, mais que encantador, é surpreendente. Com paisagens lindíssimas e bem diversificadas, é envolvente e místico, além de representar a melhor e mais interessante aula de história, a céu aberto, da cultura e civilização Inca. Para melhorar, os peruanos adoram “nosotros” brasileiros, são extremamente simpáticos e acolhedores e conservam o tempo inteiro sobre futebol. De quebra, a comida é excelente. Misturas inusitadas, pratos com lindos acabamentos, e serviço muito bom - não é para menos que a culinária peruana é uma das mais respeitadas internacionalmente, na atualidade. Quanto à pobreza, claro que ela é evidente e em muitos momentos impressiona, mas acaba superada pela cultura, tradição e misticismo que envolve os lugares e as pessoas.
      Escolhemos começar nossa viagem por Cuzco, que fica a 3400 m de altitude, e logo na chegada pudemos entender o que toda essa altitude significa. Subir um lance de escada em Cuzco equivale a aproximadamente uns quinze andares em São Paulo, com direito a aperto no peito e leve tontura. E então, de repente você entende na pele porque os times brasileiros de futebol sempre perdem quando jogam na Bolívia ou no Peru. O único jeito é não se fazer de rogado e tomar logo o famigerado chá de coca, e sem preocupações, já que ele não deixa ninguém doidão. Mais parece um chá verde ou ban chá meio amargo, tomado sem açúcar, e acredite, ajuda muuuuito.
    Mesmo assim, se você não quiser ver o chão virar, a cabeça doer e nem ter o estomago embrulhado, lembre-se : keep calm e nada de passeios longos no primeiro dia, senão é Soroche na certa – esse é o nome local que eles dão a todo esse mal estar, provocado pela altitude.
Em Cuzco, nos hospedamos no Hotel Arqueólogo. Bonito, charmoso, com um restaurante divino e preço bem justo, foi uma ótima opção. Agora, se dinheiro não for sua preocupação e a ocasião for bem especial, você pode se hospedar no Hotel Monastério, da rede Orient-Express. Vi in loco e é simplesmente ma-ra-vi-lho-so.
      Considerada a capital turística do Peru, Cuzco foi declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1983. Com um bonito centro histórico de influência espanhola, a Plaza de Armas é o melhor local para começar seu passeio. Comece explorando as duas lindas catedrais construídas bem em cima de monumentos Incas – num ato típico daqueles que pretendiam acabar com as tradições locais - aproveite conhecer as lojinhas e não deixe de visitar o Museo Inka.
      E ainda na Plaza de Armas, aproveite para contratar o passeio pelo Vale Sagrado dos Incas, para o dia seguinte. Existem muitas agências pela região que fazem isso, é muito fácil e tranquilo.
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        Optamos por um passeio que incluía Pisac, famosa por seus mercados de artesanato e suas grandiosas ruínas incas, que ficam no alto de uma linda montanha, de onde você pode contemplar todo o vale a centenas de metros de altura. Só essa visão lá do alto já compensa o passeio. O elemento central do sítio arqueológico de Pisac é o Templo Del Sol, um observatório astronômico. Mas tem também o Templo de La Luna, complexo de termas cerimoniais e o Intihuatana, que traça os movimentos do sol. Todos muito interessantes.
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    Ollantaytambo, não tão bonita como Machu Picchu, mas certamente é ainda mais interessante por toda a sua  engenhosidade e estrutura militar. Foi em Ollantaytambo onde se deu a maior vitória inca sobre os espanhóis.
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     E Chincero, vilarejo onde são confeccionadas as lãs peruanas típicas, de ovelha ou de alpaca. O povo local, de língua quéchua, preserva muito os costumes incas, usa trajes tradicionais e pratica ainda pratica o escambo. Foi muito bacana ver o processo artesanal de tingimento das lãs. 
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      De volta a Cuzco, cansados, optamos por jantar no próprio hotel, o que foi delicioso. Outra dica de restaurante para o dia é o simpático café de Mamá Oli, que apresenta um cardápio saudável com uma variada carta de sucos, tortas e saladas com ingredientes típicos, música agradável e ambiente tranquilo para aproveitar o dolce far niente. Fica próximo do Hotel Monastério.
      Compras? Se quiser algo realmente diferente e tiver tempo, recomendo ir até o Bairro San Blás, onde fica a maioria dos ateliês dos artistas. Na Calle Cuesta San Blas, 567, tem a loja do artista cusquenõ Pacheco Venero Luis Alfredo, com telas em diferentes tamanhos e molduras lindas em madeira de lei, com diversos anjos pintados em cores fortes e detalhes em baixo-relevo dourados. Acabei não comprando nada, mas no site http://turomaquia.com/compras-em-cusco/ encontrei uma foto bem legal de uma tela do Arcanjo Uriel para você ver o estilo e se gosta.
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      Também soube que em Urubamba tem o artista Pablo Seminario, muito conhecido, que faz coisas lindas em cerâmica, para todos os gostos e para todos os bolsos. Se você quiser conferir, para saber se vale a pena passar por lá, fica a dica http://www.ceramicaseminario.com.
    No dia seguinte fomos de Cuzco até Machu Picchu no trem de luxo Hiram Bingham– Oriente Express, uma opção simplesmente maravilhosa, que recomendo mil vezes!!!! Fizemos o passeio optando pela modalidade diurna, mas você pode optar também pela modalidade com pernoite – mais cara. 
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        A viagem foi muito agradável, com aperitivos, almoço e música ao vivo, enquanto o trem passava por cenários deslumbrantes, sempre em transformação.
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        Quando chegamos em Águas Calientes, já havia um ônibus nos esperando para nos levar até Machu Picchu e lá fizemos um maravilhoso tour guiado – nosso guia era um verdadeiro professor de história, e tivemos a melhor e mais sensacional aula sobre a civilização Inca a céu aberto. Simplesmente inesquecível!!! No final da tarde, ainda tivemos direito de contemplar Machu Picchu com um lindo arco-íris.
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Machu Picchu : uma construção inca que funde a arquitetura com o terreno.
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     Na saída, fizemos uma parada estratégica para um brunch no Sanctuary Lodge, um hotel cinco estrelas que fica lá em cima, a poucos metros de Machu Picchu e depois voltamos de trem para Cuzco, com direito a um requintado jantar gourmet.
      Assim, minha sugestão é ficar quatro noites em Cuzco: primeiro dia para descansar e se aclimatar, fazendo passeios leves. Segundo dia para conhecer Cuzco, terceiro dia para fazer o passeio pelo Santuário e quarto dia para ir e voltar de Machu Picchu.
     De Cuzco, pegamos um voo direto para Puno, onde ficamos hospedados no Hotel Libertador, com uma vista maravilhosa para o lago Titicaca, o mais alto, com 3.800 m de altitude e o segundo maior da América do Sul. Como já estávamos aclimatados, não tivemos problema algum com a altitude. Há muitas ilhas espalhadas pelo lago e os habitantes mantêm um modo de vida tradicional, centrado na pesca, na agricultura e na tecelagem. Optamos por conhecer a Isla Uros, que fica próxima de Puno, mas falaram muito bem também de um passeio até a Isla Taquile, mais distante. Para quem quiser se aventurar, ouvi que vale muito a pena.
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       O povo uros vive em ilhas flutuantes, as quais parecem imensos ninhos de palha. Cada uma tem um chefe e população própria, e todas estão submetidas a um administrador geral. Eles se consideram o povo mais antigo da Terra, e diz a lenda que eles já existiam antes do sol e não podiam afundar nem ser atingidos por raios. A maior ilha flutuante tem 160 anos, uma sala de reuniões e uma escola. O junco totora usado para a formação das ilhas também é usado como alimento, lenha para fogueiras e na construção de barcos, casas e artefatos. Como eles próprios descrevem “sua existência é como viver entre a água e o céu”.
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    Só vendo mesmo para crer.

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    Também fizemos um passeio até as torres Sepulcrais circulares – conhecidas por chulpas, de Sillustani, passeio muito interessante, que também recomendo.
       E na volta, entramos em uma casa de família, para tomar um lanchinho com os moradores locais e ver de perto seus costumes.
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COMIDINHAS
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ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO
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FAZENDO FARINHA DE QUINUA
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 A FARMÁCIA DA CASA
     Em pleno Século XXI nos sentimos na Idade Média!!! Simplesmente inacreditável!!!
     De Puno pegamos um voo para Arequipa, fomos até Colca, Paraca, Nazca e Lima, mas o resto da viagem vai ficar para um outro post, em continuação, combinado?
     Para finalizar, algumas dicas que considero importantes:
- Leve dinheiro vivo. No Peru, não é todo lugar que aceita cartão de crédito. Além disso, eles insistem em cambiar até no cartão, com taxas sempre mais altas e desfavoráveis que não valem a pena e os caixas eletrônicos, por um acordo com os bancos brasileiros, não permitem saque superior a R$100,00 por dia, e a cada saque você paga uma taxa de serviço de R$15,00.
- Sempre negocie antes de pegar táxi, porque não existe taxímetro. Isso mesmo!! Por isso fique esperto.
- Nem pense em pernoitar em Águas Calientes. A cidade é de pobreza espartana, e um dia é mais do que suficiente para você conhecer Machu Picchu. Portanto, a menos que você esteja disposto a gastar uma fortuna para se hospedar no Sanctuary Lodge, volte para Cuzco.
- Leve sempre com você um casaco impermeável para se proteger do vento frio e de eventuais chuvas.
- Leve apenas sapatos próprios para caminhada que tenham boa aderência, com sola de borracha.
- Quando comprar artesanatos, aproveite para tirar uma foto com a própria artesã.
 Espero que tenha gostado. Até o próximo post.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

TOLERÂNCIA ZERO

   Sempre tive muita curiosidade em saber mais sobre a política criminal TOLERÂNCIA ZERO, implantada na cidade de Nova Iorque, nos idos de 1990. Afinal, se a experiência me diz que a maior repressão por si só não é medida suficiente para a diminuição da violência e criminalidade, como poderia ter dado tão certo?!
      Depois de ler muito a respeito, descobri que na verdade essa política criminal não se trata apenas da adoção de medidas de punições mais severas, somadas a uma ação policial intrangigente com qualquer tipo de delito, como o nome quer fazer crer. Ela é muito mais que isso, na medida em que traz na sua essência uma idéia de cuidado, confiança e respeito, esses sim os grandes responsáveis pelo seus sucesso.
     Segundo estudiosos, a política criminal Tolerância Zero, foi elaborada com base em um experimento de psicologia social realizado em 1969, na Stanford University (RUA), pelo professor Philip Simbarco.

     Esse experimento consistiu em abandonar dois carros idênticos, em dois bairros com populações bem diferentes, e uma equipe de especialistas em psicologia social para estudar o comportamento das pessoas em cada local. Um carro foi deixado em uma rua do Bronx, um bairro bem pobre e problemático de Nova Iorque e o outro em Palo Alto, uma das regiões mais calmas e afluentes da Califórnia. O carro abandonado no Bronx começou a ser vandalizado em poucas horas, perdendo as rodas, motor, espelhos, rádio, e tudo o mais que era possível ser aproveitado, e destruído. Em contrapartida, o carro de Palo Alto permaneceu por uma semana intacto.
     Com isso, não teríamos nenhuma dificuldade em chegar a conclusão a respeito da forte ligação do crime à pobreza, não é mesmo? Mas o interessante é que o experimento não parou por aí.
     Os pesquisadores decidiram quebrar um vidro do carro estacionado em Palo Alto, e a partir de então, constataram que o resultado foi exatamente o mesmo ocorrido no Bronx: rapidamente o veículo foi totalmente destruído. Puderam constatar ainda, que a cada novo ataque sofrido pelo veículo, a escalada de acontecimentos se tornava cada vez pior, até gerar uma violência irracional.
     E foi então que concluíram que o processo criminoso não necessariamente está associado à pobreza, mas tem a ver também com o comportamento, a psicologia, as relações sociais e o próprio ambiente.
     Em 1982, com base nesse experimento, o cientista político James Q. Wilson e o psicólogo criminologista George Kelling, ambos americanos, desenvolveram a teoria das janelas quebradas - Broken Windows Theory, publicada na revista Atlantic Monthly, com o título The Police and Neiborghood Safety”(A Polícia e a Segurança da Comunidade), utilizada para explicar como a desordem e a criminalidade podem, aos poucos, infiltrar-se numa comunidade, causando a sua decadência e a consequente queda da qualidade de vida.
    Segundo essa teoria, se uma janela de uma fábrica ou de um escritório é quebrada e não é consertada, as pessoas que passam por ali são levadas a concluir que ninguém de importa com isso e que não há autoridade responsável pela manutenção da ordem, o que levaria  pessoas a cometer outros atos de vandalismo no local, reforçando ainda mais a ideia de abandono e decadência.
     Então, a fábrica passaria a exercer o papel da janela quebrada dentro da vizinhança, criando um ambiente de descuido que, aos poucos, influenciaria toda a vizinhança ao redor, levando à decadência da própria rua e posteriormente, daquela comunidade. Nesse ambiente os desocupados, imprudentes, ou pessoas com tendências criminosas sentir-se-iam mais a vontade para ter algum negócio ou mesmo morar na rua cuja decadência já é evidente, o que levaria as pessoas de bem a abandonar o local, deixando o bairro à mercê dos desordeiros. E dessa forma, pequenas desordens levariam a grandes desordens e mais tarde, ao crime.
      Ainda segundo Wilson e Kelling, trombadinhas e batedores de carteiras sentem-se mais à vontade para “trabalhar” em ruas ou bairros onde a população já esteja intimidada pelas condições de pouca segurança. Sabem que o transeunte que for roubado não terá ânimo, nem coragem de chamar a polícia, muito menos de identificar quem o roubou, nem sequer pensará em interferir quando vir alguém sendo roubado.
      Repetindo essa experiência em uma comunidade estável, onde as famílias cuidam de suas casas, se preocupam com as crianças dos outros e desconfiam de estranhos, puderam constatar a ocorrência do mesmo fenômeno, concluindo que o crime é contagioso e pode sim começar com uma janela quebrada e se espalhar pela cidade inteira.
      Nessa mesma linha, em 1990, o Professor Wesley Skogan, da Universidade Northwestern de Ciências Políticas, publicou um estudo intitulado Disorder and Decline: Crime and the Spiral of Decay in America Neighborhoods (Desordem e Declínio: O Crime e a Espiral de Decadência nas Comunidades Americanas), baseado em pesquisa realizada com 13.000 pessoas entrevistadas, residentes em áreas residenciais de Atlanta, Chicago, Houston, Filadélfia, Newark e São Francisco. Esse estudo, além de confirmar os postulados da ‘broken windows theory’, concluiu que a relação de causalidade entre desordem e criminalidade era mais forte do que a relação entre criminalidade e outras características encontradas em determinadas comunidades, tais como a pobreza ou o fato de a comunidade abrigar uma minoria racial, contrariando a alegação recorrente de que a principal causa da criminalidade reside nas injustiças sociais, desemprego, pobreza e falta de oportunidades.
      Em 1996, novamente Kelling, dessa vez em conjunto com Catherine Coles, lançaram a obra definitiva sobre a teoria das janelas quebradas: Fixing Broken Windows – Restoring Order and Reducing Crimes in Our Communities (Consertando as Janelas Quebradas – Restaurando a Ordem e Reduzindo o Crime em Nossas Comunidades), através da qual concluem que assim como a desordem leva à criminalidade, a tolerância com pequenos delitos e contravenções leva, inevitavelmente, à criminalidade violenta, estabelecendo uma forte relação entre o crime e a negligência e falta de cuidado.
      Entretanto, o que se viu, ao longo do século XX, foi justamente a polícia americana agindo na contramão dessa direção - ao abandonar aos poucos suas tarefas na manutenção da ordem pública para dedicar-se exclusivamente ao combate ao crime, sob o argumento de que era necessário priorizar o combate à criminalidade violenta, o que foi apontado por estudos posteriores como sendo a raiz do aumento da violência nos EUA, na segunda metade do século XX.
      Dessa forma, uma das principais medidas que integraram a política criminal Tolerância Zero foi o restabelecimento da polícia comunitária, visando justamente restaurar e fortalecer o papel original da polícia americana de manter a paz e prevenir o crime, com a presença constante da polícia no seio da comunidade. Com o policial novamente fazendo parte da comunidade, conhecendo e sendo conhecido por ela, certamente teria mais condições de lidar com todas as desordens de todo o tipo, embriaguez pública, jogos ilegais, etc, e, uma vez estabelecido um vínculo forte entre ambos – polícia e comunidade – juntos teriam mais êxito em evitar o surgimento da desordem e de pequenos delitos que, mais tarde passariam a criar um ambiente propício à criminalidade violenta.
      Outra medida fundamental para o êxito da política criminal Tolerância Zero foi a recuperação do Metrô de Nova Iorque.
      Naquela época, o não pagamento da passagem havia se tornado epidêmico. O prejuízo da municipalidade girava em torno de oitenta milhões de dólares por ano. Os desordeiros simplesmente pulavam as catracas. Aqueles que pagavam sentiam que estavam entrando em um local onde não havia lei e a desordem imperava e começavam a se perguntar se valia a pena continuar respeitando a lei. A desordem só fazia crescer. Pichações, mendicância agressiva e vandalismo criavam um clima propício à criminalidade, levando ao aumento crescente da criminalidade no metrô, que se tornava cada vez mais violenta, com a proliferação de gangues juvenis, cada vez mais usando armas de fogo e simplesmente assaltando as pessoas.
     O primeiro estágio para a recuperação do Metrô foi a limpeza dos vagões, através da montagem, em finais de linha, de “centrais de limpeza”, para que todos os carros que chegassem ali com uma pichação não voltassem a transitar antes de serem totalmente limpos, medida que durou seis anos (de 1984 a 1990).
      O segundo estágio da recuperação do sistema de metrô teve início com a nomeação de William Bratton como chefe da polícia do departamento de trânsito. Até então, ninguém achava produtivo fazer os policiais perderem quase o dia todo para levar o sujeito que pulava a catraca à delegacia, sendo que este logo estaria solto, principalmente em razão do pequeno preço do bilhete.
      Foi então que Bratton encontrou uma maneira criativa para combater esses pequenos delitos. Colocou em algumas estações, policiais a paisana responsáveis por prender um a um os malandros que não pagavam as passagens, algemando-os uns aos outros e os deixando ali mesmo, na estação, à vista de todos, até ter uma penca numerosa. Depois, um velho ônibus, transformado em delegacia móvel, ia a cada uma das estações para registrar as ocorrências e checar a ficha de cada um. Os usuários, ao verem aquilo, recebiam uma mensagem clara: o metrô está sendo cuidado e alguma coisa está sendo feita, mesmo que dali a pouco os malandros estivessem livres, e estes, por sua vez, passaram a perceber que as coisas já não eram assim tão fáceis.
      Entre aqueles presos por pular a catraca, a polícia descobriu que um em cada sete, em média, tinha um mandado de prisão por um crime anterior e um, em cada vinte, estava armado. Esta prática durou de 1990 a 1994.
     Então, em 1994, com a eleição do prefeito Rudolph Giuliani, Bratton foi nomeado chefe de polícia da cidade, e passou a usar no restante da cidade, as mesmas estratégias que tinha aplicado, com sucesso, no metrô.
      Mas não foi só isso. Considerando um estudo realizado na década de 80, que identificou que o uso de crack estava relacionado a 32% de todos os 1.672 homicídios registrados em 1987, e que 60% dos homicídios estavam ligados às drogas, sérias medidas passaram a ser adotadas em relação ao consumo e tráfico de drogas.
      A princípio, foram adotadas estratégias no sentido de reforçar a abordagem policial e dispersar os usuários, o que apenas fortaleceu ainda mais as crack houses, já que o consumo não chegava a ser controlado. Implantou-se, então, uma operação denominada Pressure Point, com enfoque nas organizações criminosas espalhadas pelos bairros, e medidas efetivas de aplicação das leis foram adotadas, o que possibilitou uma verdadeira explosão no número de condenações por posse de drogas.
     Concomitante a isso, no fim da década de 80, uma alternativa surgiu para os usuários de crack. Em 1989, a Flórida criou as drugs courts, que eram tribunais especializados em atender usuários de drogas, formados por uma equipe com advogados de defesa, promotores, especialistas em saúde mental e em serviço social. Aqueles que eram pegos com uma pequena quantidade de drogas (até 28 gramas) podiam ter a sentença reduzida ou até a ficha criminal cancelada se não tivessem cometido delitos graves, como homicídios. A contrapartida era frequentar um programa de internação voluntária, com regras e condições previamente estabelecidas entre o réu, advogado de defesa, a acusação e o tribunal. E o estado de Nova Iorque liderou a expansão e a institucionalização das drug courts nos Estados Unidos, chegando a cerca de 180 tribunais de drogas em operação no estado. Além disso, entre 1991 e 2001, a força policial de Nova Iorque cresceu 45% — três vezes mais do que a média nacional.
      E foi assim, com a adoção de um conjunto de medidas, que o Estado de Nova Iorque conseguiu resultados importantes no combate à criminalidade, com a redução de 57% dos crimes, sendo considerada pelo FBI a mais segura das grandes cidades norte-americanas e viu o número de turistas crescer.
     Obviamente a desordem e a ausência de repressão a pequenos delitos não são as únicas causas do aumento da criminalidade, afinal, a polícia não é uma instituição isolada, mas parte de uma rede de instituições, algumas formais (tribunais e escolas) e outras informais (família, igreja), e todas elas, sem sombra de dúvidas respondem ao crime. Entretanto, esse exemplo americano de sucesso certamente suscita a nossa reflexão.
     Para quem quiser saber mais sobre a história desta estratégia vitoriosa do “broken windows theory”, poderá ler o livro de William Bratton, "Turnaround – How America’s Top Cop Reversed the Crime Epidemic" (A Reviravolta – Como a Polícia Americana Reverteu a Epidemia de Crime).
      Minha sugestão? Que tal começarmos pelo começo?

Referências:
http://jus.com.br/artigos/3730/janelas-quebradas-tolerancia-zero-e-iminalidade/3#ixzz2iODAIFZD
http://www.verriveritatis.com.br/Toro/outubro2011/teoria_janelas_quebradas.pdf