terça-feira, 21 de novembro de 2017

TEMOS QUE FALAR DE ABORTO


ESCRITO POR ANNATROTTAYARYD
De tempos em tempos, o fantasma da penalização do aborto volta a assombrar, colocado por ilusionistas competentes ou demagogos interesseiros e oportunistas como milagrosa forma de preservação da vida.
Dessa vez foi a Comissão Especial da Câmara dos Deputados, que por dezoito votos a favor e um contra, aprovou a proposta de Emenda à Constituição 181/2011, conhecida como “Cavalo de Tróia”, que determina que “a vida começa desde a concepção”.
Essa PEC, inicialmente benéfica, visava apenas ampliar direitos trabalhistas, como o aumento do tempo da licença-maternidade para mulheres cujos filhos nasceram prematuros. Entretanto, ao ser alterada pelo Legislativo, em dezembro do ano passado, para discutir o aborto, acabou se transformando num pesadelo.
Longe de ser a primeira, é bem verdade que ela não é a única ameaça feita aos direitos reprodutivos das mulheres, nos últimos tempos. Os famosos e já muito combatidos “Estatuto do Nascituro” (PL 478/2007) e PL 5069/13 também representam ameaças reais para os direitos das mulheres. E, além deles, há também outras, como a PEC 164/2012, de autoria de Eduardo Cunha e a PEC 29/2015, de autoria do senador Magno Malta (PR/ES), que definem a vida como inviolável desde a concepção.
Com o claro propósito de impedir qualquer avanço da pauta da legalização do aborto no Brasil, elas abrem perigoso precedente para que qualquer forma de interrupção da gravidez seja proibida no nosso país, em franco retrocesso civilizatório.
Não é sem razão que todas essas propostas legislativas tenham sido sugeridas por homens, com apoio da bancada fundamentalista, no Congresso Nacional mais conservador desde a redemocratização.
E assim segue o Brasil, na contramão, insistindo em manter normas tão retrógradas que, longe de mudar nossa realidade fática, assentam uma verdadeira legislação sobre o útero alheio, em uma das posições mais conservadoras sobre o assunto, ao lado de Senegal, Iraque, Palestina, Iêmen e Nicarágua.
Atualmente, no nosso País, o aborto é legalizado em três hipóteses: no caso de gravidez decorrente de estupro, risco para a gestante e de gravidez de feto anencefálico - esta última em decorrência de decisão do STF, proferida em 2012. Entretanto, o que a realidade nos mostra, é que mesmo com esse respaldo jurídico, muitas mulheres ainda encontram vários entraves para realizar o procedimento.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, a cada dois dias, morre, no país, uma mulher vítima de aborto clandestino. Ainda, de acordo com a Pesquisa Nacional de Aborto, realizada em 2010 pela antropóloga Debora Diniz e pelo sociólogo Marcelo Medeiros, mais de uma em cada cinco mulheres entre 18 e 39 anos de idade já recorreu a um aborto na vida, na grande maioria mulheres pobres, sem recursos para recorrerem a clínicas sofisticadas. E segundo as conclusões da Pesquisa Nacional do Aborto realizada em 2016, o aborto é um fenômeno frequente e persistente entre as mulheres de todas as classes sociais, grupos raciais, níveis educacionais e religiões.
Em 2015, ocorreram cerca de meio milhão de abortos. Ao todo, 48% dessas mulheres vão parar no hospital devido a abortamentos inseguros.  O abortamento inseguro provoca 602 internações diárias por infecção, 25% dos casos de esterilidade e 9% dos óbitos maternos, sendo a quinta causa de mortes maternas no Brasil.
No mundo são realizados cerca de cinco milhões de abortos ao ano, sendo 97% em países onde o aborto é ilegal. Se consideradas as negras e pardas juntas, elas realizam cerca de três vezes mais abortos que as mulheres brancas e morrem ou sofrem sequelas três vezes mais também, em razão da maior vulnerabilidade desse grupo e das péssimas condições sociais em que vivem.
Esses números gritam e nos mostram que a maioria das mulheres continua morrendo na tentativa de interromper a gestação de uma criança que não querem ou não podem ter. Além disso, eles não só reafirmam que a criminalização do aborto obedece à mesma lógica do apartheid racial e social que rege o cotidiano do nosso país, como indicam que, na prática, a criminalização do aborto representa uma eficiente máquina estatal de produzir cadáveres femininos e também órfãos – se considerarmos que muitas dessas mulheres possuem outros filhos.
E, principalmente, nos mostram que o aborto, não só é comum entre as mulheres brasileiras, como que a legalidade ou ilegalidade não tem muita interferência sobre a decisão dessas mulheres, mas interfere sim, sobre as consequências para a saúde delas.
Exemplo concreto disso é o que ocorre na França. No começo dos anos 70, a França foi palco de uma mobilização social que abraçava a pauta e, em 1975, viu a Lei Veil ser aprovada. A Lei permite a interrupção voluntária da gravidez, sob controle médico, até a 12ª semana de gestação e, 40 anos depois, continua a provar seu saldo positivo: há menos de 1 morte/ano na França em consequência da prática do aborto. Em paralelo, porque as mulheres podem fazer escolhas, a França exibe hoje uma das taxas de fecundidade mais altas da Europa (2,03).
Outros Países como Canadá, Noruega, Portugal e mais recentemente o Uruguai, já divulgaram dados de diminuição drástica do número de abortos após a legalização, isso porque a política de legalização veio acompanhada, mesmo que precariamente, pelo aumento da política de educação sexual e de planejamento reprodutivo.
Por tudo isso, muito diferentemente do que se propaga, a descriminalização do aborto salva vidas sim, de muitas mulheres que merecem respeito à sua dignidade, como qualquer um de nós.
É bem verdade que esse assunto é bastante polêmico, e um dos mais controversos e difíceis de debater no Brasil, já que confunde conceitos de liberdade, direito, moral, religião e vida. Porém, estamos num momento em nosso país em que, se apropriar, ter posicionamento e se mobilizar por esse debate é essencial, porque quanto menos debatermos e menos informações tivermos, mais mulheres irão morrer. E ser a favor da vida só pode ser verdadeiro, se for também a favor da mulher gestante.
Aqueles que insistem que defender a descriminalização do aborto é o mesmo que defender sua prática, certamente desconhecem por completo o peso do que é discutido: uma decisão difícil, conflitiva e muito dolorosa para qualquer mulher, em qualquer circunstância. E também ignoram ou fingem que não sabem, que as mulheres, no mais das vezes, recorrem a esse método apenas em última instância, quer porque foram educadas desde pequenas na “função social” de serem mães – o que faz com que essa decisão tenha um enorme peso psicológico -  quer porque, como é sabidamente por todos, isso pode significar um trauma físico imenso, e, humanas que são, têm muito medo.
Também é falho o argumento de que “engravida quem quer”. Segundo dados extraídos da Pesquisa Nacional do Aborto, cerca de 50% das mulheres que abortaram usavam algum tipo de método anticoncepcional enquanto engravidaram e 70% estavam em relações estáveis. Ou seja, esse argumento, além de não enxergar o machismo nas relações, o qual implica desde violências sexuais até relações violentas no cotidiano onde os homens acabam por relativizar o uso de contraceptivos e não assumem a responsabilidade pelas consequências dos seus atos, também culpabiliza a sexualidade das mulheres e as coloca como únicas responsáveis, quando sabemos bem que ninguém engravida sozinha.
Assim, defender a não criminalização do aborto, ao contrário do que muitos querem fazer crer, não significa, em hipótese alguma, concordar com ou incentivar a prática abortiva, mas apenas e tão-somente apoiar a mudança de uma lei que coloca, todos os dias, as vidas e a dignidade de milhões de mulheres em risco, com um efeito perverso para as mulheres mais pobres e vulneráveis.
Infelizmente as políticas brasileiras, inclusive as de saúde, vêm insistindo em tratar o aborto sob uma perspectiva religiosa e moral, e responder à questão com a criminalização e a repressão policial, transformando o aborto em tabu.
Porém, os números são claros: a resposta fundamentada na criminalização e repressão se mostra não apenas inefetiva, mas nociva, porque não reduz nem cuida. De um lado, porque não é capaz de diminuir o número de aborto, e de outro, porque impede que mulheres busquem o acompanhamento e a informação de saúde necessários para que seja realizado de forma segura ou para planejar sua vida reprodutiva a fim de evitar um segundo evento desse tipo.
Por tudo isso, ter posicionamento e se mobilizar por esse debate, nesse momento, é tão essencial.
E apenas para que não pairem dúvidas ou coloquem palavras na minha boca: eu nunca fiz um aborto e eu não sou a favor da prática do aborto, só não sou contra a mulher que decide pelo abortamento.
Esse texto foi publicado no correio da cidadania.
http://www.correiocidadania.com.br/2-uncategorised/12949-temos-que-falar-de-aborto

sábado, 7 de outubro de 2017

Normose: A patologia da normalidade

 
 ESCRITO POR ANNATROTTAYARYD
                “Há uma crença bastante enraizada segundo a qual tudo o que a maioria das pessoas sente, acredita ou faz, deve ser considerado normal”. Será?
                Quando todas as pessoas se colocam de acordo a respeito de uma opinião ou uma atitude e maneira de atuar, manifesta-se um consenso, que dita uma norma. Quando uma norma é adotada por muitos, cria-se um hábito. A maior parte dos nossos costumes são o resultado de normas que adotamos, mais ou menos conscientemente, mediante a imitação dos atos de nossos pais e educadores, pelo mecanismo de introjeção.
                  Nesse sentido, há uma crença bastante enraizada segundo a qual tudo o que a maioria das pessoas sente, acredita ou faz deve ser considerado normal, e servir de guia para o comportamento geral.
                  O problema é que nem todas as normas são benevolentes. Ao contrário, algumas são geradoras de sofrimentos e enfermidades, mas como são dotadas de um consenso social, as pessoas não percebem o caráter patogênico.
                  Já foi normal duas pessoas se digladiarem até a morte para entreter a multidão. Também já foi normal queimar mulheres na fogueira por bruxaria e fazer pessoas trabalharem sem remuneração com direito a castigos físicos só pela cor da pele. Escravizar os inimigos vencidos na guerra e também perseguir e eliminar povos inteiros por causa da sua religião ou raça. Era normal também, humanos casarem sem amor e mulheres não terem os mesmos direitos que os homens.
                  E atualmente, nos parece perfeitamente normal trabalhar 40 horas semanais fazendo algo que se detesta, para gastar o que não podemos e comprar o que não precisamos. Não ter tempo para nada, pagar e receber por todo tipo de facilidades e favores, devastar florestas e destruir o planeta em nome do progresso.
                  Claro que existem normalidades que até fazem bem ao indivíduo, como algumas que não fazem nem bem nem mal. O problema são aquelas patológicas, que levam o indivíduo a agir sempre de acordo com o consenso social, sem parar para pensar ou questionar, e o conduzem à infelicidade e a perda de sentido na vida.
                  Mas será que ser normal e achar normais coisas que não deveriam ser, pode ser uma doença?
                  Segundo alguns psicólogos, sim. A doença de ser normal chama-se, segundo eles, normose: um conjunto de hábitos considerados normais pelo consenso social que, na realidade, são patogênicos em graus distintos e nos levam à infelicidade, à doença e à perda de sentido na vida.
                  Ou seja, a normalidade doentia. Um hábito de pensar, sentir e agir, tido num certo consenso social como normal, mas de natureza patogênica.
                  O conceito foi cunhado quase que simultaneamente pelo psicólogo e antropólogo brasileiro Roberto Crema e pelo filósofo, psicólogo e teólogo francês Jean-Ives Leloup, na década de 1980. Eles vinham trabalhando o tema separadamente até que um terceiro psicólogo, o francês Pierre Weil, se deu conta da coincidência. Perplexo, Weil conectou os dois, e os três juntos organizaram um simpósio sobre o tema em Brasília, uma década atrás. Do encontro, nasceu uma parceria e o livro Normose: A patologia da normalidade.

                  No fim dos anos 70, Crema estava encucado com o fato de muitos autores apontarem uma "patologia da pequenez": o medo de se deixar ser em sua totalidade. Ele deparou-se com muitos pensadores, entre eles o alemão Erich Fromm (1900-1980), que falava do medo da liberdade, e o suíço Carl Jung (1875-1961), que afirmava que só os medíocres aspiram à normalidade. Crema misturou ao caldo a célebre declaração do escritor britânico G.K. Chesterton (1874-1936), que disse que "louco é quem perdeu tudo, exceto a razão", e acrescentou os anos de observação e prática em sua clínica pedagógica.
                  E assim nasceu o conceito de normose, que, segundo ele, "ocorre quando o contexto social que nos envolve caracteriza-se por um desequilíbrio crônico e predominante". A normose torna-se epidêmica em períodos históricos de grandes transições culturais - quando o que era normal subitamente passa a parecer absurdo, ou até desumano. Foi o que aconteceu no final do período romano, em relação à perseguição de cristãos, ou no início da Idade Moderna, com o fim da legitimidade da Santa Inquisição, ou no século 19, com a perda de sustentação moral da escravidão. E, segundo Crema, Leloup e Weil, é o que está acontecendo de novo, com a crise dos nossos sistemas de produção, trabalho e valores.
                  A característica comum a todas as formas de normoses é seu caráter automático e inconsciente. Espírito de rebanho. Isso porque a maior parte dos seres humanos, talvez por preguiça e comodidade, segue o exemplo da maioria. Pertencer à minoria é tornar-se vulnerável, expor-se à crítica. Assim, por comodismos, as pessoas seguem e repetem o que dizem os jornais, o que está na moda e o que está de acordo com a maioria.
                  Por isso toda normose é uma forma de alienação que facilita, e muito, a instalação de regimes totalitários ou sistemas de dominação.
                  Existem normoses gerais, que atingem toda a população do mundo ou grande parte dela, normoses específicas e também aquelas próprias de certas nações e certos países.
                  Como exemplo de normose geral, podemos citar aquela criada pela ditadura masculina, de quatro mil anos, em nossa sociedade patriarcal, que se caracteriza pela repressão do feminino e também a religiosa, que cria consensos de massa e jogam povos contra povos em nome de algum Deus.
                  Já como exemplos de normoses específicas podemos citar as alimentares, políticas e ideológicas.
                  Por isso, pode-se dizer que normose é um dos conceitos mais importantes gerados pelo movimento holístico, de renovação da realidade e da vida, que implica na criação de conceitos que mudem nossa maneira de ver as coisas.
                  Mesmo porque, o conceito de normose, com seu aprofundamento e desenvolvimento, provoca um importante questionamento a respeito do que se considera normalidade, e a tomada de consciência desta realidade pode facilitar uma profunda mudança na visão e consideração de certas opiniões, hábitos e atitudes comportamentais, considerados normais e naturais, por todos aqueles desatentos e adormecidos.E porque não dizer, provocar um verdadeiro encontro com a liberdade, uma vez que seguir cegamente as normas é tornar-se escravo. Além disso, estar bem adaptado a uma sociedade doente não é um bom sinal.
                  Na verdade, deveríamos ser desafiados diariamente a nos distinguirmos dos que nos cercam. Afinal, cada um é um ser único, com características únicas e história própria.
                  Nos separar do pensamento coletivo nivelador e desenvolver nossos talentos exclusivos estão entre as realizações mais importantes que um ser humano pode alcançar, pois são esses atos que impedem   que nossa alma caia na escravidão.
                  Precisamos de mais pessoas esquisitas no mundo. A respeito os espanhóis são muito sábios e horam essa palavra tão justa – exquisito – traduzindo-a como algo raro, belo, especial e gostoso.  Precisamos respeitar essa beleza, essa virtude, essa grandeza da esquisitice que se manifesta.
                  Chega de pensamento binário do sim ou não. É uma grande aventura alguém se tornar humano, na qualidade de sujeito da própria existência, dotado de um semblante único, assumindo a autoria de seus passos.
                  Temos uma espécie de medo da liberdade, e a trocamos pela proteção, pela segurança, pela aceitação. Segundo o psicólogo israelense Daniel Kahneman, ganhador do Nobel de Economia de 2002, em seu livro Rápido e Devagar: Duas formas de pensar, nosso cérebro confunde o que é familiar com o que é correto. Ao despertar alguma memória o cérebro define o “familiar”, como “correto”, da mesma forma que o novo é entendido como passível de desconfiança, porque coloca em risco nossa “zona de conforto”.
                  Só que para sermos felizes, temos que ser autênticos. Tá aí o paradoxo.
                  Por isso, que tal criar o seu “normal”? Depois pode até jogar fora a fórmula, porque o normal de cada um tem que ser original, só seu. As ilusões e desejos dos outros são apenas dos outros e não precisam ser seus. Acredite: é possível ser mais autêntico e feliz!
                  Nas palavras de Michel Schimidt, psicoterapeuta:
"Todo mundo quer se encaixar num padrão. Só que o padrão propagado não é exatamente fácil de alcançar. O sujeito "normal" é magro, alegre, belo, sociável, e bem-sucedido. Bebe socialmente, está de bem com a vida, não pode parecer de forma alguma que está passando por algum problema. Quem não se "normaliza", quem não se encaixa nesses padrões, acaba adoecendo. A angústia de não ser o que os outros esperam de nós gera bulimias, depressões, síndromes do pânico e outras manifestações de não enquadramento. A pergunta a ser feita é: quem espera o quê de nós? Quem são esses ditadores de comportamento que "exercem" tanto poder sobre nossas vidas? Nenhum João, Zé ou Ana bate à sua porta exigindo que você seja assim ou assado. Quem nos exige é uma coletividade abstrata que ganha "presença" através de modelos de comportamento amplamente divulgados. A normose não é brincadeira. Ela estimula a inveja, a auto-depreciação e a ânsia de querer ser o que não se precisa ser. Você precisa de quantos pares de sapato? Comparecer em quantas festas por mês? Pesar quantos quilos até o verão chegar? Então, como aliviar os sintomas desta doença? Um pouco de auto-estima basta. Pense nas pessoas que você mais admira: não são as que seguem todas as regras bovinamente, e, sim, aquelas que desenvolveram personalidade própria e arcaram com os riscos de viver uma vida a seu modo. Criaram o seu "normal" e jogaram fora a fórmula, não patentearam, não passaram adiante. O normal de cada um tem que ser original. Não adianta querer tomar para si as ilusões e desejos dos outros. É fraude. E uma vida fraudulenta faz sofrer demais. Eu simpatizo cada vez mais com aqueles que lutam para remover obstáculos mentais e emocionais e tentam viver de forma mais íntegra, simples e sincera. Para mim são os verdadeiros normais, porque não conseguem colocar máscaras ou simular situações. Se parecem sofrer, é porque estão sofrendo. E se estão sorrindo, é porque a alma lhes é iluminada. Por isso divulgue o alerta: a normose está doutrinando erradamente muitos homens e mulheres que poderiam, se quisessem, ser bem mais autênticos e felizes."
                  Não tenho dúvidas de que, se um dia, a nossa família humana se extinguir, se o barco onde todos estamos afundar, não terá sido pelos psicóticos nem pelos neuróticos, mas pelos normóticos que fomos.
                  Lembre-se: Vós sois o sal da terra....O sal é a substância milagrosa que dá a cada coisa o gosto que cada coisa tem. Então, que tal olhar para dentro de si mesmo? É aí que começa a revolução".
                  E, bem, “Se eu me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar.” (Clarice Lispector) 

quarta-feira, 19 de julho de 2017

A ARTE DE ENVELHECER


                              ESCRITO POR ANNATROTTAYARYD

                    Hoje em dia, as pessoas se recusam a ser chamadas de “velhas”. Aceitam, quando muito, ser “idosas”. Em algum momento em que não nos demos conta, roubaram a velhice, e a juventude passou a ser a vida inteira.
                    Uma pena! Porque nada deveria ser mais esperado do que a velhice, já que ela é o preço justo que todos nós temos que pagar, se quisermos continuar vivos.      
                     Mas não é o que acontece. Muito pelo contrário, ao nos aproximarmos da velhice, começamos a lamentar e a resistir a ela, como se envelhecer não fosse fato da natureza e do tempo.
                              Não estou dizendo, com isso, que envelhecer seja fácil. Longe disso. A questão é que o nosso medo da velhice e da morte é tão grande, que ao menor sinal de que não somos mais tão jovens, preferimos parar no tempo e paralisar nossos rostos - deixando-os sem qualquer expressão, a ponto de nos tornarmos tipos estranhos - a ter qualquer sinal que indique a passagem do tempo e da vida vivida, como se o tempo passado fosse apenas feio e tão sem significado, que pudesse se tornar inexistente.
                              E, assustados e paralisados, seguimos insistindo em encarar a velhice como algo que pertence apenas ao outro.
                              Ocorre que negar a velhice, é não só inútil, como uma escolha que nos rouba algo de vital e essencial, que é justamente pensarmos sobre ela, e assim, podermos nos preparar para ela.
                              Velhice é o que é, para cada um e para todos também. E se é que existe algo de bom no envelhecimento, esse algo, com certeza é o “espírito de velho”, porque esse é grande, vem com toda a trajetória, é cumulativo e o único que não declina. E se bem lapidado, certamente é o que nos permitirá chegarmos ao fim, muito mais bonitos e interessantes do que éramos no começo e no meio.
                              Mas para isso, é preciso coragem para encararmos a nós mesmos, antes de envelhecer, para ver quem somos e no que nos tornamos, e tentarmos nos transformar em pessoas ainda melhores.
                              Há muito tempo, uma amiga me disse que todos nós deveríamos nos preparar para o envelhecimento, agregando à nossa vida todas as atividades que pretendemos manter na velhice, antes de envelhecer, porque velhos, só conseguimos fazer menos do que já fazíamos. Além disso, deveríamos também pensar antes, em quem queremos ser quando envelhecermos, porque, como ela me explicou, velho não muda, só piora.                 
                              Naquela época, ainda era bastante jovem e nunca tinha parado para pensar sobre isso, mas não tive dúvidas de que ela estava coberta de razão, e decidi guardar aquela lição, porque tive a certeza que, um dia, ela me serviria. Já há algum tempo, venho agregando atividades na minha vida - escrever é uma delas. E hoje, à beira dos cinquenta, ou na juventude da velhice - como bem definiu outra amiga, dia desses - decidi começar a pensar em quem, afinal, eu quero ser, quando envelhecer.
                              Confesso que já pensei e refleti bastante, mas até agora só consegui concluir que, com toda certeza, quando envelhecer quero ser leve. Não daquelas velhas obcecadas por dietas. Nada disso. Leve, como aquelas pessoas que vivem a vida com menos peso na alma, menos tralhas na bagagem, menos aspereza nas palavras e nos gestos, menos consumismo e pressa.
                              E como tenho plena consciência que, para ser leve nessa vida, é preciso fazer um trabalho de peso, decidi escrever a minha lição de casa para ir treinando e assim, quem sabe, poder chegar ao fim na melhor versão de mim mesma, e quem sabe, poder fazer do meu terceiro ato, um grand finale.
                              Claro que ela ainda não está terminada. Esse é só o primeiro rascunho, que pretendo ir implementando com o tempo e a experiência, mas é um começo, que deixo aqui registrado para compartilhar com aqueles que tiverem interesse, e para não me esquecer.
A arte de envelhecer leve. Para treinar e praticar.
 
1- LIVRE-SE DOS SEUS PRECONCEITOS.

2- Tenha menos coisas. Como dizia Buda, “quanto mais coisas você tem, mais terá com o que se preocupar”. Quanto menos coisas você tiver, mais espaço na sua vida você terá para viver com serenidade, ser feliz e afastar-se de sentimentos como falta, angústia e ansiedade.  Menos é mais.
3 – Ao invés de juntar dinheiro para ter coisas, junte dinheiro para fazer coisas. Coisas são só coisas. Por isso ame mais as pessoas e use as coisas, porque o oposto não funciona.
4 – Sorria e tenha sempre um tempo para aqueles que te fazem bem e para quem te faz rir. Rir das próprias desgraças com certeza deixa a vida mais leve e dá mais resultado que botox. Otimismo e senso de humor são coisas que a gente aprende e treina.
5 - Não leve a vida muito a sério. Você não precisa estar sempre certa, muito menos está obrigada a ter certeza de tudo.
6 – Não reclame por hábito. Elogie sempre que tiver vontade. Pense duas vezes antes de criticar. Doe aos outros aquilo que você tem de melhor, e assim você despertará o que há de melhor em você.
7- Seja gentil, educada e generosa. Agradeça sempre. Faça do seu cotidiano um exercício de delicadeza e respeito.
8- Não há jeito de morrer sem marcas, porque não há como viver sem ser marcado pela vida. Por isso relaxe e não se incomode tanto com as marcas do tempo. Elas são a prova de que você continua viva.
9 – Pense menos. Evite pensamentos incômodos e dispensáveis, que não te levarão a lugar algum e não fazem bem. Condicione-se para funcionar a seu favor, cultivando pensamentos positivos.
10 - Livre-se das cracas grudadas em sua alma e alargue seu espírito com a experiência. Fique menos vaidosa e mais divertida. Descubra qual é a sua medida e quais são os seus limites nessa nova configuração e reinvente-se até o fim.
11 - Viaje, passeie, converse, faça ginástica. Dance. Cante. Ria alto. A vida existe em movimento.

                              Por enquanto é isso. Não tenho dúvidas de que envelhecer é um grande privilégio.  E como bem disse Henri Amiel: “Saber envelhecer é a obra-prima da sabedoria e uma das mais difíceis tarefas na grande arte de viver.” Mas como não existe nenhuma lei que nos obrigue a viver da mesma maneira, e principalmente porque o que é bom para mim, pode ser péssimo para outros, me conte aí: 
                      - E você, já pensou em quem você quer ser, quando envelhecer?

 

quarta-feira, 10 de maio de 2017

BAÚ DAS MEMÓRIAS E A ARTE DE COZINHAR

POR ANNATROTTAYARYD
   
     Às vezes me permito passear pelos jardins da minha memória, em busca de recordações. E foi num desses passeios que me lembrei dos dias em que, ainda criança, fazia as lições da escola na mesa da cozinha, enquanto minha mãe preparava as refeições. Era uma maneira simples e gostosa de ficarmos juntas e de nos ajudarmos. Entre uma resposta e outra, eu pegava as panelas, as verduras e os legumes na geladeira, os temperos no armário e a observava, na sua arte de cozinhar. 
    Em casa, a cozinha não tinha lá muitas surpresas. Era imposto um cardápio fixo para a semana que, com leves variações conforme as estações, servia para o ano inteiro. Mesmo assim, minha mãe era a melhor cozinheira que conhecia. Seu bom humor e sabedoria sempre me impressionaram. Era prática, rápida e tinha o dom do improviso entre as panelas. Aproveitava tudo o que tinha à mão, sem pensar muito no assunto e sem muita pompa. E não raras vezes recorria a temperos e segredinhos que conhecia para corrigir e fazer dar certo aquilo que parecia desandar, com tanta confiança, que nunca duvidava do resultado. 
    Com um jeito especial de fazer triunfar a estética sobre a escassez, sempre introduzia alguma variante e adornava o prato com originalidade. É bem verdade que não era daquelas que domina a arte de transformar um repolho em um ikebana, longe disso. Mas tinha lá sua graça. E também seus truques.
     Lembro-me perfeitamente do dia em que minha avó anunciou que viria em casa e minha mãe foi correndo comprar um bolo, na melhor doceria dos arredores. Chegando em casa, tirou os enfeites, colocou-o em um prato do nosso jogo de louça, depois deu duas voltas ao redor da mesa da sala de jantar pulando, enquanto me explicava que era para ele ‘desmaiar’ o suficiente a ponto de parecer preparado em casa.
      Quando numa crise de risos, servi o bolo para minha avó, minha mãe quase me triturou com o olhar. Ainda bem, minha avó nunca entendeu nada sobre esse momento. Essa recordação sempre me faz agradecer muito por fazer parte de uma geração que já não crucifica e nem menospreza as mulheres que não cozinham, ou não contam com muito tempo para isso. Por sorte, esse tempo passou.
    E foi assim que, desde muito cedo, passei a me interessar pela cozinha e a arte de cozinhar, o que hoje reconheço, me trouxe muitas vantagens. Aprendi, por exemplo, que se uma pessoa tem que passar o dia todo preparando uma receita, sem tempo para mais nada, a receita não é boa e deve ser imediatamente descartada. Receita boa tem que sobrar disposição. Que com um pouco de imaginação e vontade, você pode transformar algo trivial em uma ocasião inesquecível. Aprendi também, que o que realmente importa é manter o bom humor enquanto cozinha, e principalmente, que o maior segredo de todos é a confiança. Por isso, nunca duvide do resultado. 
    Espero seguir a vida cultivando o gosto pela cozinha – esporádico é claro, porque todo dia ninguém merece. E um dia, quem sabe, usá-lo como um fator determinante do meu destino, porque acredito no poder da culinária para reunir a família e amigos.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

SORORIDADE

                                           ESCRITO POR ANNATROTTAYARYD
                                           e publicado no Correio da Cidadania
       http://www.correiocidadania.com.br/2-uncategorised/12484-sororidade

O slogan “mexeu com uma, mexeu com todas”, acom­pa­nhado da hashtag #che­ga­de­as­sédio, es­tam­pada nas ca­mi­setas de atrizes glo­bais e re­pro­du­zida nas redes so­ciais, re­cen­te­mente, mexeu co­migo.

Fi­quei com um gos­tinho de evo­lução e a sen­sação de que nos unir é pos­sível. Essa cam­panha não só ilu­minou um crime que vive da ver­gonha e do medo, mas prin­ci­pal­mente de­sen­ca­deou uma onda de in­dig­nação ao as­sédio se­xual so­frido por uma mu­lher no am­bi­ente de tra­balho, trans­for­mando o fato in­di­vi­dual em uma questão co­le­tiva.
       
Mu­lheres se iden­ti­fi­cando e per­ce­bendo o quanto é im­por­tante a união para ajudar a que­brar o si­lêncio é sim­ples­mente fan­tás­tico.
      
Não se trata de julgar aquilo que não vimos, muito menos achar que existem santos ou demô­nios de qual­quer dos lados, como gritam as opi­niões em con­trário. São apenas as mu­lheres di­zendo que não querem que isso acon­teça com mais nin­guém. Que não es­tamos so­zi­nhas e essa é uma luta que tem que ser de todas nós.
      
Em ou­tras épocas, cer­ta­mente, a mai­oria diria: “bo­bagem, amiga. É brin­ca­deira. Não liga”. Mas aí é que está. Não é brin­ca­deira. É ma­chismo. É exer­cício de poder. É as­sédio, sim.            
       
O que me fez lem­brar do con­ceito de so­ro­ri­dade. Se­gundo Lola Aro­no­vich, pro­fes­sora do de­par­ta­mento de lín­guas es­tran­geiras da Uni­ver­si­dade Fe­deral do Ceará e au­tora de um dos mai­ores blogs fe­mi­nistas do Brasil, o Es­creva Lola Es­creva, so­ro­ri­dade “vem de ‘irmãs’ e vai contra esse mito de que as mu­lheres não podem ser amigas”.  
      
Uma pa­lavra fo­ne­ti­ca­mente bo­nita e de um sig­ni­fi­cado re­pre­sen­ta­tivo que veio para que­brar um dos braços mais fortes do pa­tri­ar­cado: a ri­va­li­dade entre mu­lheres, que serve de ver­da­deiro es­cudo para o opressor, nos fa­zendo lutar uma contra as ou­tras en­quanto o que tem de ser des­truído – esse sis­tema que es­tupra mu­lheres a cada 12 se­gundos – per­ma­nece firme e forte.
      
A pa­lavra so­ro­ri­dade não existe na língua por­tu­guesa, mas uma pa­lavra muito se­me­lhante pode ser en­con­trada em qual­quer di­ci­o­nário: fra­ter­ni­dade, des­crita como so­li­da­ri­e­dade entre ir­mãos ou har­monia entre os ho­mens. Ambas vêm do latim, sendo que sóror cor­res­ponde a irmãs e frater a ir­mãos. Por óbvio, foi a versão mas­cu­lina que ficou entre nós.
   
En­tre­tanto, em­bora ainda seja des­co­nhe­cida por muitas pes­soas, so­ro­ri­dade é uma pa­lavra bas­tante uti­li­zada e fa­mi­liar às in­te­grantes dos mo­vi­mentos fe­mi­nistas, para tra­duzir o sen­ti­mento de aco­lhi­mento entre as mu­lheres fe­mi­nistas, na me­dida em que sig­ni­fica ir­man­dade, união e cui­dado mútuo entre mu­lheres, algo pri­mor­dial para que haja um sen­ti­mento de grupo e re­co­nhe­ci­mento das opres­sões so­fridas em con­junto pelas mu­lheres.
      
Se­gundo Maiara Mo­reira de Rios, “so­ro­ri­dade é uma di­mensão ética, po­lí­tica e prá­tica do fe­mi­nismo con­tem­po­râneo. É uma ex­pe­ri­ência sub­je­tiva entre mu­lheres na busca por re­la­ções po­si­tivas e sau­dá­veis, na cons­trução de ali­anças exis­ten­ciais e po­lí­ticas com ou­tras mu­lheres, para con­tri­buir com a eli­mi­nação so­cial de todas as formas de opressão e ao apoio mútuo para al­cançar o em­po­de­ra­mento vital de cada mu­lher. A so­ro­ri­dade é a cons­ci­ência crí­tica sobre a mi­so­ginia e é o es­forço tanto pes­soal quanto co­le­tivo de des­truir a men­ta­li­dade e a cul­tura mi­só­gina, en­quanto trans­forma as re­la­ções de so­li­da­ri­e­dade entre as mu­lheres” (RÍOS, Maiara Mo­reira de, Y DE LOS Mar­cela La­garde. So­ro­ridad. In: GAMBA, Su­sana Be­a­triz. Dic­ci­o­nario de es­tú­dios de gé­nero y fe­mi­nismos. Bu­enos Aires: 2009.    
     
Mas não po­demos ter a falsa ideia de que so­ro­ri­dade é uni­versal, porque ela não é. E para ser uma ex­pe­ri­ência em­po­de­ra­dora pre­cisa ser de­vi­da­mente con­tex­tu­a­li­zada, sob pena de per­pe­tuar uma falsa e sim­plista su­po­sição de ir­man­dade, que nega as di­fe­renças e acaba ba­na­li­zada.
       
Por isso, para ser de ver­dade, a so­ro­ri­dade pre­cisa conter também a ideia de in­ter­sec­ci­o­na­li­dade, pré-re­qui­sito para que a ir­man­dade fe­mi­nina seja mais atenta e cui­da­dosa, ob­ser­vando as ne­ces­si­dades es­pe­ciais de cada grupo de mu­lheres e as di­fe­rentes formas de opressão que elas so­frem.
      
Como ex­plica Pa­trícia Hill Collis, é “a in­ter­sec­ci­o­na­li­dade que nos ofe­rece uma lente pela qual se vê raça, classe, gê­nero, se­xu­a­li­dade como pro­cessos que se cons­ti­tuem mu­tu­a­mente, se apre­sen­tando ma­te­ri­al­mente na vida co­ti­diana das pes­soas de ma­neiras com­plexas, como con­fi­gu­ra­ções muitas vezes con­tra­di­tó­rias, que se so­bre­põem, in­te­ragem e in­ter­sec­ci­onam”.
       
Uma mu­lher negra, por exemplo, que pre­cisa lidar ao mesmo tempo com o ma­chismo e com o ra­cismo, é di­fe­rente de uma branca. Aliás, por tudo o que pude ler, acre­dito que na ex­pe­ri­ência do Brasil foram e con­ti­nuam sendo as mu­lheres in­dí­genas e ne­gras aquelas ca­pazes de exercer de forma mais ampla e pro­funda a so­ro­ri­dade.
 
Prin­ci­pal­mente quando per­ce­bemos que essa prá­tica flo­resceu, por exemplo, no con­texto ci­tado da es­cra­vidão, entre as po­pu­la­ções mais po­bres e mais vi­o­len­tadas do país. Nos qui­lombos, al­deias e ter­reiros, onde mu­lheres eram ca­pazes de, de­pois de levar 100 chi­co­tadas, cuidar da pele e ca­belo de mu­lheres brancas cau­sa­doras de suas ma­zelas e ainda serem amas de leite dos fi­lhos delas.
      
Por isso a im­por­tância de dar o foco ne­ces­sário para as in­te­re­sec­ções com ou­tras opres­sões, porque uma real união fe­mi­nina, no sen­tido de ir­man­dade, cui­dado e res­peito mútuo deve passar pri­meiro pelo re­co­nhe­ci­mento das di­fe­renças, e a luta fe­mi­nista só pode existir se também for an­ti­pa­tri­arcal, an­tir­ra­cista e an­ti­ca­pi­ta­lista.
      
Apesar de todas as di­fi­cul­dades, já existem muitas ini­ci­a­tivas e exem­plos de ati­tudes ca­pazes de me­lhorar e fa­ci­litar a vida de muitas mu­lheres que pre­cisam so­bre­viver em uma so­ci­e­dade ma­chista e hostil.
      
“Vamos juntas?”, é um pro­jeto que surgiu no ano pas­sado com a ideia de unir mu­lheres para que não te­nham tanto medo e in­se­gu­ranças quando têm de se lo­co­mover pela ci­dade. Na pá­gina do Fa­ce­book do pro­jeto, as me­ninas des­crevem a ideia da se­guinte ma­neira: “Na pró­xima vez que es­tiver em uma si­tu­ação de risco, ob­serve: do seu lado pode estar outra mu­lher pas­sando pela mesma in­se­gu­rança. Que tal irem juntas?”
      
O pro­jeto se mantém de forma vo­lun­tária, com me­ninas que ajudam na ad­mi­nis­tração da pá­gina e até no de­sen­vol­vi­mento de um apli­ca­tivo, mas a cri­a­dora, Babi Souza, quer ex­pandir o pro­jeto ainda mais, e por isso montou uma cam­panha no site Ca­tarse.
       
Também no ano pas­sado, al­gumas mu­lheres re­sol­veram es­pa­lhar uma men­sagem no Fa­ce­book, a in­cen­tivar que mães prestem o Enem, dis­pondo-se a cuidar gra­tui­ta­mente das cri­anças du­rante os dois dias da prova. Se­gundo a jor­na­lista Clara Ce­rioni, 20 anos, uma dessas mu­lheres, ela disse de­sejar usar seu pri­vi­légio de já estar na fa­cul­dade para ajudar ou­tras mu­lheres e ainda afirmou que o MEC de­veria ter uma es­tru­tura que pos­si­bi­li­tasse que essas mães fi­zessem a prova com tran­qui­li­dade. “É papel deles também rein­tro­duzir na so­ci­e­dade essas mães e fazê-las com que elas possam es­tudar para ter um bom fu­turo”.
      
A pá­gina criada no Fa­ce­book para or­ga­nizar as mães que querem fazer a prova e as mu­lheres que de­sejam cuidar das cri­anças é: https://​www.​fac​eboo​k.​com/​Pelas-M%C3%A3es-do-Enem-562181053907049/?fref=ts&__mref=mes­sa­ge_­bubble.
      
Outra ini­ci­a­tiva bem ba­cana foi de uni­ver­si­tá­rias que cri­aram um sis­tema para ajudar co­legas com “aci­dentes” mens­truais, e que deu muito certo. Com uma caixa de plás­tico, uma folha de papel e ca­netas e um pu­nhado de ab­sor­ventes, Manu Ma­rinho, uma es­tu­dante de De­sign re­ci­fense de 20 anos de idade, criou um posto de do­a­ções de ab­sor­vente num dos ba­nheiros do Centro de Artes e Co­mu­ni­cação da Uni­ver­si­dade Fe­deral de Per­nam­buco, para que nin­guém mais passe por cons­tran­gi­mentos quando for sur­pre­en­dida pela mens­tru­ação.

Na pla­quinha es­creveu: “pegue um, caso pre­cise. Deixe um, se tiver so­brando”, cri­ando um mo­vi­mento e uma ideia de ação per­ma­nente que es­pa­lhou so­li­da­ri­e­dade e so­ro­ri­dade para muito além do que havia ima­gi­nado. Logo, a ideia foi es­ten­dida para ou­tros ba­nheiros da uni­ver­si­dade. Se quiser saber mais sobre essa ini­ci­a­tiva, pode ler aqui, no  http://​mar​coze​ro.​org/​o-​des​pert​ar-​da-​sor​orid​ade.
      
Também existem grupos fe­mi­ninos se­cretos no Fa­ce­book, onde só en­tram pes­soas in­di­cadas por amigas, cujos laços ex­tra­polam a in­ternet. “Com câncer de mama e dor nas pernas, a se­cre­tária Fa­biana Ri­beiro, 35 anos, ouviu do mé­dico que de­veria fazer ca­mi­nhadas. “Mas não ia ter força para ca­mi­nhar so­zinha”, diz. Postou o di­lema no grupo. Na manhã se­guinte 14 mu­lheres des­co­nhe­cidas a es­pe­ravam num parque perto de casa” http://​www1.​folha.​uol.​com.​br/​cot​idia​no/​2016/​05/​1766587-grupos-se­cretos-em-rede-so­cial-viram-co­mu­ni­dades-de-apoio-entre-mu­lheres.shtml.
       
Sheryl Snad­berg, CEO do Fa­ce­book, também criou uma co­mu­ni­dade que ela chama de Lean In, algo como “apoiem-se”, em por­tu­guês. A ideia é, jus­ta­mente, fazer com que mu­lheres se unam e en­con­trem um apoio mútuo para en­fren­tarem as di­fi­cul­dades e os abusos que passam na vida mo­derna. Aí está, ba­si­ca­mente, de­fi­nido o con­ceito de so­ro­ri­dade.
      
E em seu dis­curso, após ficar viúva, es­cla­receu a im­por­tância do apoio mútuo, em uma de suas fa­cetas:

“As mu­lheres tornam-se mães sol­teiras por vá­rias ra­zões: morte do par­ceiro, fim de uma re­lação, es­colha pró­pria. Há pouco mais de um ano, fi­quei viúva e me juntei a elas. Antes, eu não sabia como é di­fícil ter su­cesso no tra­balho quando você está so­bre­car­re­gada em casa. Todos os dias essas mães fazem sa­cri­fí­cios, dri­blam bar­reiras e criam fa­mí­lias lindas apesar das de­mandas. O mundo não fa­ci­lita a vida delas. É ne­ces­sário uma co­mu­ni­dade para criar uma cri­ança, e muitas mães sol­teiras pre­cisam e me­recem mais do que es­tamos dando a elas” (AQUI).
       
Para quem não sabe, es­treia no dia 5 de maio desse ano (2017), no canal Curta!, o do­cu­men­tário Mexeu com Uma, Mexeu com Todas, da ci­ne­asta Sandra Wer­neck (Ca­zuza - O Tempo Não Para). O filme de­bate o tema da vi­o­lência contra a mu­lher e se propõe a ser uma fer­ra­menta de dis­se­mi­nação e de cons­ci­en­ti­zação da causa.    
       
Par­ti­ci­pante da 22ª edição do Fes­tival de Do­cu­men­tá­rios É Tudo Ver­dade, o 19º filme da car­reira de Sandra re­trata casos re­la­tados por di­fe­rentes mu­lheres. Entre elas estão a atriz e mo­delo Luiza Brunet, a na­da­dora Jo­anna Ma­ra­nhão, a es­cri­tora Clara Aver­buck e a bi­oquí­mica Maria da Penha Maia Fer­nandes, que deu o nome à lei que tornou mais dura a pu­nição contra a vi­o­lência do­més­tica e fa­mi­liar contra a mu­lher. Além dos de­poi­mentos, a pro­dução traz ima­gens de pro­testos que ex­põem a vul­ne­ra­bi­li­dade da mu­lher no Brasil.
       
E, apesar de o tí­tulo ter sido es­co­lhido por uma frase vista pela di­re­tora em um cartaz du­rante uma das ma­ni­fes­ta­ções exi­bidas no do­cu­men­tário, vimos essa ex­pressão ga­nhar uma nova di­mensão ao se tornar o slogan de pro­testo contra o as­sédio co­me­tido pelo ator José Mayer, so­frido e de­nun­ciado pela fi­gu­ri­nista da Globo Susllem To­nani, antes da es­tréia do filme.
          
“MEXEU COM UMA MEXEU COM TODAS” não é algo fácil e des­com­pli­cado de se pra­ticar, mas com cer­teza é pos­sível. O que es­pero é que esse “mexeu com uma, mexeu com todas” de hoje, oxalá ul­tra­passe os cor­re­dores da Globo e in­clua Ja­naina Pas­choal, Dan­dara (a tran­se­xual morta no Ceará), Eliza Sa­múdio (as­sas­si­nada pelo go­leiro Bruno), Jo­anna Ma­ra­nhão e muitas ou­tras ví­timas es­car­nadas pelo ma­chismo ins­ti­tu­ci­o­na­li­zado do Brasil. E que cada vez mais SO­RO­RI­DADE se es­palhe por nós.

 

segunda-feira, 3 de abril de 2017

desCasos


                                   Em novembro de 2016, Alexandra Szafir, uma advogada criminal muito bem-sucedida e conceituada, defensora intransigente da advocacia pro bono e da defesa dos mais fracos, morreu, vítima da ELA. Sim, ela era irmã gêmea de Luciano Szafir, filha de família abastada e conhecida da sociedade paulistana.

                                    Eu não a conheci. A bem da verdade, nem sabia de sua existência. Quem me contou sobre Alexandra foi uma amiga - que teve a oportunidade e o privilégio de trabalhar com ela - quando nos encontramos recentemente no velório de um amigo, que também faleceu vítima da ELA.
                                    Desde então, sua história não me saiu mais da cabeça, e, em pesquisas pela internet, fiquei encantada com tudo o que li. Alexandra é eternamente  inspiradora!
                                    Foi então que resolvi registrar sua história aqui, para que outras pessoas também possam conhecê-la.                                       
                                    Para quem não sabe, ELA, também conhecida por esclerose lateral amiotrófica, é uma doença horrorosa, sem cura da medicina, que progressiva e avassaladoramente paralisa os músculos e leva inexoravelmente à morte.
                                    Por isso, receber a notícia de ser portador de ELA é receber nas mãos, sem apelação a Deus ou à ciência, uma sentença de morte. Ao doente, primeiro vai-lhe faltar força muscular para os movimentos mais simples: segurar uma caneta, fechar um zíper, apertar a válvula sanitária, abraçar um filho. Antes disso, ou logo depois dessas manifestações, podem ocorrer também quedas do nada – está-se andando e, de repente, desaba-se. Em poucos meses, a ELA evolui à paulatina e desesperante perda da fala, e ocorresse essa perda abruptamente seria menos chocante do que acontecer por etapas: dificuldade de pronunciar algumas palavras, depois um balbuciar, na sequência um emitir de grunhidos, finalmente a ausência de qualquer som e do mexer dos lábios – com muita saliva escorrendo pelo queixo. Aí vem a impossibilidade de andar, a cabeça insustentável para um pescoço que parece feito de mola, restando ao enfermo somente o movimento dos olhos – com o corpo paralisado, são eles, os olhos, que se tornam mais vivos e inquietos, e possibilitam ao doente expressar o que lhe vai pela mente. Como um condenado à morte que caminha lúcido para o patíbulo - trajeto que dura em média, de três a cinco anos - o doente mantém o raciocínio claro e sabe tudo o que está acontecendo, porque somente os neurônios que comandam nervos e movimentos se degeneram, e assim permanece, lúcido, até que todos os músculos do corpo se petrifiquem e a morte finalmente chegue, sob a forma de parada respiratória.     
                                    A ELA ficou mais conhecida com o ‘desafio do balde de gelo’ – talvez você se lembre disso - que viralizou em 2013 na internet, e tinha por objetivo arrecadar dinheiro para a pesquisa da doença. Muitos também a identificam em razão do filme de Stephen Hawking.
                                   Alexandra foi diagnosticada com ELA em 2005. Isso, entretanto, não a impediu de continuar trabalhando arduamente, nem de receber, em 2006, o Prêmio Advocacia Solidária, oferecido pelo TJ/SP, IDDD e Instituto Pro Bono para homenagear advogados que trabalham gratuitamente em causas sociais. Já em estágio avançado da doença, ela ainda escreveu dois livros: “desCasos, uma advogada às voltas com o direito dos excluídos”, publicado em 2010, pela Editora Saraiva, e “desCasos 2”, lançado em 2014, cuja renda, no lançamento, foi toda revertida para pesquisar a cura da ELA.
                                  As histórias são o resultado de sua experiência pessoal, ao participar, nos anos 90, de uma ação inovadora no Brasil, por meio do Instituto de Defesa do Direito de Defesa, de mutirões em cadeias.                    
                       Segundo relatos, Alexandra escreveu o primeiro livro, “desCasos”, com seu nariz ‘intrometido’ e a ajuda de um software, instalado em seu notebook por sua fonoaudióloga, que a possibilitava mexer o mouse. Já o segundo, ela escreveu com o piscar dos olhos, o único movimento que então lhe restava.
                      São livros pequenos de tamanho, mas enormes em humanidade, que retratam, em uma prosa fácil e convidativa, a busca de Alexandra pela justiça e sua enorme determinação em desfazer injustiças.
                        Corajosos, os livros não só escancaram as entranhas da Justiça Penal brasileira, expondo suas mazelas, como também colocam o dedo na ferida,  mostrando a inoperância ou indiferença alheias e a truculência daqueles que Michel Foucault chamava de “pequenos ortopedistas da moral”, o que dói um bocado.
                        São falhas processuais, abusos de poder, tortura da polícia judiciária. Há juízes soberbos, promotores insensíveis, advogados omissos. De tudo um pouco se encontra nos causos que ela nos conta de forma didática e por vezes sarcástica, permitindo até mesmo aos leigos mergulhar, sem dificuldade, no horizonte penal.
                        E, ao mostrar os descaminhos da justiça, ela nos convida à reflexão. Não somente sobre os problemas da Justiça brasileira, mas também sobre a atuação de todas as pessoas envolvidas com o direito e o nosso verdadeiro compromisso com a justiça.
                        Nas palavras de Leopoldo Stefanno L. Louveira, “A obra com a qual o leitor se depara fatalmente o fará pensar sobre a famosa frase “ver sem enxergar” as não pessoas, os excluídos, os esquecidos que gravitam às bordas do meio social. O recado é claro: se cada um voltasse o olhar para o “outro”, talvez muitos dos casos/descasos aqui contados pudessem ter sido evitados...”
                        É bem verdade, muitos dirão que a maioria dos excluídos de Alexandra mereceram as sanções que receberam, pelos males que infligiram a outros. Entretanto, se é verdade que não podemos esquecer a dor das vítimas que sofreram com violações e se sente impotentes, também não podemos deixar de ver os esquecidos ou maltratados nos porões do sistema criminal, vítimas de diferentes injustiças. Não existem cidadãos mais ou menos humanos que outros. Além disso, ninguém pode ser mais responsável do que as sanções que lhes são atribuídas.  
                        De outro lado, para discutirmos sobre a justiça que queremos, precisamos antes, ver e mostrar a justiça que não queremos, e é exatamente essa que os livros de Alexandra nos mostram, nos permitindo aprender com olhares alheios, que flagram aquilo que muitas vezes os nossos próprios não são capazes ou não estão dispostos a enxergar.         
                                    Mas, se os casos e descasos impressionam, o difícil é saber, ao final, o que comove mais: se são as histórias de descasos do sistema criminal ou esforço incomum da autora para contá-las.
                                  Verdadeiro exemplo de humanidade e superação, Alexandra Szafir, em suas entrevistas que circulam pela internet, nos conta o segredo: “Não tenho vocação para ser infeliz...”.
                                  E nos dá a dica: “...acho que tenho um mecanismo inconsciente de autoproteção, porque não fico pensando no que eu não posso fazer, simplesmente faço o que posso.” (blog deficiente Ciente)                                                                                     
            Atualmente há, no Brasil, cerca de 14 mil pessoas com ELA, e, no mundo, são aproximadamente 400 mil os que desenvolveram a doença.     
            Não obstante, para o tratamento da doença ainda existem muito poucos profissionais capacitados e uma complicação imensa para a realização do diagnóstico, o que leva a pessoa a peregrinar por cerca de um ano, de consultório em consultório, de laboratório em laboratório, até que a doença seja identificada em diagnóstico por exclusão, o que é muito tempo, se considerarmos que o período de vida médio é de três a cinco anos. Além disso, o serviço de fisioterapia em casa, essencial quando a paralisia se agrava, não é oferecido pela rede pública e são poucos os planos de saúde que o contemplam.
            Para representar os pacientes nessa luta e tentar fazer com que ela ganhe força e visibilidade, existe a Associação Brasileira de Esclerose Lateral Amiotrófica, que faz o que pode, mas não ainda tem força política suficiente.
            A luta é árdua e longa. Assim como ocorreu com o câncer e a Aids - enfermidades cujos diagnósticos representavam a morte e que hoje são, na maioria dos casos, controláveis, o que se espera é que a ciência também golpeie a Esclerose Lateral Amiotrófica. Para o futuro, a grande esperança são as pesquisas com células-tronco, estruturas versáteis capazes de se transformar em qualquer tecido do corpo.
                                 Esse post é o registro singelo da minha admiração eterna à guerreira Alexandra Szafir, que nos inspira a continuar lutando, sem nunca perder a indignação com aquilo que está errado. #mulher incrível#gentequefaz#